Prometi a uns amigos em Kiev que não ia usar a palavra “resiliente” para os descrever. Estão fartos. Dizem que não são mais ou menos resistentes do que qualquer outro povo obrigado a seguir com a vida para a frente, após mais de 1500 dias de medo, pólvora e destruição. Que não devem ser admirados pela manutenção do quotidiano, mas pelo esforço de guerra, pelos soldados que sacrificam a vida nas frentes do Donbass e de Zaporíjia. Que duros como o aço são os que foram levados para prisões russas e continuam desaparecidos, impossibilitados de falar com os filhos. Ou os que vivem sob ocupação inimiga. Eles não, eles simplesmente seguem anestesiados, procurando em vão o sabor de uma vida que há muito tempo tem travo a lágrimas. São quatro anos a viver em sobressalto.
Na última noite de 24 de maio, Moscovo lançou sobre a capital ucraniana mais de 600 drones assassinos e 90 mísseis, 36 deles balísticos. Foi uma madrugada aterradora, com explosões incessantes, fumo no ar, vidros a estalar, prédios a estremecer. Quatro mortos, mais de uma centena de feridos. Quem teve a sorte de acordar inteiro e com os bens intocados, iniciou a rotina de rescaldo dos ataques: saiu do abrigo, verificou os pertences, leu onde caíram os projéteis, mandou mensagens aos amigos a dizer que estava a salvo.
Depois, foram fazer aquilo que tinham combinado, ao mesmo tempo que bombeiros, polícia e ambulâncias, habituados a catástrofes, aceleravam para meter ordem na cidade. Alguns vão ao estádio assistir à partida do Dínamo de Kiev, mesmo diante de um edifício danificado por um fragmento de um míssil. Na margem do rio Dniepre, famílias passeiam no parque, enquanto uma banda toca no terraço do centro comercial e jovens bebem cervejas a olhar para a marina orfã de barcos. Há quem pesque, outros mergulham no rio. No centro, mulheres com roupa domingueira olham para as montras, jovens intelectuais bebem “lattes” e “doppios” na esplanada da moda. É um ensaio coletivo para ignorar o chumbo. Morfina partilhada na retaguarda, apaziguadora do luto e do remorso. Resilientes (desculpem, voltei a escrevê-lo)? Sim, mas só porque não há escolha.























