Qual será o objeto mais informado do mundo? Será um livro? Uma mesa, um jornal, uma caneta? A caneta pode ser uma boa candidata a esta categoria, pois escreve muitas coisas com especial certeza. Afinal, a caneta é definitiva. Se fosse um pensamento ainda por formular, escrever-se-ia a lápis. Pelo menos, se considerarmos o que aprendemos no ensino básico. Em tempos em que já pouco ou nada se escreve no papel, exceto os exercícios ou exames da escola, a caneta, o lápis e o papel parecem ser hoje objetos cada vez mais obsoletos, tal como as cartas de amor que outrora alimentavam a imaginação e os sonhos dos apaixonados. Na estratosfera das redes sociais onde passaram a morar os enamorados. as palavras foram substituídas por emojis românticos.
Enquanto os outros transeuntes ocupavam o seu tempo a correr para os transportes ou, os que ainda têm tempo para contemplar, a observar a arquitetura da Avenida da República, desci esta artéria da cidade com a calma necessária para ficar intrigada com a quantidade de cartazes e folhetos colados nas paredes e em postes. Afinal, parece que os objetos mais informados do mundo habitam um espaço que percorro diariamente. E defino os cartazes como os objetos mais informados porque, independentemente da informação que comportam, veem e guardam informação sobre tudo um pouco. Mesmo que obsoletos ou ultrapassados, continuam lá, presos às paredes dos edifícios.
“AFIA-SE”, alicates de cutículas, tesouras e instrumentos cirúrgicos. Um número começado por nove-um é o único intermediário entre quem tem os materiais não tão afiados e quem promete pô-los de novo em forma. Na minha terra, o amola-tesouras ou amolador marca a sua presença com uma espécie de flauta mágica – desde pequena que a imagino assim. O som é bastante característico para quem o conhece. E dizem os mais antigos que, quando lá soa o amola-tesouras, vem chuva de certeza. Para mim, ver um papel colado num poste retira toda a magia que sempre atribuí a esta personagem, apesar de manter o carácter invisível da personagem. Em toda a minha vida, nunca vi um amola-tesouras, apenas o ouvi, e isso é a única semelhança em relação a este anúncio e a minha realidade.
Avançando ligeiramente no percurso, numa caixa de eletricidade, divulga-se uma manifestação para travar os aviões; anunciam-se empresas de mudanças, entre outras que já foram apagadas pelo tempo, ou escondidas pela sobreposição de outras informações também rejeitadas por quem passa. Através dos mesmos cartazes e anúncios, fica-se a saber que há quem tenha encontro marcado no Dia da Criança às 15 horas, na Alameda D. Afonso Henriques. Ativistas que lutam pelo fim da crise climática e que veem um grande problema nas transportadoras aéreas. Quem desejar, que se junte a eles. Já sabe quando e onde vai ser. Não tem por que faltar. Se por acaso ficar impedido de o fazer por ir mudar de casa e não tiver uma empresa que lhe desmonte os móveis, sei exatamente aquilo de que precisa. Se, na verdade, não precisar de levar cómodas, mas quiser pintar a sua cozinha – que anda a adiar fazer porque não quer perder a sua folga – continuo a poder ajudá-lo. O Igor, a partir do simpático valor de 14,99 euros, é o homem ideal para si e para os seus problemas.
Algo curioso sobre este percurso que realizei numa quarta-feira à tarde pela Avenida da República, em Lisboa, e sobre aquele que faço todos os dias é o facto de que quem cola cartazes, cola quase sempre mais de um, sempre iguais, no mesmo lugar. Como se quem ignora o primeiro não fosse ignorar o segundo também.
Sobre os cartazes apagados, rasgados ou comidos pelo tempo, pouco ou nada posso dizer. Apenas que aqueles pedaços de fita cola já prenderam algo que já informou alguém ou, pelo menos, um poste ou uma caixa de eletricidade. Desta categoria, destaco um cartaz de uma, talvez, manifestação. Algo que aconteceu no dia 31 de março, que começou na Alameda e acabou no Rossio. É engraçado pensar que se um poste pudesse falar, talvez fosse mais informado do que muita gente. Afinal, as pessoas têm a opção de escolha sobre se leem ou ignoram o cartaz. O poste não tem esse privilégio. Não pode dizer que não ao pesos que carrega com tantos cartazes e mensagens sobrepostas. Há-de ficar com aquele papel até ser substituído por outro, mantê-lo até a meteorologia o arrasar, ou ficar com ele por baixo de um outro cartaz que lhe vai dizer a si e aos outros informações que podem, ou não, interessar. Talvez aqueles mil cartazes sejam o último grito de um tempo e de uma cultura paralela que teima em se tornar visível – e talvez não tanto em conseguir ser ouvida.
O que é certo é que estes cartazes já lá estavam antes de eu passar e, certamente, alguém já lhes terá dedicado um pouco do seu tempo. Se vou precisar de afiar tesouras ou desmontar móveis? Não. Mas fica cá dentro a inquietação de, ao passar por um poste, olhar para aquilo que ele tem para oferecer. Se o poste falasse, possivelmente diria que é cansativo saber sobre tudo um pouco; que as pessoas passam e ele ali fica, cheio de cola e de coisas por dizer.