Teatro imersivo: a queda da quarta parede com Michel Simeão

O género é relativamente recente, repleto de experiências e quem o descobre deixa-se cativar. No teatro imersivo e de terror, o público está no centro da ação e é implicado na história. Para explicar como as peças se transformam numa força magnética, nada melhor do que conhecer as ideias do ator e realizador Michel Simeão, um dos pioneiros em Portugal

Em Portugal, o teatro imersivo afirma-se como uma nova forma de arte que rompe com o modo clássico de ver este ofício. Mais do que assistir, o espectador passa a viver a história, a ser envolvido numa experiência sensorial e emocional impactantes que redefine a relação entre arte e a realidade. O que distingue o teatro imersivo do clássico é a queda da quarta parede, ou seja, aquilo que protege e separa o ator do público não existe, nem mesmo fisicamente.

Tradicionalmente, os atores estão no palco a construir um mundo para a plateia, que observa tudo, passiva. Como sugere o nome, neste género teatral, os espectadores imergem em cena com os próprios atores, o que lhes permite viver na pele as experiências que moldam a história. Esta forma de expressão tende a estimular os cincos sentidos: visão, audição, toque, cheiro e, por vezes, até paladar, como na peça nova-iorquina Café Play, da This Is Not A Theatre Company, que transforma um café norte-americano num espetáculo único, acompanhado de refeição e bebida. Apesar de existirem encenações imersivas em teatros convencionais, esta proposta destaca-se pela escolha e procura de espaços alternativos como fábricas, casas abandonadas ou apartamentos compostos por objetos que aprofundam o enredo.

O estilo moderno de teatro imersivo teve origem no Reino Unido com a companhia Punchdrunk, fundada por Félix Barrett em 2000, que explodiu devido a Sleep no More, uma adaptação da tragédia clássica MacBeth, de William Shakespeare, na qual foi concedido aos espectadores o direito de explorar livremente o cenário, mas garantindo a sua anonimidade através de máscaras. As suas características fundamentais incluem múltiplos pontos de vista, cenas dispersas e finais abertos, em que as ações da audiência podem influenciar diretamente o desenrolar da trama.

É neste contexto que a dinâmica imersiva se foi espalhando e tomando vários formatos por todo o mundo como exposições, eventos e visitas guiadas.  Numa viagem à Escócia, o ator e realizador Michel Simeão, com apenas 24 anos, teve a sua primeira interação com o mundo da imersão através de uma visita guiada a um cemitério. “A locutora contava histórias de terror ‘reais’, olhando profundamente para os olhos do público e procurando assustá-lo”, descreve.

Deslumbrado, prometeu a si próprio que, um dia, teria de fazer o mesmo. Quando, em 2012, arranjou um espaço para testar os seus primeiros formatos de terror, aproveitou de imediato a oportunidade. Numa casa abandonada, que descreve como sendo “mesmo creepy”, inventou uma história fictícia e vendeu-a como real. O projeto foi divulgado através do seu blogue e de “boca em boca”. O sucesso foi tanto que rapidamente esgotaram as vagas para o verão inteiro.

De repente, toda a gente estava interessada em experimentar a “injeção de adrenalina” que era o seu projeto imersivo. Assim, Michel Simeão, fundador da associação cultural Teatro Reflexo e criador do projeto Casa Assombrada, surge como um dos pioneiros do teatro imersivo português tornando-se a pessoa ideal para aprofundar e dar a conhecer a natureza desta arte.

O fascínio pelas histórias de terror

O terror revela-se não como apenas mais um género, mas um poderoso motor de emoção, quer no mundo do cinema, onde é largamente utilizado, como no teatro e, principalmente, nas criações imersivas, como os escape rooms, que são cada vez mais solicitados. Michel Simeão sempre nutriu interesse pela “adrenalina do terror” e encara-o como absoluta realidade, em inglês “suspension of disbelief”: “Significa que para viver o terror, é preciso acreditar que ele existe verdadeiramente. Só assim nascem experiências impactantes, uma vez que não se descredibiliza tudo como ficção e falso.”

Relativamente à escolha dos temas, para além de trabalhar com o terror, já escreveu murder mysteries. Porém, tenta sempre fugir dos “clichés” que se esgotam rapidamente e procura aprofundar ideias ou premissas originais, como o Algoritmo. Como descreve: “É uma peça sobre aquilo que os algoritmos fazem, afunilam-nos os caminhos criando a ilusão de que temos uma escolha, mas apenas escolhem aquilo que acham que queremos ver.”

O ator explora temas reais e sente-se impelido a escrever sobre o mundo que, na sua opinião, “já oferece tanto terror e que está a tornar-se cada vez mais triste e feio”. É com esta revolta social que fez a Seita, uma peça em que personagens loucas e renegadas pelo mundo se entregam ao diabo. Uma história que surpreendeu e horrorizou os espectadores. “Muitas vezes, as pessoas pensam que vão ver mais um ‘terror plástico’, mas são confrontados com críticas sociais extremamente fortes e diretas, pois o ator fala diretamente na cara e isso é terror psicológico avançado”, explica. Histórias como estas, que questionam valores e temas sérios, são envolvidas em embrulho de terror. No entanto, diz, “revelam-se chapadas de realidade”. Por estas razões, na escrita, desafia-se e põe-se no lugar do público, pensando o que lhe retiraria o chão. “Não é só um teatro é uma história pensada, moldada e escrita para quem a vê”, acrescenta.

O ator defende que “o teatro imersivo, por ser uma arte, deve ser usado como uma arma, não apenas entretenimento”. Nas suas obras, não se vê um Freddy Krueger, mas sim “histórias e teatros únicos com narrativas que cativam a audiência do início ao fim”. Este fator surpresa – continua – “causa perda de público devido à dualidade de opiniões e da pouca abertura para beber outras coisas”. Uma tendência que não o incomoda, uma vez que, para Michel Simeão, “a arte tem também o propósito de expor realidades diferentes”.

Criar no universo das experimentações

O processo criativo das peças que apresenta nasce quando encontra um espaço adequado. É a partir daí que começa a criação da narrativa, das personagens, distribuídas por um grupo de atores da sua confiança e dos respetivos guiões. Para o realizador, “a utilização da palavra enquanto parte do teatro imersivo é indispensável”. No entanto, é possível realizar um teatro deste género sem qualquer diálogo. Também é criado um guião à parte, onde consta a planta do espaço e o respetivo trajeto no qual o público emerge durante a peça. Nas suas encenações, procura sempre fazer algo diferente e desagrada-lhe a repetição de experiências: “Gosto de arriscar para nunca ser aborrecido.” Esta é a marca do seu processo artístico pessoal: desafiar e procurar desconforto, em prol da mudança.

Outro aspeto fundamental no desenvolvimento destas experiências é o processo de preparação. Ao contrário do teatro tradicional, o teatro imersivo exige uma fase rigorosa de testes antes da estreia. O realizador explica que “o projeto não pode ser apresentado ao público sem nunca ter sido testado, uma vez que existem muitas variáveis imprevisíveis, sobretudo relacionadas com as reações emocionais dos participantes”. Para garantir a qualidade da experiência, é realizada – conta – “uma semana de testes com público real, o que permite receber feedback e uniformizar uma fórmula que funcione para todos”.

Enquanto ator, valoriza as contracenas com os espectadores e considera que “a característica mais distintiva do teatro imersivo é a busca da partilha entre os atores e o público”. Este torna-se parte da história, abandona o papel de simples observador e entra em cena como participante. “Cria-se um fluxo emocional de dar e receber. Esta dinâmica dá origem a experiências inesquecíveis que prevalecem na memória das duas partes até aos dias de hoje”, acredita.

Por outro lado, a abertura dada ao público nem sempre resulta em bons momentos. Michel Simeão revela que tanto ele como a sua equipa de atores já tiveram interações um tanto desagradáveis, em que foram interrompidos ou até desrespeitados pelo público. “Nesses momentos, tento manter a calma e procuro resolver a situação permanecendo na personagem. No entanto, já senti muitas vezes na pele o limbo de onde acaba a personagem e onde começa o Michel.”

Quem é o público que habita a cena?

Desde logo, destaca-se a forte adesão do público a este tipo de projetos. Basta lembrar que, em novembro de 2023, as sessões de Crime no Cinema S. Jorge esgotaram. Segundo o criador, sempre que lança uma peça, os bilhetes esgotam em poucos dias, o que demonstra não só o interesse crescente, mas também a existência de um público fiel. Assombrações, os próximos espetáculos do Teatro Reflexo, no Convento da Encarnação, em Lisboa, decorrem nas últimas quintas, sextas e sábados de maio de 2026 (de 13 a 30) e depois em junho, mas há meses que as entradas estão esgotadas.

Ainda assim, identifica um desafio relevante: “a dificuldade em chegar à faixa etária mais jovem, entre os 18 e os 30 anos”. Paradoxalmente, considera que o que faz é o mais apropriado para essa idade, mesmo que o público mais predominante se situe entre os 30 e os 50 anos. No entanto, o criador reconhece que plataformas como o Tik Tok têm vindo a contribuir para captar a atenção dos jovens: “Quando assistem às peças pela primeira vez, ficam fãs.”

Já o perfil do público é bastante diversificado. Desde profissionais a enfermeiros, contabilistas, grupos de amigos ou famílias, muitos dos participantes não têm o hábito de frequentar o teatro tradicional. “Este é, aliás, um dos grandes méritos do teatro imersivo: consegue atrair novas pessoas. Os inquéritos de satisfação refletem esse impacto, com elogios frequentes à qualidade das interpretações, descritas como atores inacreditáveis”, refere.

Apoio ao teatro imersivo

A posição do ator face ao apoio institucional é claramente crítica. “É precisamente nesta área que sinto a maior discriminação. O teatro imersivo tem dificuldade em obter financiamento de entidades como a Direção-Geral das Artes ou o Ministério da Cultura”, lamenta. E vai mais longe ao afirmar que existe “uma elite de intelectuais que define o que tem valor artístico e cultural para ser apoiado pelo Estado, deixando de fora formatos inovadores”. Também entre os atores – acrescenta – “muitos demonstram alguma resistência face a esta nova vertente teatral, recusando convites para estreias de peças de teatro imersivo, algo que raramente acontece quando se trata de teatro convencional”.

O pioneiro do teatro imersivo em Portugal admite que este tipo de espetáculo ainda tem “um longo caminho por desbravar, sendo atualmente um nicho com pouca abertura comercial”. Esta crítica acaba por, como defende, “refletir um problema geral do incentivo à cultura em Portugal”. E justifica: “Apesar de existirem apoios públicos para as artes, estes tendem a privilegiar expressões que consideram tradicionais, dificultando a manifestação de formas de expressão alternativas.” Nesse sentido, o teatro imersivo ainda não é totalmente reconhecido como uma prioridade cultural, o que contribui para a dificuldade em afirmar-se dentro dos circuitos institucionais.

Apesar destes desafios, existe um público disposto a sustentar este modelo. Michel Simeão refere que há “um grupo suficientemente grande de pessoas interessado em pagar cerca de 30 euros por estas experiências”, o que lhe permite manter os projetos ativos. Além disso, o teatro imersivo começa também a ser procurado por empresas para eventos e atividades de team building, o que revela o seu potencial de expansão para outros contextos.

Michel Simeão mostra-se otimista em relação ao futuro e considera que “o teatro imersivo está numa fase ascendente graças à adesão crescente a experiências imersivas na sociedade contemporânea”. Ainda assim, o ator e realizador admite que não consegue prever exatamente o rumo desta evolução. Um dos principais obstáculos apontados “é a dificuldade em encontrar espaços adequados, já que este tipo de teatro não se faz num teatro convencional; exige locais alternativos e adaptáveis”.

A questão dos espaços está intimamente ligada às estratégias de produção. O encenador refere que já colaborou com câmaras municipais, produtores e instituições como a Santa Casa da Misericórdia, entidades com as quais estabeleceu parcerias que permitem viabilizar os projetos. Em alguns casos, os acordos limitam-se à cedência do em troca de atividades sociais, como oficinas de teatro para pessoas em situação de vulnerabilidade. Ainda assim, o fundador do Casa Assombrada lamenta “o abandono de alguns espaços com potencial cultural, como o Convento da Encarnação, em Lisboa”.

Quebrar o paradigma

Michel Simeão confessa que “normalmente, quando é entrevistado, começa sempre por ter de explicar o que é o teatro imersivo, já que, apesar da sua crescente visibilidade, ainda é com grande dificuldade que o main stream reconhece este tipo de performance”. Mesmo dentro do meio artístico, continua o ator, “espetáculos imersivos ainda são encarados com preconceito e vistos como marginais porque chocam com tradições e convenções primordiais estabelecidas na Grécia Antiga”. O ator defende que, em Portugal, “a comunidade da arte e cultura ainda está relativamente estagnada”. No seu entender, “ainda existe uma grande pressão para replicar costumes considerados irrefutavelmente corretos, como a existência da quarta parede e de uma plateia que apenas consome a história, mas não se deixa consumir”.

Contra as forças da resistência por parte do mundo do teatro, Michel Simeão lembra que “para o público, estas experiências são extremamente interessantes e irresistíveis”. Afinal, alguém tem de quebrar o paradigma.

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