À porta do Castelo, algumas pessoas entram e a saem, mas poucas são de nacionalidade portuguesa. Os autocarros que vêm da Praça da Figueira não param de chegar com passageiros de várias nacionalidades. No outro lado da estrada, uma banda toca e canta músicas em inglês. Podia interpretar Amália, mas já nem a diva do fado se ouve nesta paisagem marcada pela gentrificação e que seria tão adequada à metamorfose da capital: “Lisboa, não sejas francesa, com toda a certeza, não vais ser feliz…Lisboa, não sejas francesa, tu és portuguesa, tu és só para nós.” As ruas à volta estão vazias e silenciosas. Não se veem moradores nem se ouvem crianças a brincar. Ao caminhar por uma das artérias estreitas, sente-se o cheiro a comida caseira portuguesa, mas não se vê ninguém à janela, apenas um cão.

Mais a baixo, no Largo da Atafona, encontra-se José Lopes, 84 anos. Caminha devagar e as maleitas da idade obrigam-no a abrandar em cada passo. Mais à frente, para mesmo em frente à árvore que viu ser plantada. Com a ajuda da bengala, continua a caminhada junto à igreja de São Cristóvão. Num passeio até ao Largo dos Trigueiros, o antigo bancário do BPI descreve como eram as ruas e as lojas na sua juventude, enquanto se move ao ritmo que a idade permite. Reformado desde os 51 anos, depois de uma vida de trabalho “complicada”, José é pai de três filhos que constituíram família e foram morar para outros locais. “Antes, moravam aqui pessoas com filhos e as suas vidas eram feitas no bairro. Agora, os filhos foram-se embora”, refere. Partiram os nativos mais jovens e vieram os turistas. Hoje, esta zona é um monumento histórico e uma das principais atrações turísticas.

Há cerca de três anos, José Lopes apanhou um vírus no hospital que o obrigou a ficar dois meses internado. “Foi uma tortura muito grande”, desabafa. Hoje, os seus dias são passados a almoçar com amigos e a visitar a família. Com um sorriso, confessa que está a despedir-se da vida. Segundo o morador do Largo dos Trigueiros, o comércio da zona tem vindo a mudar. “Isto era uma tasca de um grande amigo, o Carlos. Agora é um bar. Ali era uma padaria e aqui era uma casa que vendia artigos elétricos e lâmpadas, do senhor Tomás”, conta apontando para os espaços que o rodeiam.
Ao chegar a um banco de jardim, José Lopes para, confidenciando que é naquele recanto que passa o tempo livre, em dias de Sol: “Quando está bom tempo, sento-me aqui.” À medida que segue pela rua de São Cristóvão, continua a descrever os espaços que viu mudar. As antigas lojas de bairro e os cafés de convívio deram lugar a novos negócios, depois de terem sido vendidos. “Neste espaço, existia uma mercearia, agora é um restaurante. Aqui era um café de um grande amigo, mas foi-se embora porque alguém o comprou”, aponta.

Memórias dos dias soltos
Na freguesia de Santa Maria Maior, segundo dados do Lisboa Economic Dashboard, da Câmara Municipal de Lisboa, registou-se uma queda de 6% no número total de negócios. Em 2024, eram 4185 e, no ano passado, passaram a ser 3934. Nos primeiros três trimestres de 2025, 118 pequenos negócios declararam falência.
No banco de jardim onde todos se sentam para descansar as pernas, meter a conversa em dia ou apenas ver os vizinhos a passar está Ana, 63 anos, acompanhada pelo cão. Sentado a seu lado, encontra-se Juvenal, de 64 anos. Já são amigos desde que se lembram de ser gente. Ana viveu no Largo do Contador-Mor durante 60 anos. Dos antigos vizinhos, só se lembra de três que lá ficaram a morar. “A minha vida foi toda lá em cima”, recorda.
Apesar de ter morado muitos anos nessa rua, foi obrigada a sair e a procurar casa noutro sítio porque o proprietário da habitação onde residia decidiu vender o andar. Na zona do Castelo onde se encontram, havia uma padaria e uma drogaria. “Agora é uma tristeza. Dá-me vontade de chorar cada vez que vou ao Castelo. Não se vê pessoas”, lamenta Ana, com uma expressão triste.

Os prédios vazios, os despejos e os sucessivos processos de requalificação urbana transformaram a vida social do centro histórico de Lisboa. Em Portugal, segundo a Direção-Geral da Administração da Justiça, nos primeiros cinco meses de 2025, os despejos concluídos aumentaram 14%, comparativamente com o mesmo período de 2024. Um total de 659 casos. Lisboa concentra a maior parte destes processos, com uma subida de 21%, o que corresponde a 282 despejos.
Quando vivia mais próxima do Castelo, Ana trabalhava numa tasca e conhecia todos os vizinhos. “Não havia uma única casa vazia lá em cima no Castelo, as ruas estavam cheias de miúdos a brincar”, conta. Um cenário que contrasta com o que descreve de “um quotidiano sem vida. Até faz impressão, não vejo nenhuma criança ali”. Juvenal ainda mora perto do Castelo. Resume a mudança numa frase curta: “Quem viu e quem vê Lisboa.”



Saudades dos vizinhos
A pressão turística acompanha uma redução contínua da população residente. De acordo com os Censos do Instituto Nacional de Estatística (INE), na Freguesia de Santa Maria Maior, viviam, em 2021, pouco mais de 10 mil pessoas. Apesar de existirem mais de sete mil casas, apenas cerca de 4.500 estavam ocupadas por famílias residentes. As restantes propriedades encontravam-se vazias e destinadas a uso temporário de alojamento local.
Há cinco anos, Ana mudou-se para o Largo dos Trigueiros, onde vive com a filha, numa casa mais pequena. Apesar da presença crescente de estrangeiros, sente alguma entreajuda que pensou já não existir nos bairros de Lisboa. A diferença está nas pessoas que vivem no largo. “Basta dizermos que não temos algo ou precisamos de alguma coisa que essa ajuda aparece. Ajudamo-nos todos uns aos outros”, afirma a moradora.
Ana e Juvenal continuam sentados. Ana lembra-se como eram passadas as tardes no Largo do Contador-Mor, a três minutos a pé do Castelo de São Jorge: “A esta hora, estava tudo no largo, as velhotas a dar à língua umas com as outras, os miúdos a brincar, as meninas sentadas no chão a fazer renda… Era tão giro.” Naquela altura, todos se conheciam e tratavam-se por alcunhas. “Havia o Chacha, o Bacalhau, o Paulo Maluco, as Pipis Lourenço e tantos outros”, acrescenta. “A minha mãe era a Alice do Ricardo e eu era a Ana da tasquinha”, confidencia a moradora, em jeito de brincadeira.
Conhecedora do bairro como ninguém, Ana menciona alguns restaurantes da zona e dá principal destaque ao O Trigueirinho. Sempre que lá vai almoçar tem de dizer: “Cila não encha o prato. As doses são generosas e boas, aquilo sim é comida verdadeira”, comenta.

A poucos metros, situa-se o Largo dos Trigueiros. Está silencioso, mas quando alguém abre a porta do restaurante, o barulho surge. A casa está lotada e o cheiro a peixe grelhado também vem do Trigueirinho. As mesas estão cheias de estrangeiros e, à porta, começa a surgir uma pequena fila. Cecília Fernandes e Laurinda Rodrigues estão atarefadas na cozinha a preparar os pratos de carne e peixe.
Hora de descansar depois da azáfama
O serviço de almoço só terminou perto das quatro da tarde. Depois de muitas refeições servidas, Cecília e Laurinda têm agora direito ao descanso. Para quem a conhece, Cecília é apenas Cila. Não nasceram em Lisboa, mas já vivem na freguesia de Santa Maria Maior há mais de 50 anos. Passam grande parte do tempo no restaurante, onde trabalham desde muito novas. Hoje, basta uma breve pesquisa na internet para perceber que o espaço se tornou conhecido entre os cibernautas pelo arroz de polvo.
Laurinda mora no fim da rua, mas olha pela janela e não vê ninguém. Cila reside um pouco mais acima e, por vezes, o silêncio até chega a incomodar. “Um silêncio absoluto, por um lado é bom, mas por outro lado até faz confusão.” Outrora, as casas não tinham tantas condições e eram mais pobres. “A zona era mais engraçada do que é agora”, lembram. “Os prédios não estavam arranjados, mas o bairro estava cheio de vida.”
As memórias vão também para a infância dos descendentes. Laurinda tem uma filha com 50 anos e um filho de 47, foram criados no bairro. Brincavam na rua até tarde e juntavam-se todos a jogar à bola. “Partiam as janelas aos vizinhos”, recorda Laurinda com uma gargalhada. Cila só conhece uma das vizinhas que, tal como ela, já vive no bairro há décadas. “Agora nem conheço os meus vizinhos da frente”, lamenta.
Em Lisboa, o cenário ajuda a explicar essa sensação de perda. Segundo os Censos de 2021, existem mais de 145 mil casas vazias no concelho. Apesar de um parque habitacional elevado, a oferta destinada a residência permanente continua limitada. Em 2024, o valor médio das casas na capital rondava os 3800 euros por metro quadrado, mais do dobro da média nacional, de acordo com dados do INE (Instituto Nacional de Estatística).

Cila e Laurinda têm casa própria, mas a grande parte das habitações era alugada. “As rendas não dão para os portugueses. Por isso, é o turismo que ocupa as casas. Foram correndo com as pessoas, porque hoje só veem dinheiro à frente”, refere Cecília Fernandes. Onde antigamente existiam pequenos estabelecimentos comerciais de bairro, tais como sapatarias, restaurantes típicos, casas de peles ou de malas, na atualidade predominam as lojas de recordações. Dão um exemplo de uma loja: “A Tentação era conhecida por todos os que vivem no bairro. Vendia comida portuguesa e não era cara. O dono vendeu e passou a ser uma igual a todas as outras.” Durante anos, os clientes do Trigueirinho eram pessoas do bairro e trabalhadores da zona. Agora, como conta Laurinda Fernandes, a maioria vem de fora e não volta. “Trabalhávamos com a vizinhança. Hoje, se esperamos pela vizinhança, não aparece ninguém.”
O Largo dos Trigueiros continua no mesmo lugar, mas perdeu grande parte da vida que o caracterizava. “Antes era um sítio feliz”, contam as duas moradoras, “agora é um sítio de passagem”. O dia recuperou um pouco de luz e José Lopes ocupa o lugar predileto de observador da Lisboa dos turistas, no banco de jardim a que continua a ter direito de se sentar, mesmo que a paisagem humana que melhor reconhece seja apenas uma memória.