Por dentro da arbitragem portuguesa: “Não há recursos humanos para tantos jogos”

Na capital, nem todos os jogos têm árbitros. Antonino Silva, presidente do Conselho de Arbitragem, da Associação Futebol de Lisboa, revela quais são os problemas profundos das competições distritais: baixos incentivos, desgaste constante e um percurso demorado até ao futebol profissional.

Num dos distritos com mais jogos e competições do país, há encontros que continuam a realizar-se sem árbitros. Na sede da Associação de Futebol de Lisboa, no edifício 19, da Rua Joaquim António de Aguiar – famosa subida que liga o Marquês de Pombal às Amoreiras – tenta-se encontrar respostas para um problema estrutural do futebol lisboeta. Antonino Silva, presidente do Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol de Lisboa, reconhece as dificuldades, garante que a maior associação nacional de futebol, a par do Porto, está focada numa estratégia clara: “maior captação de árbitros, melhores remunerações e para um ambiente mais agradável”, num processo que visa acompanhar a evolução da arbitragem portuguesa.

Em novembro do ano passado, o Jornal de Notícias revelou que há árbitros em início de carreira a ganhar 11 euros, sujeitos a avaliações constantes e a um percurso que pode demorar cerca de dez anos para atingirem a primeira categoria do futebol nacional. Em Lisboa, um árbitro em início de carreira recebe à volta dos 16 euros por jogo, sem contar com possíveis ajudas de custos como alimentação ou deslocação. Com dois encontros num único período do dia, é possível chegar, ou mesmo ultrapassar, aos 35 euros. “Vendo as tabelas de remuneração de todas as associações nacionais, não posso dizer que seja uma tabela boa, poderia ser melhor.” Os valores estão, segundo o presidente, “em cima da mesa para serem discutidos, embora seja necessário entender a realidade”.

Apontando o futebol profissional como exemplo, admite que “o enquadramento atual é difícil. Os clubes não têm financiamento e as associações também não”. A centralização dos direitos televisivos, que a Liga Portugal pretende avançar na temporada 2028/2029, visa valorizar o produto do futebol nacional vendendo os direitos de todos os jogos em bloco aos operadores de televisão. Em julho de 2025, o Benfica solicitou a suspensão do processo argumentando que o clube sai mais valorizado ao negociar sozinho e que outros emblemas acabariam por beneficiar da sua grandeza. “Dizemos que se não forem as televisões a disputar os direitos pode-se tornar pobre, mas a verdade é que até agora, mesmo concordando que seria algo benéfico, ninguém se entendeu.”

Antonino Silva assume-se como “um homem da formação”. Está disponível para ir com o seu Conselho de Arbitragem a todo o distrito de Lisboa dar formação. “Tenho feito isso pelos clubes: ir a locais dar formação local aos árbitros que estão a iniciar”, refere. O presidente considera que também há árbitros já formados que podem fazê-lo e que “o gabinete técnico da associação está disponível para ajudar nesse sentido”.

A captação continua, no entanto, a ser um dos maiores desafios. “As pessoas não estão recetivas a ir arranjar novos árbitros. Querem árbitros, mas não se esforçam para tal”, critica. O próximo curso de arbitragem arranca a 12 de janeiro com a divulgação a ser feita através de cartazes na rua, espalhar a palavra pelos clubes, redes sociais, site da associação, entre outros meios, com o objetivo de, em janeiro, como afirma, “ter uma boa taxa de retenção”.

A Associação de Futebol de Lisboa realizou um único curso no ano de 2025. Dos 96 inicialmente inscritos, foram considerados aptos 53. O líder da arbitragem lisboeta considera o número “bastante baixo” e admite que queria “alcançar um número três ou quatro vezes maior para que os árbitros de Lisboa tivessem mais vida pessoal”. O número de árbitros não tem acompanhado o crescimento exponencial das diversas competições, o que considera ser um quadro de árbitro “muito insuficiente”. “Temos muitos jogos, e muitos jogos que não têm árbitro. Não é por falta de vontade de ninguém, é mesmo porque não temos recursos humanos para vários jogos”, sublinha. “Não posso pedir mais um esforço suplementar a quem já faz sete ou oito jogos por fim de semana. Seja no futebol, no futsal ou noutro desporto.”

Em busca de mitigar a falta de árbitros, o responsável pelo Conselho de Arbitragem afirma ter dialogado com instituições de ensino profissional, com vista à criação de cursos de arbitragem em contexto escolar. Antonino Silva adianta que há também a possibilidade de ser criado outro processo formativo durante as férias escolares de 2026, para captar as novas gerações. “Este ano os jovens que frequentaram o curso já estão no seu estágio normal. Temos um rapaz de 14 anos, que tem um empenho formidável e já é uma referência para a nossa associação. Falei com o pai dele que me confessou que, em casa, só se fala de arbitragem. É bom ter rapazes empenhados com o Rodrigo. Precisamos de muitos mais destes, com muita dedicação.”

“Os árbitros vão ganhando o gosto”

Apesar das apostas na formação, a retenção continua a ser um obstáculo. O percurso longo até remunerações mais atrativas, aliado às dificuldades vividas nos campeonatos distritais, tem afastado jovens árbitros. As agressões físicas e verbais agravam o cenário e preocupam o presidente, que alerta para a imagem negativa associada a quem está apenas a a tentar trabalhar. “Os árbitros ao fim de uma ou duas épocas já ganham o gosto e não abandonam, são resilientes”, afirma.

No Fórum de Arbitragem realizado em Ponta Delgada, nos Açores, no início de novembro de 2025, estiveram presentes os 22 presidentes de todas as associações de futebol do país. Entre todos os assuntos discutidos, foi concluído que não existe policiamento em todas as zonas de Portugal por uma razão: a polícia não tem efetivos suficientes.

Atualmente, as forças de segurança, como PSP e GNR, apenas garantem presença na Primeira e Segunda Liga de futebol nacional, deixando de fora o Campeonato de Portugal, a Liga 3 e os campeonatos distritais. “A Associação de Futebol de Lisboa pediu, juntamente com o Conselho de Arbitragem, um conjunto de reuniões com o secretário do Estado do Desporto, a Assembleia da República e o Comandante-Geral da Polícia e da GNR. Até ao momento foram recebidos os comandantes das respetivas forças de segurança, numa reunião muito boa, onde a associação sensibilizou para a necessidade de haver policiamento para proteção, não só dos árbitros, mas também dos espectadores.”

Segundo Antonino Silva, “atualmente têm acontecido mais problemas entre os espectadores com situações de pancadaria”. O presidente do Conselho de Arbitragem deixa claro que o principal problema do futebol de formação são os familiares dos jogadores que vão assistir aos jogos: “Parece que não sabem que aquilo é um jogo de futebol. Falamos de miúdos com idade entre os sete e doze anos, que querem uma bola para dar pontapés e divertirem-se. Não querem saber de questões táticas, querem se divertir.”

À exceção das competições de Seniores e Sub-19, onde a presença policial é obrigatória, os restantes jogos podem ser disputados com PCS (Pontos de contacto de segurança), assistentes de recinto desportivo ou gestores de segurança – solução que Antonino Silva considera insuficiente.  “Normalmente os PCS [figura com maior presença no futebol de formação] são os pais dos miúdos. Muitas das vezes, só lá estão para ver o filho ou criticar o árbitro. E quanto é assim, era melhor não estarem lá. São foco de instabilidade.

“O ideal era a polícia. Infelizmente não fazem patrulha sozinhos, tem de ser a dois, e isso é algo que dificulta.” Antonino Silva considera que a figura de um polícia é imponente e chegaria para controlar os ânimos do recinto de jogo: “Temos recebido muitos mails e relatórios de árbitros que mencionam problemas com as figuras de segurança, o que nos ajuda a que identifiquemos as pessoas e os problemas para que os resolvamos o mais rápido possível.”

Entre todo este caminho que é preciso ser percorrido para chegar à primeira categoria do futebol nacional, os árbitros passam por provas constantes para se manterem preparados para os fins de semana. Um assunto também discutido no Fórum de Arbitragem, que contou com a presença de Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Antonino Silva deixa claro que “os quadros vão ser reformulados. Com a criação do VAR, mesmo não acelerando processos é possível agilizá-los”.

“Foram criados grupos de trabalho com o fim de reformular os quadros de árbitros. Lisboa conseguiu a possibilidade de indicar quatro árbitros para subir aos quadros nacionais, o que já não acontecia há vários anos. Não fazia sentido. Fiz parte vários anos das comissões de avaliação aos árbitros que subiam ao nacional, e os árbitros de Lisboa vão mais bem preparados! Não fazia sentido associações terem menos árbitros que nós e poderem indicar o mesmo número de candidatos à subida.”

“Lisboa vai voltar ao seu lugar, por mérito próprio”

Apesar das dificuldades, Antonino Silva mantém uma visão otimista e ambiciosa sobre a arbitragem de Lisboa. Ao mesmo tempo que quer recuperar a quantidade de árbitros, espera que o mesmo se reveja a nível internacional.  “Eu sei que a qualidade está cá. Quando Lisboa tinha sete árbitros internacionais não tínhamos as condições que tínhamos hoje, e por isso, com empenho dos próprios árbitros, vamos voltar ao nosso lugar, por mérito próprio.”

O presidente não deixa de assinalar os feitos no futebol feminino com Catarina Campos. A árbitra de 39 anos, internacional desde 2018, faz parte da categoria de elite da UEFA, foi a primeira mulher a comandar um jogo da Primeira Liga masculina, em Portugal, e já arbitrou o jogo entre Eintracht Frankfurt e PSV Eindhoven a contar para a Liga Europa deste ano. Casos como este são gasolina para o presidente do Conselho de Arbitragem da capital, que mantém o pensamento: criar condições para os árbitros sonharem com os patamares mais altos, e que permaneçam dentro das quatro linhas.

Para o presidente do Conselho de Arbitragem, o futuro começa nos campos de formação e na forma como o futebol olha para quem aplica as regras. “Precisamos que as pessoas percebam que o árbitro não é um inimigo. É alguém que está ali para permitir que o jogo exista”, afirma. Num distrito onde o futebol cresce a ritmo acelerado, a sobrevivência da arbitragem dependerá da capacidade de proteger, formar e valorizar quem aceita o desafio de apitar.

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