
A entrada de Tiago Lopes no mundo da música foi algo mais tardio. “Não houve nenhuma razão em particular. Foi curiosidade. Tinha visto uns vídeos e achei engraçado. Pensei por que não?”, lembra. Aos 18 anos, pediu um piano elétrico. Não estava à espera de uma resposta positiva. “A minha mãe costuma ser mais forreta. Pensei: ela vai dizer que não, não quer gastar dinheiro com coisas estúpidas.” Disse que sim sem questionar. Tiago ficou surpreso e ganhou o piano.
No mesmo ano, acabou por comprar um piano acústico, por um preço muito baixo, a uma pessoa que precisava de o retirar de casa em dois ou três dias. Abriu a tampa, olhou para o interior e deparou-se com 200 cordas de ferro. Ficou fascinado. “A maioria das pessoas que toca piano não tem a menor ideia de como o instrumento funciona por dentro. O que mais me chamou a atenção não foi a música em si, mas sim perceber como é que a máquina funciona.”
O percurso académico do jovem afinador de pianos foi, nas suas palavras, “sempre mais académico do que artístico”. Licenciou-se em Direito pela Faculdade do Porto. Trabalhou numa seguradora e inscreveu-se na Ordem dos Advogados, onde ainda hoje se encontra registado.
Durante anos, afinava o próprio piano duas ou três vezes por semana. Não por necessidade, mas por curiosidade. Cada sessão era uma experiência. Começou a fazer o mesmo no dos amigos, sem qualquer retorno monetário, porque estava a aprender. Publicou anúncios no OLX com preços simbólicos.
O ponto de viragem chegou em janeiro de 2026. Nesse mês, afinou mais de 20 pianos. Em fevereiro, continuou. “Quando vi que as coisas estavam a andar, disse: vou largar tudo. Porque se temos um sonho e ele começa a correr bem, temos de o agarrar.” Abandonou a área jurídica e dedicou-se a tempo inteiro à afinação. Hoje, trabalha com escolas e conservatórios.
Um afinador de pianos precisa de quase total silêncio. Não pode haver música de fundo ou qualquer distração sonora. O ouvido tem de estar completamente livre para captar a vibração de cada corda. “Não posso estar a ouvir uma música que gosto. Tenho de trabalhar quase com silêncio”, explica.
O processo pode durar entre uma hora e meia e quatro horas, dependendo do estado do instrumento. E é exatamente nos casos mais difíceis que o jovem encontra maior satisfação. “Quando pego num piano que está numa laça, trabalho três, quatro horas e, no final, ele soa como deve soar. A pessoa fica toda contente. Nem ela própria acreditava que ia chegar àquele nível.”

Uma profissão sem concorrência
Portugal tem pouquíssimos afinadores de pianos. Tiago Lopes arrisca um número: “talvez oito ou nove em todo o país, se tanto”. Paradoxalmente, há muito mais pianos em Portugal do que a maioria imagina. Cada conservatório tem dezenas. Cada aluno de conservatório tende a ter um piano acústico em casa. E os pianos devem ser afinados, em média, de dois em dois meses.
Tiago não vê esta escassez como vantagem pessoal, mas como um problema estrutural. E identifica a sua causa: ninguém quer ensinar. Em Portugal, não existe nenhuma academia, nenhum curso ou caminho formal para aprender a afinar pianos. Quem sabe, guarda o conhecimento para si. “Se fizermos o exercício de falar com um afinador e dissermos que queremos aprender, ele vai dizer que não. Não quer mais concorrência.”
Tiago Lopes aprendeu sozinho: com livros, com canais de YouTube, com um afinador da zona que o ajudou com alguns pormenores e com horas e horas de prática diária.
As redes sociais foram o motor do crescimento do negócio. Tiago começou a filmar as suas intervenções: pianos em mau estado, teclas presas, pedais desafinados, cordas partidas, bem como a publicar no TikTok e no Instagram. Os clientes começaram a aparecer.
Da curiosidade à perfeição
Enquanto a prática comum é sentar, afinar em 40 minutos e partir, Tiago Lopes passa duas horas e meia a três num piano. Inclui no mesmo preço a limpeza, os ajustes, os pequenos reparos que outros cobram à parte ou simplesmente ignoram. “A pessoa paga um valor, que inclui tudo. Não há surpresas.”
Há uma faceta de Tiago Lopes que pouca gente conhece: é compositor. Tem obras publicadas para piano. Tem um opus em fase de edição, um conjunto de estudos para piano que ele próprio nunca dará a conhecer em concerto, porque nunca treinou a dimensão pública da performance. “Nunca tive aulas. Aprendi sozinho. O que mais me interessava era o instrumento por dentro, não ser pianista de palco.”
Dedica-se à composição porque gosta, sem expectativas económicas. “A música clássica contemporânea em Portugal tem zero interesse. Ninguém vai tocar Tiago Lopes quando pode tocar Chopin”, considera. O que o motiva é outra coisa: a ideia de que está a providenciar valor. Que sem afinadores, a música que ouvimos nos concertos e nos conservatórios soaria diferente. Que o seu trabalho, invisível para a maioria, é essencial.
Nos próximos anos, Tiago Lopes quer afinar os pianos do Conservatório do Porto e da Casa da Música, dois objetivos que, mais do que económicos, define como “estratosféricos” em termos de reconhecimento profissional. Quer também começar a restaurar pianos antigos, trazê-los de volta à música quando todos os tinham dado como perdidos. É esse o fio condutor de tudo: pegar no que está partido, no que parece sem remédio e devolver-lhe vida.