Ao longo dos anos, o vinho tem desempenhado um papel central na sociedade. Para além do seu valor económico – só em Portugal, o setor representa 2,68% do PIB nacional -, está associado a práticas culturais, saberes e tradições que ajudam a construir identidades locais, mantendo-se como um dos produtos mais duradouros da História. A ligação entre agricultura e cultura explica por que razão várias regiões vinícolas são hoje procuradas não apenas pelo vinho que produzem, mas também pela experiência estética e histórica que oferecem, como é o caso do Alto Douro Vinhateiro, Património Mundial da Humanidade pela UNESCO desde 2001.
O visitante encontra paisagens construídas ao longo de séculos, técnicas tradicionais preservadas e comunidades que continuam ligadas ao ritmo das colheitas. Em território nacional, essa diversidade é particularmente evidente. O Douro destaca-se pela imponência dos socalcos e pela dureza do trabalho em encosta. O Alentejo associa-se a extensões amplas e grandes herdades. A Bairrada ganhou notoriedade pelos espumantes e pela gastronomia. Já a região Oeste beneficia da proximidade urbana e da ligação entre tradição agrícola e novos consumidores. Cada território produz vinho, mas também narrativas próprias.
Mais do que um produto agrícola, o vinho tornou-se uma forma de representar lugares. Uma garrafa pode transportar referências ao clima, ao solo, às castas e ao trabalho humano de uma região inteira. É por isso que muitos produtores insistem que vender vinho é também contar a história de um território.
Entre vinhas, memórias e gerações
Situada em Matacães, concelho de Torres Vedras, a Sociedade Agrícola Vítor M. Napoleão Galantinho, um produtor local que juntou a tradição familiar com a produção vinícola, reflete uma realidade comum a muitas famílias portuguesas, a de que o vinho não é apenas um produto, mas sim uma parte da herança que atravessa gerações. Entre vinhas, adegas e processos de produção que combinam tradição e inovação, a história desta família perde-se no tempo.
É neste cenário que se cruza uma nova geração. Catarina Napoleão, filha de Vítor Napoleão, representa a ponte entre a tradição e o futuro. “Sinto que não comecei nada, apenas continuo algo que nunca parou”, afirma. Criada entre vindimas, tratores e férias passadas na Quinta da Portucheira, Catarina Napoleão recorda o cheiro da terra e o movimento da quinta como memórias que acabaram por moldar o seu percurso. Com o passar das gerações, o projeto foi-se adaptando aos desafios que iam surgindo na sociedade. “O meu bisavô lançou as bases, o meu avô consolidou e o meu pai trouxe uma visão mais ampla”, e agora é a sua vez de dar continuidade ao percurso que a própria descreve como inesperado, mas inevitável.

Atualmente, falar de vinho implica ir além da produção. Nos últimos anos, o enoturismo ganhou destaque em várias regiões portuguesas, transformando quintas e adegas em espaços de experiência. As visitas guiadas, provas de vinho e o contacto direto com os produtores fazem parte de uma nova forma de consumir vinho e é esta forma que aproxima os consumidores, deixando-os mais ligados à viticultura.
Essa proximidade torna-se mais relevante quando se percebe que o vinho começa muito antes da prova. A produção segue um calendário exigente, feito de observação e espera: poda no inverno, vigilância na primavera, maturação no verão, vindima no momento certo, fermentação, estágio e engarrafamento. Catarina Napoleão sublinha que, apesar da modernização, há decisões que continuam dependentes da experiência acumulada. A tecnologia encurta tempo e aumenta o controlo, mas não substitui o olhar sobre a vinha nem a sensibilidade necessária para perceber quando intervir. Num setor cada vez mais técnico, esse saber transmitido entre gerações continua a ser uma das formas menos visíveis e mais decisivas de património.
Reinterpretar uma cultura milenar
O vinho deixa de ser apenas algo que se bebe e passa a ser algo que se vive. “O visitante procura hoje mais do que uma garrafa: quer autenticidade, contacto com o produtor e histórias para levar consigo.” Na perspetiva de Catarina Napoleão, continuar este percurso familiar implica também reinterpretar o legado recebido: “Se noutras gerações o principal objetivo passava por produzir e escoar a colheita, hoje tornou-se igualmente necessário comunicar, criar relação com o público e adaptar-se a novos hábitos de consumo.”
A criação da loja Agrovinhos surgiu precisamente dessa necessidade de aproximação entre produtor e consumidor. Num período em que vender vinho ao preço justo se tornava difícil, a família optou por encurtar distâncias e vender diretamente ao público. O projeto acabou por crescer e mostrou que, muitas vezes, o valor do vinho aumenta quando o consumidor conhece quem o produz e entende o trabalho por detrás de cada garrafa. Para Catarina Napoleão, existe também uma mudança na forma como se bebe vinho em Portugal. “Se, no passado, o consumo estava mais ligado à quantidade e à rotina diária, hoje cresce a valorização da qualidade, da origem e da experiência. O consumidor quer saber o que está a beber, de onde vem e que história acompanha aquele rótulo”, refere.
A mudança nas expectativas dos clientes obriga os produtores a olhar para o mercado de forma diferente. Já não basta produzir bem. É necessário criar identidade, comunicar autenticidade e encontrar formas de se distinguir num setor cada vez mais competitivo. Apesar disso, Catarina Napoleão acredita na continuidade. A ligação afetiva à terra e à memória familiar continua a ser motor importante. “O vinho representa os bons momentos, respeito pelo legado deixado e vontade de estar à altura daquilo que recebi.” Entre aprendizagem e responsabilidade, a nova geração procura manter viva uma tradição antiga sem deixar de dialogar com o presente.
O Palato do Côa: o vinho como elo afetivo
Do outro lado do país, no coração do Douro, João Anacoreta, um dos sócios do projeto Palato do Côa, conta que a ideia surgiu em 2008, quando um grupo de amigos decidiu investir na produção vinícola. “A nossa motivação inicial, e que ainda hoje se mantém, é a de produzir os melhores vinhos do Douro”, explica.
Localizada na Quinta da Saudade, em Vila Nova de Foz Côa, a produção assenta no terroir, um dos elementos mais valorizados no mundo do vinho. As características do solo, do clima e da geografia influenciam o produto final. E, neste caso, os solos alcalinos permitem criar vinhos com perfis distintos.
Mais do que um projeto de negócios, o Palato do Côa representa também uma experiência de uma união entre seis amigos. “Com o projeto do Palato do Côa, descobri uma nova forma de aproximar pessoas, de juntar a família e amigos de forma natural e descontraída. Este projeto tem feito de mim uma pessoa diferente, e espero que melhor”, afirma João Anacoreta, sublinhando ainda a forma como conseguiu “conhecer mais sobre a natureza e a própria região do Douro”.

A paisagem e o trabalho da vinicultura
Se em Torres Vedras a proximidade a Lisboa facilita a ligação ao consumidor, no Douro a paisagem é quem se afirma como o elemento central. Os socalcos, construídos ao longo dos séculos, revelam o esforço humano que é preciso para adaptar o território à produção vinícola. “Pensar que toda aquela paisagem é produto de trabalho humano, braçal, é até comovente”, descreve o sócio do projeto.
Como qualquer outro ramo, este setor também apresenta desafios significativos. A escassez de mão de obra, o envelhecimento da população rural e as alterações climáticas colocam em risco a continuidade destas práticas e, no Douro, os custos de produção são ainda mais elevados devido às características do terreno que obrigam a continuidade do uso manual da vindima. Perante estes desafios, o enoturismo surge como uma oportunidade de valorização. A possibilidade de visitar quintas, participar em vindimas ou realizar provas de vinho transforma o consumidor num participante ativo e é esta experiência que o aproxima do processo produtivo e reforça a ligação ao terreno. Na região Oeste, esta proximidade é facilitada pela localização. “A grande vantagem da região é estar a dois passos de Lisboa e poder encontrar o encanto das paisagens vínicas de beleza indescritível”, refere Catarina Napoleão.
Entre tradição e mudança
O vinho afirma-se cada vez mais como um elemento da cultura portuguesa. Se, por um lado, representa uma herança e tradição, então, por outro lado, exige adaptação constante a um mundo que está constantemente em mudança. A inovação tecnológica, as novas estratégias de mercado e o investimento no enoturismo são algumas das respostas encontradas pelos produtores. Ainda assim, como sublinha Catarina Napoleão, “a tradição dá-nos raízes, a inovação permite-nos crescer”.
O mais recente estudo “Setor do Vinho: Avaliação de impacto socioeconómico em Portugal”, realizado pela Universidade Nova para a ACIBEV-Associação de Vinhos e Bebidas Espirituosas, evidencia a importância crescente do vinho para a economia nacional, tanto pela criação de valor como pela fixação de população no interior do país. Segundo este documento divulgado pelo AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal), o setor do vinho gerou, de forma direta em 2021, cerca de 3 mil milhões de euros de atividade económica e criou 43 mil postos de trabalho. Quando analisados todos os impactos diretos e indiretos, esse valor sobe para 10 294 milhões de euros, e um total de 168 832 empregos. Estes números representam aproximadamente 2,68% do PIB português e cerca de 3,4% do total do emprego em Portugal.
Como indica o AICEP, outro dado importante diz respeito ao crescimento das exportações de vinho em 2022, que atingiram os 941,5 milhões de euros (cerca de 41,3% do valor total da produção direta do setor). Esta performance representa 71,6% das exportações de todo o setor das bebidas, 1,5% do total das exportações nacionais e 0,5% do PIB.
O futuro do setor só dependerá da capacidade de manter o equilíbrio de preservar o conhecimento transmitido entre gerações e de responder aos desafios contemporâneos que são essenciais para garantir a continuidade desta atividade. Num contexto em que os hábitos de consumo mudam e o setor enfrenta novos desafios, muitos produtores procuram afirmar-se através da autenticidade, da qualidade e da ligação ao território. Mais do que competir em quantidade, a aposta passa por valorizar castas, paisagens e histórias que distinguem cada região. Como diz Catarina Napoleão: “O vinho é memória. É esforço. É herança. Não é apenas um produto. É o resultado de gerações que trabalharam esta terra com dedicação”