Acordei na Praia de Bačvice com muito calor e com a noção concreta do meu arrependimento. Estava em Interrailcom nove amigos e trazíamos às costas um mês pela frente, uma mochila pesada e aquela confiança própria de quem acredita que dormir na rua é um estilo de vida e não uma consequência de não ter reservado alojamento.
Nunca marcávamos quase nada e, quando o fazíamos, era tarde. Havia sempre o argumento muito jovem e muito convincente sobre liberdade, aventura e espontaneidade, na tentativa de justificar a irresponsabilidade e má organização. Na prática, quando não havia camas disponíveis ou quando só havia hotéis com preços capazes de ofender a carteira de um jovem em interrail, que está constantemente a contar trocos, dormíamos onde dava. E naquela noite, deu numa praia em Split.
Escolhemos, em primeira instância, dormir no paredão. Era longe da discoteca gigante e barulhenta, e não me recordo porquê, mas achámos que aquela superfície dura, fria e pública seria um lugar excelente para pernoitar.
Apesar de ser pleno verão, a noite estava fria. Tínhamos casacos, mochilas, toalhas e tudo o que alguém leva quando tenta meter um mês de vida às costas.
Encostei-me e observei a discoteca enorme, ao fundo do paredão. Via-se a luz, ouvia-se música ao fundo, passavam jovens de um lado para o outro, alguns a correr, outros a dançar, outros tortos como camarões, naquele estado lastimável em que ainda não decidiram se estão física ou mentalmente perdidos. Havia quem fosse ao mar, como se estivesse uma noite tropical ou como se a água resolvesse o seu estado alterado. Eu, que não bebo, fiquei naquele papel estranho de observadora sóbria da desgraça alheia, que tem qualquer coisa de antropológico e interessante.
Apercebemo-nos em conjunto que o paredão atraía muita atenção e que não era tão confortável como, não sei por que razão, achávamos, então mudamo-nos para a areia. Entretanto, adormeci.
Acordei demasiado quente. Horas antes, tinha-me enrolado em roupa como se estivesse a atravessar uma montanha em dezembro e agora o sol começava a bater, o corpo estava abafado, a areia colava-se à pele e sentia que a minha dignidade se tinha extinguido quando notei que havia pessoas a olhar para nós.
Não olhavam como quem julga, nem de forma reprovadora, era mais com a curiosidade de quem encontra nove jovens amarrotados na areia e tenta perceber porque fazem eles e nove mochilas parte da paisagem.
Ainda era cedo. Não havia aquela luz branca e dura do meio-dia. A luz ainda estava baixa, suave e quase azulada. O mar estava transparente e calmo, tão calmo que parecia querer passar despercebido. Bačvice tinha deixado de ser a praia da noite anterior. A música já não mandava, os corpos barulhentos tinham desaparecido e a manhã tinha trazido outras personagens. Velhotes.
Talvez tenham chegado aos poucos, mas, quando me apercebi, formavam um grupo relevante. Traziam sacos, toalhas, chinelos, fatos de banho antigos e pareciam ter intimidade com aquele lugar. As mulheres usavam toucas, mas não aquelas plásticas de natação, algumas eram, até, bonitas, coloridas, cuidadas, quase elegantes.
Havia algo de cerimonial em tudo o que faziam e estavam dispostos quase geometricamente. Parecia que tinham treinado este episódio de ir à praia, que tinham treinado onde cada um ficaria na areia, os grupos que conversavam faziam sentido esteticamente, onde mergulhariam no mar, até a forma como lá entravam. Não tinham pressa, punham um pé primeiro, depois o outro, e o corpo aceitava a temperatura da água devagar, sem grandes timbres. Vendo de fora, parecia que nadavam em câmara lenta e falavam em câmara lenta.
Eu parei e fiquei a olhar, como faço tantas vezes em tantas situações. Notei que todos pareciam trazer alguma marca no corpo. Uns tinham manchas na pele, cicatrizes, queimaduras, bastantes não tinham um dos braços, outros tantos sem a parte de baixo da perna, alguns sem uma das mãos. Não eram “estranhos”, se olhássemos de repente. Eram pessoas comuns, pareciam ter um discurso normal, pelo menos tendo em conta o seu tom de voz, uma vez que não falo croata. Eram corpos, estranhos e diferentes, mas corpos “normais”, apesar de incompletos.
O que me espantou não foram as “ausências”, nem as marcas; era um grupo grande, com cerca de vinte e tal, talvez trinta pessoas, e todos tinham alguma “questão” fisicamente.
Tinha 18 anos e, portanto, munida desta arrogância involuntária de uma jovem que acha que o corpo saudável e jovial é uma coisa garantida, reparei demais. Fiquei a olhá-los, um a um, como que a fazer o jogo das diferenças, versão mórbida. Fez-me impressão, mas, ao mesmo tempo, era muito curioso. Quem seria este grupo gigante de pessoas que, ao mesmo tempo estava, literalmente, incompleto?
Olhei para a praia mais uma vez, para a quantidade de idosos, para os corpos marcados, para a calma quase ritual com que entravam no mar, e questionei-me se aquela praia teria alguma tradição, algo de sagrado, se seria uma “praia de cura”; ou talvez houvesse um hospital ali perto onde os doentes vinham ao mar pelos benefícios que este pode trazer. Talvez fosse apenas uma praia numa manhã de verão e eu estivesse a inventar algum mistério ou a dar significado a algo que é apenas aquilo que é.
Tinha atravessado cidades inteiras em autocarros e comboios, conhecido pessoas, visitado sítios, todos estes ricos em histórias. Achei que, quando voltasse, poderia contar grandes aventuras e que teria a melhor narrativa de viagem, que estava a viver uma coisa imensa. E, de repente, a minha história favorita tornara-se esta. Os velhos. Ali, sem narrativa nenhuma, sem necessidade de se anunciarem. Faziam parte, ou, pelo menos para mim, passaram a fazer parte daquela praia.
A praia despe as pessoas de quase tudo, ninguém entra no mar com biografia estampada na testa, mas o corpo, muitas vezes, conta uma história. Conta idade, trabalho, doença, sol, quedas, hábitos, operações, teimosias, vaidades.
Fiquei a olhar muito tempo, só a apreciar este episódio.
O mar continuava transparente e os velhotes continuavam a entrar e a sair da água com a mesma calma. A noite tinha sido de uns, a manhã de outros e nós tínhamos feito parte da troca de turno sem querer.
Antes de partirmos, olhei outra vez para o mar. Já não me fazia impressão vê-los. Havia ali uma paz imperfeita, cheia de manchas, toucas, sacos, corpos “incompletos”, água transparente e jovens mal dormidos. Era um cenário tirado de um filme.
Não era uma praia de cura. Ou talvez fosse, mas não da forma dramática que inventei ao acordar. Era a praia da discoteca e a praia dos velhos. Praia da Discoteca dos Velhos Incompletos. Foi este o nome que lhe dei. É a praia onde achei que estava a viajar e, afinal, estava mesmo, mas de outra forma. É a praia onde desmistifiquei a ideia de que os lugares existem para nos receber; nós é que existimos para receber os lugares.
