Os lugares onde me senti em casa no mundo

A questão da liberdade e do lugar onde alguém verdadeiramente se sente seguro é complexa e subjetiva. Para abordar este tema, gostaria de partilhar uma série de reflexões baseadas nas minhas viagens. A segurança é frequentemente entendida como a ausência de crime, mas, como descobri, está também intimamente ligada à liberdade de expressão e ao ambiente político de uma nação.

A minha viagem começa no Dubai, um lugar que apresenta um paradoxo fascinante. À superfície, senti uma enorme sensação de segurança. É possível caminhar pelas ruas à noite sem o receio constante de ser assaltado ou incomodado. Isto acontece, em grande medida, porque o sistema legal é extremamente rigoroso. As pessoas sabem que, se cometerem um crime, a punição será rápida e severa. No entanto, esta “segurança” tem um preço escondido.

Embora não tivesse medo de carteiristas, sentia outro tipo de receio: o medo do Estado. Tinha plena consciência de que dizer a coisa errada ou expressar uma opinião impopular poderia ter consequências profundas, incluindo a prisão. Assim, neste contexto, pode alguém considerar-se verdadeiramente “seguro” se não for livre de dizer o que pensa?

Uma mudança semelhante ocorreu durante a minha visita ao Vietname. Antes de chegar, sentia alguma apreensão devido ao regime comunista do país. As minhas ideias preconcebidas levavam-me a esperar um ambiente fortemente controlado. Contudo, ao fim de apenas dois dias, os meus receios começaram a dissipar-se.

Observei uma sociedade vibrante, onde as pessoas participavam ativamente no comércio internacional e se deslocavam livremente por todo o país. Embora o governo continue a ser autoritário, a realidade quotidiana para um viajante parecia surpreendentemente aberta. Aprendi que a liberdade nem sempre é uma questão de “tudo ou nada” –  existe em diferentes camadas. Embora a estrutura política permaneça restritiva, a energia económica e social da população proporcionava uma sensação de liberdade que não esperava encontrar.

Por vezes, a liberdade não é retirada por um governo, mas por um indivíduo. Há dois anos, durante uma viagem a França, vivi uma experiência assustadora que me recordou quão frágil pode ser a nossa autonomia pessoal. Em teoria, a França é um dos países mais livres do mundo. Contudo, no momento em que um homem me agarrou pelo braço e tentou assaltar-me, a minha liberdade desapareceu. Deixei de ser livre para caminhar; deixei de ser livre para me sentir em paz. Felizmente, consegui escapar sem sofrer danos, mas a experiência mostrou-me que a segurança física é um dos pilares fundamentais sobre os quais assentam todas as outras liberdades.

O lugar onde senti a mais profunda sensação de liberdade foi a Finlândia. A viagem do ano passado foi uma revelação. Ao contrário das experiências noutros países, a Finlândia oferecia uma combinação rara de segurança física e plena liberdade política. Não tinha de me preocupar com “carros pretos” nem com vigilância governamental.

Vindo da Hungria, esta diferença foi particularmente marcante. Tenho de admitir que, no meu país, a atmosfera mudou; muitas pessoas sentem hoje que devem ter cuidado com aquilo que dizem em público para evitar problemas. Na Finlândia, esse peso desapareceu. Podia explorar a natureza, participar em debates e criticar qualquer assunto sem o menor vestígio de paranoia. Era um lugar onde o governo parecia atuar como protetor dos direitos dos cidadãos, e não como vigilante dos seus comportamentos.

Em conclusão, embora a liberdade financeira seja importante para viajar, não é possível desfrutar verdadeiramente de um lugar sem os meios que permitam alcançá-lo. A verdadeira liberdade encontra-se onde a mente e o corpo estão igualmente seguros. O Dubai oferecia segurança através da disciplina; França proporcionava liberdade acompanhada de riscos; mas a Finlândia deu-me a experiência mais autêntica de ser um ser humano livre. Continua a ser a referência pela qual avalio todos os lugares onde me sinto em casa no mundo.