Turismo em Sintra: Uma vila encantada em trânsito lento

A oferta turística está a afetar a sustentabilidade de Sintra e a afastar o comércio de proximidade. A população vê o seu bem-estar comprometido por causa da afluência e reclama respostas do poder local, que, em março deste ano, reagiu com restrições e novas regras de circulação, mas ainda sem certezas quanto a resultados

O corredor de turistas que começa a chegar à Volta do Duche, ao final da manhã, cruza-se com Celeste, uma artista de rua que, com as suas pinturas em azulejo, rompe com a tendência dos tradicionais souvenirs e do comércio de massas. Há quase duas décadas que vem para Sintra pintar e vender as suas peças. “Os portugueses ainda cá vêm, mas há sempre mais turistas estrangeiros”, partilha. Celeste tem visto a paisagem humana a mudar e assiste às vagas de pessoas que, chegando ao Centro Histórico de Sintra, se dirigem para os famosos estabelecimentos, como a pastelaria Piriquita ou o Café Paris.

Todos os dias milhares de pessoas usufruem dos serviços da região. A empresa Parques de Sintra, que gere a atividade turística associada aos monumentos e património locais, conta com mais de três milhões de visitas por ano, das quais retirou uma receita total de 34 milhões de euros, em 2023, segundo o próprio relatório anual de contas. Em média, 8.200 turistas visitam todos os dias património ou monumentos sintrenses, a que se somam visitantes sem ingressos, que ficam de fora desta estatística. Em mês e meio, Sintra recebe quase tantos visitantes como o número de residentes de todo o concelho, que é de aproximadamente 400 mil.

Em média, 8.200 turistas visitam todos os dias património ou monumentos sintrenses, a que se somam visitantes sem ingressos, que ficam de fora desta estatística.

O turismo começa a revelar as fragilidades da região nas respostas à lei da oferta e da procura: “A gestão do território tem demonstrado uma visão segmentária focada nos monumentos enquanto fator de atração turística, e não uma visão integrada que valorize Sintra como património vivo e habitado”, contesta Nuno Agostinho, vogal da associação de moradores QSintra, que procura alertar para os desafios que a região enfrenta com o crescimento do turismo.

Turismo à boleia

A encosta não se mostra desafiante aos curiosos que sobem as apertadas ruelas e se dissipam entre monumentos, lojas, bares e restaurantes. O comércio vira-se cada vez mais para o turismo, mas esta tendência alerta para um desenvolvimento desequilibrado. “O despovoamento e a turistificação do centro histórico são processos que se estão a alimentar reciprocamente”, avisa Nuno Agostinho, numa altura em que se teme o afastamento da população local para os concelhos vizinhos. “Quantos mais visitantes, menos comércio de proximidade, mais lojas de souvenirs e menos habitantes”, acrescenta.

Nas últimas décadas, o comércio tradicional no centro de Sintra tem sofrido uma profunda transformação, com dezenas de espaços a desaparecerem e a reabrirem como lojas de souvenirs para os turistas

Catarina Casinhas tem 21 anos e trabalha em Sintra para pagar os estudos. Sentada atrás de um comprido balcão que expõe produtos de cortiça e os licores tradicionais, serve maioritariamente os estrangeiros que por ali passam. A loja, escondida nas costas de uma porta acanhada que interrompe os degraus de acesso ao Miradouro da Ferraria, tem uma oferta muito heterógena. Ainda que dirigido aos turistas, é um estabelecimento que procura satisfazer as necessidades dos habitantes locais: “Sabemos que as pessoas não têm padarias, talhos ou farmácias aqui perto. Por isso, os nossos fornecedores já enviam os produtos a contar com um pouco daquilo que elas precisam.”

“O problema do trânsito é um fator dissuasor das outrora habituais visitas. Passear ou vir cá almoçar passou a ser uma experiência difícil.”

Problemas de mobilidade

A sobrelotação que as ondas de turistas causam alastra-se para os problemas de mobilidade que afetam quem passeia, bem como os que precisam de chegar a Sintra para trabalhar. Catarina descreve o trânsito como caótico e assume que tem “manhas e truques” para conseguir lugar de estacionamento. As estradas que ligam os bairros históricos de Sintra também já não servem os habitantes locais. Carrinhas, pequenos autocarros e muitos dos famosos “tuque-tuques” competem na apetecida tarefa de levar os visitantes entre os pontos atrativos da capital portuguesa do romantismo.

Os tuque-tuques compõem hoje a paisagem urbana da capital portuguesa do romantismo

Quem chega de comboio pode ser recebido por um enxame de carros UMM, da antiga União Metalo-Mecânica, única empresa portuguesa de automóveis. Estes jipes estão estrategicamente colocados para agarrar a atenção dos que desejam uma volta mais rápida pela região. A mobilidade precária nos bairros históricos de Sintra afeta a atividade turística e económica num círculo vicioso. “O problema do trânsito é um fator dissuasor das outrora habituais visitas. Passear ou vir cá almoçar passou a ser uma experiência difícil”, explica Nuno Agostinho. Os negócios que alimentam a tendência de fazer turismo à boleia dominam as ruas de Sintra.

As cancelas da estação ferroviária não são vigiadas por funcionários da CP, mas por guias palradores que dão as boas-vindas aos visitantes com arrojadas ofertas de passeios pela vila. “Uma volta em Sintra num novo Mercedes-Benz preto”, grita um dos guias que se deixou estacionado à saída das carruagens. Estes trabalhadores já nem dão uso ao português, mas alguns carregam megafones.

A viagem de comboio continua a ser a forma mais fácil de chegar a Sintra. No entanto, a tranquilidade dos apeadeiros da estação contrasta com os caos que os visitantes encontram ao chegar ao centro da vila

O movimento na região é motivado pela oferta turística e o que se tem vindo a notar é que a sua intensificação prejudica quer visitantes, como os que vivem do turismo. Pelo menos, é o que defende Ricardo Castro, gerente da “I Tour You”, uma destas empresas que organizam visitas a Sintra, que se queixa da morosidade nas deslocações entre os principais pontos turísticos: “A cada ano que passa temos mais dificuldades em circular e chegar ao centro histórico.”

“Sintra não tem capacidade para receber tantos carros e autocarros, já que uma única estrada é usada para chegar ao centro da vila.”

Um outro constrangimento a que o negócio de Ricardo Castro se vê sujeito é que, como constata, “Sintra não tem capacidade para receber tantos carros e autocarros, já que uma única estrada é usada para chegar ao centro da vila”. A esta enchente de veículos soma-se a falta de estacionamento, o que, segundo acrescenta, “leva a que os carros tenham de continuar em movimento repetido, que deixa as ruas bloqueadas nas horas de maior afluência”.

A diversidade de veículos para transporte de turistas é evidente logo à chegada à estação, onde vários agentes turísticos impigem serviços a quem chega à vila

Os moradores dos bairros de Sintra, como São Pedro de Penaferrim, Santa Maria e São Miguel, já se juntaram aos movimentos contra a falta de controlo do turismo. Os cartazes que fazem cair sobre as fachadas das casas exigem respostas do poder local. “Sintra: trânsito congestionado no paraíso”, ou “Sintra ≠ Disneyland” são algumas das chamadas de atenção que se materializam nos cartazes. Ricardo Castro confessa que partilha da “frustração” que sentem os habitantes locais que se deparam com o “trânsito caótico e o estacionamento selvagem”: “Não vejo que tenham sido adotadas medidas por parte das autoridades competentes na resolução destas questões.”

A associação QSintra lançou esta iniciativa em julho de 2024, mas, passados dois anos, considera que “não há capacidade de escoamento para a carga atual”. Nuno Agostinho elenca as principais fragilidades: “longas filas de trânsito, falta de estacionamento periférico e a fraca resposta dos transportes públicos”.

A partir de 19 de março deste ano, a autarquia de Sintra acionou um conjunto de medidas e restrições ao trânsito, numa tentativa de reorganizar o território e pôr um travão no caos instalado na vila e estradas de acesso aos principais monumentos. O percurso até ao centro da vila está condicionado e os autocarros apenas circulam num perímetro pré-definido, além de só terem autorização de paragem para deixar sair e recolher os passageiros. As medidas foram monitorizadas durante o período da Páscoa, uma das épocas do ano com mais visitas, e que irão ser reajustadas em função dos resultados.

Em declarações à Imprensa, Anabela Macedo, vereadora responsável pelo pelouro da Segurança e Fiscalização Municipal, garantiu que haverá estacionamento para toda a gente, avançando que o parque do Lourel tem 543 lugares gratuitos. Informou ainda que há mais 450 no parque norte da estação da CP da Portela e 350 junto ao edifício municipal do Urbanismo. No total, segundo a autarquia, são cerca de 1300 lugares pagos e igual número de gratuitos. A Polícia Municipal e a GNR instalaram pontos de controlo operacional em vários locais de acesso ao centro da vila para encaminhar os automobilistas para os parques periféricos, assim como para fiscalizar e garantir que as regras são cumpridas.

O Diário LX contactou várias vezes a Câmara Municipal de Sintra para obter comentários às queixas sobre a mobilidade na vila e para perceber se as medidas recentemente acionadas estão a obter os resultados previstos, nomeadamente conseguir diminuir o impacto que o excesso de turismo tem nas populações, mas até à publicação deste artigo, a autarquia não respondeu a nenhuma das questões apresentadas.

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