Licenciada em Tradução e Interpretação de Língua Gestual portuguesa, Sara Cortez Silva trabalha como intérprete de LGP desde 2007, principalmente, em contexto educativo. Quando é requisitada, também colabora em conferências, festivais de música, reuniões e numa agência imobiliária. Numa entrevista que decorreu entre sessões de Terapia da Fala, na Escola Secundária da Amora – uma instituição de ensino bilingue de alunos surdos, no concelho do Seixal-, a intérprete revela como o trabalho pode ser transformado numa missão.
O que é a Língua Gestual Portuguesa (LGP)?
A língua gestual portuguesa é das línguas mais bonitas que há. Foi essa perceção que me fez apaixonar e seguir esta direção profissional. É uma língua extremamente expressiva, que chega até a ser poética e, portanto, para mim, é a língua mais bonita que existe. É uma mais-valia para toda a gente saber língua gestual, uma vez que nos permite não discriminar ninguém, ter acesso a todas as pessoas, surdas e ouvintes. Sou apaixonada pela LGP.
E como e por que razão decidiu tornar-se intérprete?
Tive um trabalho, um part-time, tinha uns 18 anos e estava a trabalhar numa loja, numa papelaria, quando entrou um casal de surdos pela loja. Foi a primeira vez que tomei consciência que existem pessoas surdas. Nesse primeiro impacto que tive com a língua gestual, pensei: como é que vou conseguir comunicar com eles? Porque não sabia língua gestual e fiquei com aquele bichinho de procurar mais e tentar perceber qual é que seria o caminho que poderia escolher para ter acesso e ter contacto com esta língua. Depois, mudei todo o meu percurso educativo. Queria seguir e acabei por desistir um pouco da Psicologia de Enfermagem, para seguir a Tradução de Língua Gestual.
A expressão surdo-mudo é um mito e um termo incorreto. Como é que se explica à sociedade que as pessoas surdas não são mudas?
Sim. É um bocadinho o pão nosso de cada dia. Já chegamos a esta altura um pouco cansados de estar sempre a repetir o mesmo. É só pensar um bocadinho: por uma pessoa ser surda, não quer dizer obrigatoriamente que seja muda e, portanto, a surdez é uma coisa, o não falar é outra. E, normalmente, o que digo é mesmo isso: o facto de uma pessoa ser surda não implica que seja incapaz de falar. Portanto, uma coisa é ela não querer falar por vários motivos por que não tem noção de como é que o som sai ou outro motivo… Se as cordas vocais estão lá, a pessoa surda tem voz, mas pode optar por não a usar. Por norma, só aqueles que têm algum tipo de grau de audição é que se sentem mais à vontade de conciliar a língua gestual portuguesa com alguma oralidade.
Que papel desempenha uma intérprete dentro da sala de aula?
Basicamente, é ser a ponte entre o professor de uma certa disciplina e os alunos surdos. O intérprete faz a tradução do português para a língua gestual para que também o aluno surdo possa ter acesso à informação. É realmente uma ponte, também do aluno surdo para o professor. Tudo o que o aluno queira dizer e participar dentro da sala é transmitido ao professor ou aos colegas.
As escolas portuguesas estão preparadas para integrar alunos surdos de forma inclusiva?
As escolas portuguesas não estão preparadas para integrar nem alunos surdos nem outros que precisem.
Alunos com necessidades especiais?
Sim, exatamente. A minha resposta é não. Por exemplo, desde setembro que estamos à espera que venham intérpretes para esta escola. Neste momento, somos duas e precisávamos de cinco. Portanto, não estão preparadas. E quando existe essa necessidade, todo o processo é muito lento, o que acaba por prejudicar os alunos. Temos alunos surdos que não têm intérprete de inglês na escola, desde o início do ano.
E não é por falta de intérpretes?
Não. É mesmo pelo processo burocrático em si. Só podem pedir intérprete quando já sabem quantos alunos surdos estão efetivamente matriculados. Por isso, há muito trabalho a percorrer, um caminho muito longo para que realmente seja o ideal.
Como é que esses alunos conseguem sentir-se à vontade na aula?
Não sentem. Acabam por se dispersar. O facto de lá estarem é só pela presença.
E como é que a presença de intérpretes transforma a experiência de alunos surdos no espaço escolar?
Primeiramente, porque lhes dá acesso a toda a informação e à igualdade perante os outros. E, por isso, acaba também por haver aqui uma mais-valia no seu processo educativo, porque se não têm intérpretes na sala de aula e no contexto educativo, seja a traduzir uma conferência num anfiteatro ou numa visita de estudo, a discriminação é muito maior. Para eles, é sempre importante ter o intérprete.
Qual é o impacto do acesso à língua gestual nas escolas, na aprendizagem e na autoestima dos estudantes surdos?
O impacto é positivo e permite que desenvolvam uma identidade e a língua gestual deles porque não passa só pelos intérpretes, mas também pelos professores de língua gestual que acabam por ser um modelo de referência e por toda a equipa que trabalha com os alunos surdos.


Sensibilizar a comunidade
Seria importante desmistificar a ideia de que é apenas um recurso e obter estatuto de língua?
Passa muito pela sensibilização da comunidade ouvinte. Passa pela sensibilização de que é, realmente, uma língua porque é usada para que uma comunidade consiga comunicar entre si. Dentro da comunidade surda, claro que sabem efetivamente que é uma língua, não é um recurso, não são gestos, não é mímica. Mas precisamos muito de sensibilizar todas as outras pessoas ouvintes que veem essa língua gestual como um recurso só porque não precisam de a usar, nem como sendo uma língua oficial. A maior parte das pessoas portuguesas ouvintes vê esta língua como uma língua estrangeira, só que não é estrangeira, é gestual.
Os alunos surdos também têm a possibilidade de aprender outras línguas?
Normalmente, até fazem isso entre eles, ou alguns têm a possibilidade de, por exemplo, ir algum tempo para outros países, onde acabam por ter de se adaptar à língua e aprendê-la. Que eu tenha conhecimento, não existe um sítio onde possamos ir aprender a língua gestual espanhola por exemplo. Às vezes, são lecionados cursos de gestos internacionais, mas não é uma língua oficial. São gestos internacionais sobre os quais se chegou a um acordo, para que todo o mundo consiga falar, através de gestos internacionais, que é uma língua universal. Mas cursos, efetivamente, de línguas de outros países, línguas gestuais de outros países, não tenho conhecimento.
Como é que sensibilizava a comunidade?
Falando sempre aqui num mundo ideal, devia aprender-se desde pequeno. Assim como as crianças têm acesso, por exemplo, ao inglês e ao francês, era também importante proporcionar o acesso à língua gestual. Se têm a possibilidade de poder escolher as línguas inglesa, francesa, espanhol ou outra deviam ter também a oportunidade de poder escolher a LGP como uma língua de opção. E passar também pela parte da sensibilização. Porque já é feita alguma, mas não é suficiente. Principalmente no contexto de escola, ficamos sempre muito aquém.
E o seu papel enquanto intérprete é um bocadinho como mediador, ou seja, é como uma ponte entre as duas comunidades. A comunidade surda e a ouvinte. Como é que faz essa conjugação no seu dia a dia e no trabalho?
Para além de sermos essa ponte, também temos o dever de tentar de alguma maneira que as pessoas fiquem familiarizadas com a língua gestual e com a comunidade surda. A cultura é diferente, a maneira de estar é diferente, isto é, têm uma visão do mundo diferenciada. O nosso papel é um pouco mais do que ser só a ponte. Também temos de ter consciência dos dois mundos. Pertencemos a dois mundos e conseguimos ter essa perspetiva, do mundo ouvinte e do mundo surdo, porque há muita coisa que se passa no ouvinte que os surdos não percebem porque nem sequer faz parte da vida deles. É o mesmo que uma pessoa que nasce cega e outra que fica cega. Quem nasce cega sempre conheceu o mundo assim. E com os surdos acontece o mesmo. É o mundo que eles conhecem. Por exemplo, ouvir a rádio, para os surdos profundos isso não existe no seu mundo. Não faz parte da vida deles. Portanto, temos também de ter essa consciência e o dever de passar às pessoas que nos rodeiam, essa dualidade, de um mundo e do outro.
Viver no silêncio
Como referiu, os alunos têm formas diferentes de estar, por exemplo, na sala de aula.
Sim, por exemplo, bater com alguma coisa. A pessoa surda não sabe que está a incomodar os outros com esse barulho. Nesse caso, tenho de ser eu a dizer: olha, estás a fazer barulho, ou estás a incomodar… ou ao contrário. Se um aluno ouvinte arrastar a cadeira, os surdos sentem e causa até um certo mal-estar. Ou quando há trovoada, não ouvem, mas sentem as vibrações e até sentem mais porque, como não tem o sentido da audição, todos os outros sentidos são mais apurados.
Já experienciou casos de alunos surdos, que nunca ouviram nada ou tinham a audição muito reduzida e depois decidiram ser implantados?
Já tivemos casos de alunos que decidiram pôr implantes na altura de escola, sim. Às vezes corre bem, outras vezes não corre tão bem, mas é um processo de adaptação que temos de acompanhar sempre muito perto, para ver se não há desconforto. Nessa altura, está tudo muito sensível, o mínimo barulho, sons mais agudos, acabam por os afetar.
O que é que é mais difícil de interpretar?
Situações que nos podem causar, enquanto intérpretes, também algum tipo de sentimentos. Isso é sempre o mais difícil de conseguirmos interpretar porque temos de ser imparciais, de estar ali quase como robôs, de ouvir e de estar a transmitir, mesmo que o assunto que esteja a ser tratado possa ser desconfortável, possa ser duro. Isso é o mais difícil: é conseguirmos separar as emoções das nossas traduções. Às vezes, não conseguimos controlar e sai-nos uma lágrima, ou um riso.

O superpoder de comunicar
O quão difícil é ser intérprete de LGP?
Somos intérpretes porque sentimos essa vocação. Quando assim acontece, é fácil. É um processo complexo, de difícil aprendizagem e integração. É um processo difícil em vários contextos, mas a nível de trabalho, é muito gratificante; dá-me muito gosto e muito prazer fazer porque me enriquece. Tudo o que seja bom para nós e para os outros é sempre uma mais-valia. E não estar a fazer um trabalho só porque sim.
E como reagem os alunos ouvintes ao contacto com a Língua Gestual Portuguesa?
Eles veem um pouco mais com curiosidade e não tanto como uma necessidade. Mas se mudassem um bocadinho o “chip” perceberiam que a língua gestual pode ser uma ferramenta. É mais uma língua que eu sei. Se eles pensassem que poderia ser uma mais-valia porque lhes facultaria algumas competências que, se calhar, a maioria das pessoas não tem… Eu costumo dizer que o meu superpoder é saber língua gestual, porque sei coisas que ninguém sabe lá em casa. Faço imensa coisa, como falar através de vidros ou numa discoteca, de um lado para o outro. É muito giro. Nós fazemos coisas que os outros não fazem e isso é espetacular. Falar das outras pessoas sem que elas saibam o que estamos a dizer. Algumas pessoas até pensam que estamos a falar mal delas por estarmos a comunicar com gestos, mas não estamos. Estamos apenas a comunicar.
Consegue apresentar pequenos exemplos do dia a dia que mostram a importância vital da língua gestual para quem tem este problema?
No mundo ideal, todas as profissões que tenham contacto com o público, com pessoas, deveriam ter língua gestual de base, nem que fosse o mais básico. Por exemplo, a minha irmã foi enfermeira no Barreiro e, uma vez, ela estava na Urgência, era uma e tal da manhã, e ligou-me em vídeo chamada porque tinha recebido lá uma pessoa surda e não estava a conseguir falar com ela e os médicos queriam-lhe explicar as coisas e não conseguiam. E eu, por videochamada, tentei ajudar. Por isso, médicos, enfermeiros, auxiliares, técnicos… deviam saber o básico de LGP. Mas a nossa sociedade não está preparada, infelizmente. Estamos há anos à espera de não sei quantos intérpretes para o Serviço Nacional de Saúde, e temos zero.
Direito à inclusão
Essa realidade acaba por causar alguma frustração?
Claro. Ou não procuram ajuda ou, como acontece muitas vezes, têm de ir sempre na companhia de alguém, com um intérprete que conheçam, ou com alguém da família. Eles precisam de ter um médico que fale a mesma língua que eles.
Será que muitos deles acabam por escolher ser professores de Língua Gestual por falta de opção, porque acham que não há outro caminho?
Com certeza, porque é também uma profissão que eles acabam por achar que é um trabalho que vão fazer bem, mas também acho que é por falta de opção. Não há muita coisa, muitos cursos. Acredito que as pessoas surdas podem ser o que quiserem, assim que seja possível terem o mesmo acesso as ferramentas que os outros têm. E isso não acontece. Mesmo que consigam ir para o curso que querem, chegam à faculdade e não têm nada, não têm intérpretes, não têm aulas nem exames adaptados. É um “desenrasca-te” geral que não devia ser assim… As pessoas porque são surdas só têm o direito de fazer o 12º ano? Não.
Durante estes anos todos, o que aprende diariamente com a comunidade surda?
O espírito de união. O mundo surdo acaba por ser um mundo mais restrito, mas já têm conquistado, lutado e conseguido muito nos últimos tempos, a nível da acessibilidade. E isso vai, lá está, da força que eles têm em conjunto. É isso que aprendo mais com eles; é este espírito de equipa, de trabalhar em conjunto, em prol de um objetivo.
E será que no futuro vão usar a inteligência artificial, por exemplo, para substituir intérpretes de LGP como a Sara Cortez?
É muito provável que sim, que haja projetos nesse sentido, mas se virá a ter a qualidade de um intérprete, nunca na vida. É impossível. A LGP tem expressão e os bonecos da Inteligência Artificial não conseguem exprimir sentimentos. Colocar IA a interpretar, por exemplo, um concerto, só vai traduzir gestos. Faltará sempre a forma, o tom, a intensidade que o cantor coloca nas músicas, nas batidas e isso tem de ser transmitido. Um robô não consegue fazer isso porque se trata de emoções, de pessoas.