Onde o silêncio aprendeu novas línguas

Numa pequena aldeia do interior do Alentejo, de seu nome S. Martinho das Amoreiras, o cheiro a lenha queimada continua a marcar o início das manhãs. Entre as ruas estreitas e as casas caiadas de branco, há quem ainda mantenha viva a tradição.

Ao chegar à aldeia, a primeira sensação é a de entrar num lugar onde o tempo abranda. O silêncio domina as ruas e o calor seco do Alentejo mistura-se com o aroma da lenha, criando uma atmosfera difícil de encontrar noutros lugares. Logo ao nascer do dia, vários habitantes da aldeia juntam-se no antigo forno, localizado a dois passos da Igreja Matriz. A massa é preparada em grandes tabuleiros cobertos com panos bordados à mão, com um ponto aberto no linho, que remata a brancura do algodão e que confere uma beleza singular. O ritual repete-se sem mudanças há décadas.

“Aprendi com a minha mãe e com a minha avó, que Deus as tenha”, conta a D. Maria, de 81 anos, que molda o pão enquanto a sua neta lhe ampara as pás do forno que já está aquecido à espera de os receber. “Hoje quase tudo é industrial, mas aqui ainda fazemos como antigamente.” O processo demora horas. Primeiro aquece-se o forno com os ramos secos da oliveira. Depois das brasas retiradas, o pão é colocado diretamente na pedra quente. O resultado é um pão de crosta espessa, sabor intenso e ligeiramente azedo, e um aroma fumado e característico.

Enquanto observo a azáfama em redor do forno, torna-se evidente que este não é apenas um local de produção de pão. É um espaço de encontro, de partilha e de memória coletiva, onde as histórias passam de geração em geração. Além da tradição gastronómica, o forno continua a funcionar como um ponto de encontro dos poucos que ainda resistem. Uns param no muro em frente, questionam acerca do tempo, olhando devagar, sem sobressaltos, para o gato que atravessa e, em câmara lenta, sobe agilmente para um parapeito com um vaso de flores.

O líder espiritual Mooji chegou à região do Alentejo e estabeleceu-se em Portugal por volta de 2011. Adquiriu uma propriedade rural de 30 hectares, na freguesia de São Martinho das Amoreiras, onde fundou o ashram e centro de retiros espirituais conhecido como Monte Sahaja. À primeira vista, parece improvável encontrar uma comunidade internacional tão diversificada numa aldeia perdida no interior alentejano. No entanto, basta caminhar alguns minutos pelas ruas para perceber que esta realidade faz hoje parte do quotidiano local.

Outrora as conversas eram interrompidas pelos tratores, que passavam abafando as palavras, hoje as conversas são interrompidas com as corridas dos meninos estrangeiros de diferentes nacionalidades, que correm para a escola e que aprendem português. A aldeia transformou-se numa nova realidade social, onde meninos que poderiam estar noutra parte do mundo se doam a um local que precisava deles como “de pão para a boca”. As tradicionais turmas pequenas ganharam novos rostos e novas línguas.

Entre os alunos, destacam-se várias crianças de cabelos loiros, vindas sobretudo do Norte da Europa, acompanhando os pais que decidiram trocar as grandes cidades pela tranquilidade de uma comunidade religiosa, com um mestre espiritual, que se chama Mooji. O fenómeno tornou-se cada vez mais visível nos últimos anos. Aquilo que a aldeia temia e que resultava nos sussurros descontentes entre conterrâneos tornou-se na realidade, agora apreciada, de os conhecer e ver crescer, das causas sociais a que aderem e das valias que ajudam a economia escassa e debilitada do Alentejo.

Os habitantes compreenderam a necessidade de adaptação para que a sobrevivência pudesse acontecer. A paisagem calma contrasta com as corridas dos meninos loiros de olhos azuis e verdes, trazendo novos cheiros e costumes. Já há quem passe e diga um “good morning”com sotaque alentejano. É precisamente este contraste que mais surpreende quem visita a aldeia. Entre tradições centenárias e novas culturas, São Martinho das Amoreiras conseguiu preservar a sua identidade sem fechar as portas à mudança.

No centro da Igreja e nas feiras mensais, todos falam a mesma língua. Nas voltas das vendas da fruta, com o mel e o azeite, também encontramos húmus e bolos sem glúten que estes estrangeiros colaram com as popias ou as cavacas. Os cheiros e as cores do mercado, o regresso do som das crianças transformaram as perceções de quem passa, e uma renovação bem-vinda, numa região marcada pelo envelhecimento populacional.

Na proximidade com a Serra Algarvia, S. Martinho das Amoreiras está entre o verde da serra e o amarelo das paisagens, entre o passado silencioso e a agitação da infância, entre os saberes antigos e os conhecimentos técnicos e modernizados de quem vem de locais do mundo muito desenvolvidos. No centro da aldeia, há um restaurante que se tornou local incontornável de visita, a Casa Nirvana. Este restaurante foi criado para servir a comunidade e promover a união entre as pessoas, mais do que funcionar como um negócio.

Ao aproximar-me da Casa Nirvana, o ambiente da aldeia parece transformar-se gradualmente. O silêncio continua presente, mas os aromas e as vozes que chegam do restaurante anunciam uma realidade diferente. Numa aldeia onde durante décadas todos se conheciam pelo nome, hoje ouvimos conversas em inglês, alemão e francês. À mesa da Casa Nirvana, habitantes alentejanos e estrangeiros partilham refeições, histórias e uma nova forma de viver que está todos os dias a mudar as gentes locais.

O aroma intenso das especiarias chega antes mesmo de se atravessar a porta. Cominhos, gengibre, cardamomo e coentros misturam-se com o ar quente de uma tarde alentejana. No interior, mesas de madeira simples e rústicas recebem famílias residentes e viajantes de passagem. Durante alguns instantes, é difícil acreditar que continuo numa pequena aldeia do Alentejo. Os cheiros, as línguas e a diversidade de pessoas criam a sensação de estar algures entre diferentes partes do mundo. Ouve-se música suave, enquanto o tilintar dos copos se mistura com as conversas. Lá fora, o ritmo é de uma típica aldeia alentejana, onde o silêncio é apenas interrompido com o canto dos pássaros.

O local parece um oásis de frescura e de vegetação numa aldeia tão quente. As variedades de plantas e de árvores, arbustos cativam quem por ele passa. As mensagens espirituais também prendem a nossa atenção, frases inspiradoras, cativantes e profundas. Um letreiro refere que só paga quem pode. A frase obriga-me a parar. Leio-a uma vez, depois outra. O espaço toca no sagrado, a energia faz-nos acalmar. Ao deixar a aldeia, permanece a sensação de ter visitado um lugar improvável.

Um lugar onde o pão continua a ser feito como antigamente, mas onde se ouvem idiomas de vários continentes. Uma aldeia silenciosa, de gente pacata e simples e que se tornou a escolha de muitos para encontrar a paz.