Se há algo que a vida me tem vindo a demonstrar é que a glória, tão ardentemente desejada na vida pelo ser humano, não passa de uma ilusão efémera, que aguarda inevitavelmente ser substituída pela pequenez a que a insignificância, concebida por aqueles que nos veem como um mero instrumento para a conquista das suas vitórias, nos remete. Brilho este que dura o tempo exato da nossa utilidade.
Penso nesta ponte, entre o triunfo e a queda, sempre que reflito sobre a transformação de Cristiano Ronaldo ao longo da sua carreira, considerado por mim, e por muitos, o melhor futebolista de sempre. E o que se pode esperar de um povo cujo nome foi elevado por este grande jogador? Talvez estivesse à espera de ver, nem que fosse o mínimo, gratidão por tudo o que ele significou para Portugal – até me lembrar da futilidade que irradia no mundano, alimentada pelo egoísmo que cada um guarda no seu próprio bolso.
Durante anos, este homem foi um milagre nacional. O menino que saiu da ilha para conquistar o sonho e mudar o rumo da sua vida e o da sua família, e conseguiu. Aquele que regressava todos os anos à Seleção, sempre com algo para oferecer: um golo impossível no último minuto, uma vitória improvável, uma razão para acreditarmos que Portugal podia ser maior do que nos estava intrinsecamente destinado.
Para todos, o Ronaldo era bestial – no sentido mais puro da palavra. Um animal de glória, um corpo que parecia feito de exceção e irrealismo. Contudo, como nada na vida é eterno, esta quimera vinha com um prazo de validade. E quando começa a expirar, a adoração esvai-se depressa: caindo como um golpe seco. De repente, o mesmo país que o venerava passou a vê-lo como um obstáculo, um problema, um vírus. Esta transição é tão portuguesa que quase parece tradição: do pedestal ao chão, de “temos o melhor do mundo” a “esse já não acrescenta nada”. Não porque tenha mudado, mas porque, aos olhos de quem o observa, já não serve mais – deixou de ser a lenda.
Temos seleções pelo mundo como a da Argentina, Brasil, México que, tanto os jogadores de equipa como os adeptos, demonstram a sua gratidão pelos que mais lhes deram alegrias e conquistas – movem-se pelos seus heróis. E nós? Desvalorizamos completamente um homem que desde sempre lutou e amou o seu país.
E é aqui que a minha reflexão inicial ganha corpo: a glória nunca pertence ao indivíduo. É uma construção do olhar de quem assiste como se estivesse num tribunal – e acreditem que este público é tudo menos tolerante: é impaciente, ingrato e esquecido.
Cristiano não perdeu o talento; perdeu o encanto que as pessoas projetavam nele. E quando o encanto se quebra, o herói é devolvido à pequenez que o olhar coletivo reserva a quem ousa brilhar demasiado.
Para alguns, isto pode parecer só mais um cliché sobre Ronaldo, só mais uma bajulação. Para mim, são apenas as palavras de uma menina que cresceu a ver futebol nacional e a ouvir, antes de cada jogo da seleção, “se o Ronaldo jogar, vamos conseguir”; a vê-lo elevar a cultura e o nome português, a tornar-se numa lenda, o seu ídolo, bater recorde atrás de recorde: sempre com trabalho árduo e vontade de triunfar, não só por ele, mas principalmente pelos seus.
Tudo isto é sobre uma geração que cresceu a ver o “CR7” como uma bandeira nacional. E, de um dia para o outro, deixou de ser importante para aqueles que, em busca de um vilão da história e de atenuar o sentimento de frustração, o culpam porque, infelizmente, na nossa sociedade, o alvo mais frágil, mesmo que injustiçado, é sempre o mais fácil a ser escolhido.
Para mim, nunca deixou de ser a lenda, o melhor do mundo. Apoiei-o em cada jogo, cada golo. Chorei, ri, gritei, festejei com ele e por ele. No final do dia, devíamos aproveitar os seus últimos toques na bola porque o apito final aproxima-se e do número 7 só restará a saudade. E será muita.
Só me resta dizer obrigada, Cristiano.