Quando era jovem, Teresa Sousa, hoje com 82 anos, estava longe de imaginar que, no mesmo prédio onde a mãe trabalhava como porteira, iria nascer, muitos anos mais tarde, um projeto cheio de vida que lhe preencheria os dias. Quis a sorte ou o acaso que, no 1ºandar do mesmo edifício, viessem a morar os netos, pelo que Teresa estava demasiado ligada ao local para não descobrir o ambiente multicolorido que observava, sempre que espreitava para a loja do nº10 do Largo Mendonça e Costa, na Penha de França, em Lisboa.
A primeira vez que entrou no atelier de A Avó Veio Trabalhar encontrou um grupo de mulheres com mãos de fada que seguravam um tapete de Arraiolos. Juntou agulhas e esse seria o primeiro dia do resto da sua vida. Teresa Sousa é hoje uma das 350 avós que se reúnem nos ateliers de Lisboa, Cascais e Açores para dar asas a este projeto de natureza social.
Fundado em 2013 pela mão da designer Susana António e do psicólogo Ângelo Campota através da Fermenta Associação, o propósito maior do projeto continua a ser o de combater o isolamento, promover o envelhecimento ativo e contribuir para o desenvolvimento social e cultural através do design comunitário. Como explica Susana António: “A associação tem um modelo de negócio social. As avós não pagam e são voluntárias. O dinheiro das encomendas serve para manter o espaço aberto e planear as próximas atividades. Os trabalhos realizados por encomendas são essencialmente labores manuais, como bordado, tricô e crochet. Os produtos podem ser tanto para uso em eventos como para venda, só depende do cliente.”



“As avós não pagam e são voluntárias. O dinheiro das encomendas serve para manter o espaço aberto e planear as próximas atividades.”
Susana António, designer e cofundadora da Fermenta Associação

Além dos trabalhos manuais, as protagonistas do A Avó Veio Trabalhar também já participaram em publicidade em empresas reconhecidas, como a Perfumes & Companhia, a Fidelidade e o Pisca Pisca. Atualmente, estão a fazer uma colaboração com a MasterCard. “Os projetos são completamente aleatórios e variam com os pedidos dos clientes”, refere Ângelo Campota. Algumas participantes estiveram nos programas televisivos da manhã, como “Casa Feliz”, da SIC. No próximo mês de novembro, vão marcar presença na Web Summit para dar conselhos sábios sobre a vida a jovens empreendedores.
Da experiência acumulada, Teresa Sousa conhece hoje bem o que distinguem as criações das avós que colaboraram com a associação: “Neste projeto, os trabalhos realizados têm um propósito. Ao contrário de outras instituições, como centros de dia, onde só se fazem coisas que vão para a gaveta. Aqui, tudo o que se cria é encomendado por clientes e desenhado pelo mentor e responsável.”



Dias de descoberta
A abundância de plantas, fotografias de atividades passadas e de trabalhos manuais coloridos são alguns dos itens decorativos do espaço da Penha de França. A aparência retro da mobília e das decorações é propositada. “Não temos nada de plástico”, assegura o responsável Ângelo Campota. A decoração vintage e extremamente humanizada, com lugar para o retrato de cada uma das participantes, faz com que a área de trabalho e convivência tenha uma verdadeira aparência de “casa da avó”, um lugar onde se quer estar e pertencer. A própria dimensão reduzida das instalações permite um ambiente acolhedor e íntimo, propício ao sentimento de proximidade que se pretende criar entre as pessoas. Além da zona de trabalho, há também uma área para armazenar os materiais. Os novelos e as pilhas de tecido colorido arrumados de uma forma naturalmente desorganizada deixam transparecer o movimento e vivacidade do atelier.



Por aqui, os dias nunca se repetem ou são dados à monotonia. As atividades realizadas dividem-se em duas categorias. De um lado, encontram-se os trabalhos por encomenda, que ocupam a maior parte do tempo e servem para financiar o projeto. Do outro, existem iniciativas mais esporádicas puramente para diversão e prazer das avós. “As atividades surgem de conversas entre mim e o Ângelo ou de ideias que as avós propõem; coisas que gostariam de experimentar. Depois, só nos cabe a nós ir atrás dos contactos necessários para tudo se realizar”, refere Susana António. Algumas das avós já chegaram a experimentar desportos “radicais”, como escalada, iniciação ao surf e simulação de skydiving. Mas não para por aqui. Sempre que podem, partem a conhecer o país e o mundo. “Na nossa ida ao Japão, os jovens de lá ficaram espantados porque estão acostumados a que as pessoas de idade não queiram dar nas vistas e nós fazemos o oposto”, recorda a designer.
A Avó Veio Trabalhar também organiza workshops pagos, nos quais os participantes podem aprender a realizar determinados trabalhos manuais. “As pessoas podem fazer pins ou trazer camisas e fotos para bordar”, explica a estagiária Maria Júlia. A jovem de 20 anos encontra-se no seu primeiro estágio, mas confessa que pretende ficar por mais tempo a fazer voluntariado. “Aqui, sinto que desacelero. Escolhi este espaço por ser tranquilo e poder desenvolver competências criativas e sociais. As minhas maiores interações são de companheirismo.”

Mulheres com mãos de fada
Também foi o companheirismo que levou Teresa Sousa a permanecer no A Avó Veio Trabalhar. “Sou muito apaixonada por gente”, admite. Depois de trabalhar no Ministério da Defesa Nacional durante 43 anos, sente que o mais importante é manter-se ocupada. “Se pudesse, trabalhava lá até hoje. A minha paixão foi trabalhar com o Exército. Ia fazer 17 anos quando tive o meu primeiro trabalho e foi horrível. O meu patrão gritava comigo para atender o telefone e cheguei a chorar ao fazê-lo. A partir daí, nunca mais admiti que ninguém me tratasse assim, especialmente homens”, recorda.
Teresa Sousa garante nunca se ter sentido só ao longo da vida. Quando se proporcionava, até viajava com o namorado holandês com quem mantém uma relação há 30 anos, embora cada vez mais à distância. Antes de se juntar à associação, gostava de passar o dia a dia a fazer companhia e dar assistência às pessoas mais vulneráveis do prédio onde mora. Na ideia de dar continuidade a essa forma de estar, é com gosto que hoje participa no “A Avó sai da caixa”, uma das iniciativas do projeto que começou com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Todos os meses, ela e outras participantes deslocam-se a diferentes centros de dia para expor o trabalho das avós. Deste modo, pessoas idosas mais debilitadas também têm uma oportunidade de ver que a idade não tem de impor limites.


Os alicerces da casa da avó
Se para Teresa Sousa, estar ligada ao projeto é sinónimo de companheirismo e uma forma de se manter ativa, para Lindnava Pacheco, 68 anos, o Avó Foi Trabalhar foi uma oportunidade de redescobrir o amor pela vida. Veio por iniciativa da filha que não gostava de ver a mãe sozinha. Neste lugar de cor, Lindnalva Pacheco aprendeu a bordar e está a treinar fazer crochê, mas, acima de tudo, mantém amizades e criou relações importantes. “Foi a melhor coisa que me aconteceu”, afirma.
Lindnalva Pacheco é uma das almas da casa. Gosta muito de música, de cantar e de espalhar alegria. Todos os estilos musicais lhe agradam, mas tem preferência pela época musical dos anos 80. “Sempre gostei de cantar”, assume. Há 15 anos, Lindnalva Pacheco cantava num café perto do Bairro Alto, acompanhada por guitarra portuguesa e piano. A alegria que transparece contrasta, no entanto, com a sua história consternadora: “Quando o meu marido era vivo, a minha vida era só para ele. Não saía, não tinha amizades… Era só trabalho. Só há dois anos, quando me juntei à A Avó Veio Trabalhar, é que comecei a viver de verdade.”

Uma casa, mas nunca um “lar”
Quando se pensa em locais frequentados por pessoas seniores é comum que os lares e centros de dia sejam a primeira imagem que surge em mente. Contudo, A Avó Veio trabalhar propõem uma visão completamente oposta de convívio sénior. Ângelo Campota acredita que “os centros de dia têm os dias contados”. Segundo o responsável, “aquilo que distingue esta associação de uma habitual residência de idosos é que este é um espaço nada assistencialista, onde todos são valorizados como pessoas que têm capacidade para sonhar. O objetivo é combater estereótipos relacionados à idade. Todos os trabalhos são coloridos e animados, o que acaba por ser diferente do que se espera de pessoas de idade”.
Numa comparação mais direta com os centros de dia, o terapeuta explica que “aqui as pessoas têm independência. Não há uma carrinha que as vai buscar e pôr a casa. Todas vêm por meios próprios e têm liberdade de entrar e sair quando quiserem. Não é uma instituição que lhes fornece o almoço. Se quiserem podem trazer o seu almoço ou ir almoçar ao restaurante da esquina.” Ângelo Campota considera que “um dos grandes erros cometidos em sociedade no tratamento das pessoas idosas é a utilização de diminutivos. As pessoas internalizam essa informação”.


Encontrar-se entre as demais
Entre as mulheres que todos os dias se reúnem no atelier do Largo Mendonça e Costa está Rosa Carvalho. Aos 72 anos, defende que “nos lares, as pessoas perdem a sua identidade. Aqui, os mais velhos têm dignidade e autonomia, criam amizades e quem vem perdido encontra-se. Há sempre alguém que ajuda quem tem mais dificuldades”.
Maria Alves, 90 anos, é uma dessas pessoas. Já não tem tantas capacidades motoras como as colegas, o que a impede de participar nas atividades de bordado e costura. Ainda assim, nunca está parada. Encarrega-se dos trabalhos “pequenos”, como por exemplo fazer bolas de novelo. “A avó Maria chegou muito fechada e desconfiada. Não queria que a filha a deixasse aqui sozinha. Agora já se abriu mais e já diz à filha para se ir embora”, conta Fátima Carvalho.
Como costureira e modelista, Fátima Carvalho tem a função de criar a base sobre a qual as avós vão trabalhar, mas também de as ajudar naquilo que for preciso. A modista começou a trabalhar no A Avó Veio Trabalhar por indicação de algumas mulheres que, à época, estavam com ela numa associação de mulheres imigrantes. “Nunca estou parada no mesmo sítio. Este trabalho é muito dinâmico e tem muito boa energia”, relata. E continua: “Há dias, em especial os chuvosos, onde vêm menos pessoas, mas as mesas estão sempre cheias. Há avós que vêm sempre em dias fixos. Dá-lhes propósito levantarem-se e terem uma rotina.”

A razão de o avô não vir trabalhar
O projeto recebe todas as pessoas de idade igual ou superior a 60 anos. Curiosamente, apesar de A Avó Foi Trabalhar abrir as portas a todos, no momento, é apenas composto por mulheres. Se alguns homens viessem seria, com certeza, bem recebidos. No entanto, como conta o responsável Ângelo Campota, “alguns homens vieram experimentar, mas acabaram por desistir”. Teresa Sousa acrescenta que “no começo, o grupo era composto quase igualmente por homens e mulheres, mas quando mais mulheres começaram a entrar os homens acabaram por sair”.
As razões que explicam a assistência exclusivamente feminina são diversas. Eliza Marques, 78 anos, integrante do atelier, há muito que tenta convencer o irmão de 81 anos a juntar-se à equipa, mas sem sucesso. “Alguns homens de gerações anteriores têm a mente ainda bastante fechada, pelo que veem atividades como costura, bordados, tapeçaria e cerâmica como coisas de mulheres. Eles queixam-se, mas resistem”, lamenta.

Ângelo Campota encontra um motivo para o fenómeno: “Quando eram mais novos, os homens saíam para trabalhar, enquanto as mulheres se encarregavam de coser roupa e tratar das crianças. Muitas vezes, as mulheres juntavam-se para fazer essas atividades, daí terem um maior sentido de comunidade. Quando os homens atingem a reforma, já não sabem como se integrar.”
Enquanto os avôs não vêm trabalhar, são as mulheres que continuam a entregar o seu saber e criatividade às inúmeras encomendas que todos os dias chegam à Fermenta Associação. Seis anos volvidos de experiências partilhadas, centenas de peças criadas e de muitas outras que estão por nascer, Teresa Sousa deixa escapar: “Para mim, o Avó Veio Trabalhar é como uma droga. Acordo às seis da manhã já a pensar no que venho cá fazer.”
