Nos últimos dias, dei por mim a pensar na palavra “estado”. Contactei com esta ideia pela primeira vez, provavelmente, algures nas minhas aulas de Estudo do Meio, quando me explicaram o ciclo da água e os seus três estados. E lembro-me de pensar na maravilha que era poder definir um bem tão precioso como a água com apenas três palavras: sólido, líquido e gasoso.
Acabaria por perder algum deste encanto com a descoberta das múltiplas e variadas definições para uma palavra de três sílabas. Ao folhear as páginas do dicionário, viria a descobrir que o “estado” não se ficava pela qualidade das coisas. Descobri-lhe um poder oculto, o de poder apontar o dedo e dizer se as pessoas estão em choque, se estão doentes (e em que estado), são solteiras, se pertencem ao grupo social dos ricos ou dos pobres. Apercebi-me também que, apesar de haver muitos estados (e muitos estados para as coisas), os estados não eram todos iguais: havia estados com letra pequena e estados com letra grande. E uma vez que existem estados com letra grande, há que atribuir-lhes alguma importância.
Para a quantidade de palavras capazes de descrever o estado de alguma coisa, a dificuldade que encontro em arranjar uma que retrate o Estado da nossa nação parece irónica (e nem mesmo as quase quatro horas de debate sobre o estado da nação conseguem ajudar-me nessa tarefa), sobretudo quando são feitos dois diagnósticos completamente distintos: por um lado, o primeiro-ministro admite que há problemas, mas afasta os cenários de caos e insegurança. O Governo que lidera é praticamente revolucionário, ousa “transformar potencial em prosperidade”. O crescimento económico do país está acima da média da União Europeia. E qualquer instabilidade é culpa dos partidos de oposição, principalmente de José Luís Carneiro e André Ventura. Podemos estender confortavelmente as toalhas na praia, porque o país está a andar para a frente.
Por outro lado, se fizermos uma ronda pelos noticiários, ficamos com a sensação de que o estado do Estado já teve dias melhores: Almada continua com dificuldades no abastecimento de água, os alunos do 12º ano desesperaram à espera dos resultados dos exames nacionais, as filas à porta da AIMA crescem, os processos arrastam-se nos tribunais até prescrever, as horas de espera aumentam no Sistema Nacional de Saúde, os incêndios devastam o país e os escândalos sobre os ministros sucedem ao ponto de deixar de surpreender. É então hora de limpar a areia das toalhas e ir resmungar para as esplanadas dos cafés ou para as caixas de comentário das redes sociais, enquanto recordamos longínquos episódios de orgulho nacional e atiramos as culpas para cima dos imigrantes, dos professores, dos médicos e sobretudo, do Estado.
Viveremos, como dizem nas tascas, num país de incompetentes? Sou pessimista por natureza, mas quero acreditar que não, até porque há boas decisões a serem tomadas pelo país fora. Mas uma vez que o Estado, com letra grande, é o principal responsável pelo bem-estar económico e social dos seus cidadãos, diagnosticar o seu estado parece-me, no mínimo, urgente, para que se encontrem soluções sensatas e adequadas.
Neste momento, pergunto-me se as palavras que procuro no dicionário existem ou se também eu estarei numa batalha perdida. Oxalá pudesse explicar o que estado a que chegámos com a simplicidade do ciclo da água.