Norberto Cruz é um músico, compositor e pedagogo madeirense, que se dedicou ao bandolim enquanto instrumento de concerto e a uma ação contínua na valorização da música erudita e da identidade cultural de Portugal. A sua formação prolongada em Itália, onde estudou bandolim durante uma década, permitiu-lhe integrar uma tradição sonora profundamente enraizada na música clássica europeia.
A experiência internacional colocou-o em contacto com alguns dos mais relevantes nomes e instituições da música do século XX. Teve a oportunidade de tocar com Ennio Morricone, um dos compositores mais icónicos da história do cinema, apresentou-se na Ópera do Teatro alla Scala, em Milão, ao lado do tenor Plácido Domingo, e colaborou com Mstislav Rostropovich, considerado um dos maiores violoncelistas do século XX. Trabalhou igualmente com a RAI, Radiotelevisão Pública Italiana, participando em projetos que contribuíram para a divulgação da música erudita em contextos mediáticos de grande alcance. Destacou-se como fundador e integrante de um quinteto criado em homenagem a José Pareda, apresentou-se no Campidoglio (Capitoline Hill), em Roma, e em 2012 ganhou a medalha da cultura com esse mesmo projeto.
Após o terramoto que atingiu Itália em 2009, regressou à Madeira em 2010, momento que marcou uma nova fase da sua carreira, orientada para a formação, criação e dinamização cultural na região. Fundou a Associação de Bandolins da Madeira, com o objetivo de preservar, desenvolver e projetar o bandolim, promovendo o intercâmbio entre gerações de músicos e incentivando a criação de novos repertórios. Nesse cenário, apresenta-se como uma das figuras principais na criação e consolidação do Festival de Bandolins da Madeira, evento que se tornou uma referência cultural e artística, reunindo intérpretes nacionais e internacionais. O bandolim, instrumento muitas vezes associado a contextos populares, assume, no seu trabalho, uma dimensão plenamente erudita. Foi também professor no Conservatório durante vários anos, e até hoje continua a participar em iniciativas culturais, bem como a lançar novos projetos que rompem com a corrente artística dominante.
Como foi o seu primeiro contacto com a música?
Comecei com o bandolim, ainda hoje toco. Tinha 5 ou 6 anos, foi com o meu avô, muito em família. Na altura, não pensava “ah, que fixe tocar bandolim”. Não, que fixe era estar com o avô. E o avô ensinou-me a tocar. Então o instrumento era um meio para isso. Tudo que eu uso em arte é um meio para outra coisa. Nunca uma finalidade. Não é ser o melhor e usar aquela ferramenta. Que se lixe a ferramenta. Ainda mais na idade que tenho, porque toco há 40 anos, a minha mão não é a mesma de quando eu tinha 18. É normal, a gente começa a decair com a idade. Ele era músico amador, um amante de música.
Que diferença existe entre ser profissional e amador?
Às vezes, as pessoas, de uma forma equivocada, pensam que o amador é inferior em termos de capacidade em relação ao profissional. A única diferença entre o amador e o profissional é que um faz por dinheiro e o outro não. Não quer dizer que o amador não procure informação, não vá estudar e não possa até ser melhor do que alguns profissionais. A diferença efetiva é essa, é que fazer como profissão. O amor tem de estar lá, senão seremos péssimos profissionais. O amador não quer dizer ser superficial ou ser tecnicamente inferior ou não ter competências. Não está escrito em lado nenhum. Basta ver na história do mundo, especialmente na história da arte. Qual era o título que Mozart tinha? Ele não foi estudar. Aprendiam na estrada, no fazer. Era a escola da vida.
Gostou de ser professor do Conservatório?
Não, acho que a palavra não é essa. Eu gostei de partilhar. Ser professor não me diz nada. Porque associo a palavra professor a um desnível hierárquico. Tive muito choque com o sistema de ensino. Eu não estou a desvalorizar a importância do programa, traz muitas ferramentas e competências, mas, para mim, é só uma referência. Não pode ser tudo. Não se pode aplicar um programa a todos os alunos. Cada um é completamente diferente. Há outra coisa que, às vezes, é muito distorcida: a ideia de que os professores têm de motivar os alunos. Isso não existe. Tenho de os ajudar e lhes dar recursos. Mas não tenho de os motivar. Para mim, faz mais sentido ser mentor, porque se assenta na partilha de experiências de uma pessoa mais velha, que se calhar já se queimou em muitas coisas.
Então, para si, o que é a escola?
Ela replica padrões de aprendizagem como ferramentas que podemos utilizar para cada pessoa fazer a sua “escola da vida”. É aqui que o ensino superior é importante. Agora, se alguém se vincula somente às competências que o ensino superior lhe dá e diz “ok, sou formado”, tornasse um clone. Ou de alguém, ou de um professor, ou de um sistema, ou de alguma coisa. E isso é o oposto do que é ser artista. Porque pode ser um músico executante, ou um músico artista.
Que mudanças mais marcantes observou na indústria da música, ao longo da sua carreira?
São tempos muito diferentes de quando eu era criança. Os estímulos eram muito menos. Havia mais silêncio, mais espaço para pensar, refletir. Quando saía um CD, todo o mundo o ouvia . Não havia 80 mil referências. Isso quase nos tirou o silêncio entre nós e a capacidade de diálogo. Nos anos 50, 60, 70, chegava o artista, entrava na rádio e dizia, “queria tocar a minha canção”. Os antigos produtores diziam “vai para o estúdio e vamos ver o que acontece”. Não havia essa coisa das caixinhas. E aí apareceu o Elvis, os Beatles, os Rolling Stones. E cada um era completamente diferente do outro. O problema é que estes grandes produtores faleceram e vieram novos. E o que é que faziam? Queriam replicar o sucesso dos velhos produtores. E então aí, vamos fazer uma coisa à Beatles, à Elvis…. Sempre fui contra a corrente destas coisas. Adoro músicas de 40 minutos. Não vou nessa corrente das músicas de 3 minutos para ir para a rádio.
Antes de conseguir a estabilidade que tem hoje, como descreve o caminho que percorreu enquanto músico?
Nunca procurei a estabilidade ou o dinheiro, mas sim experiências. E o dinheiro é como um instrumento. É um meio para algo. Não é uma finalidade. O dinheiro vem se temos um propósito. E a arte é abundante e muito democrática. Há espaço para todos. Mas implica fazer o processo de olhar para dentro. Por isso, nem todos vingam, vão atrás ou conseguem fazer. O meu pai sempre foi um empregado de mesa e a minha mãe trabalhava numa secretaria de escola. Como é que um miúdo que vem de uma família humilde, teria conseguido trabalhar com o Morricone, estudar em Itália, tocar pelo mundo todo? Isso não aconteceria certo? Tive de acreditar no processo. E isso implica fé. Se não tenho fé em nada, como é que posso ter fé em mim? Então tudo é medo. Vamos pelo caminho seguro. E o caminho seguro é o pior caminho que existe.
Por que decidiu estudar música em Itália?
Eu queria muito ir para o mundo. Queria muito ver outras culturas e outras coisas. Não havia internet. A gente ouvia falar. Hoje, o mundo para, pata os jovens, é pequeno. Na nossa altura, o mundo era muito grande do ponto de vista da nossa percepção. Era gigantesco.
Como é que os seus pais reagiram na altura?
“Vai-te deitar, não inventes.” Essas coisas. Depois, perceberam. Também foi um processo. Eu estava muito determinado. Existiam 99 nãos e um sim, e o único sim era eu. Porque realmente era muito difícil. Havia problemas financeiros. Trabalhei e ganhei uma bolsa de estudos. Cheguei a Itália e dormi quatro anos num colchão de palha. Tinha 19 anos. Ia à escola, tinha um intervalo e estudava Bandolim. O bandolim vinha sempre comigo para todo o lado. Percebi que, quanto mais tocasse, mais possibilidade tinha de ganhar alguma coisa. Conheci a Dorina. Foi minha mentora. E ela viu em mim aquilo que chamam de talento.
Como define o talento?
Às vezes, o talento não é a capacidade que a gente tem de fazer alguma coisa na música ou não, mas de superar obstáculos. E isso começa em família. E até, às vezes, antes disso, começa em nós próprios. Nós criamos um propósito: é isto que eu quero fazer. Não começa lá fora, não começa com a política, com o dinheiro. Isso é tudo externo; são tudo distrações.
E qual considera ser o seu propósito? Com a música, com a arte, com a vida?
Quebrar velhas correntes. É o que eu sinto hoje. Se me fizesses essa pergunta há um ano, eu não saberia responder. Não tem nada a ver com religião, porque eu não sou uma pessoa religiosa. Mas sou uma pessoa espiritualizada. Eu sempre confiei no meu caminho. Se eu sentia não racionalizava demais as coisas. A parte da razão era quando eu tinha de executar, construir. É um pacto de confiança. E tens de desenvolver isso de uma forma muito sólida para conseguir suportar o caminho.
O que pensa sobre o uso de inteligência artificial na criação artística?
Alguém acredita que se houvesse tecnologia no tempo dos Barrocos não iam usar? Beethoven ia ser baterista. Se calhar, tocava metal. Ninguém sonha sequer com o que está por vir. Mas eu abraço isso. Não tenho medo. Tenho medo da ignorância natural. Não da inteligência artificial. É a mesma coisa que voltar cem anos atrás à Revolução Industrial e dizer assim: “Tu tens medo do trator”. Quem trabalha com a enxada tem medo porque vai perder o trabalho. Se acreditas que a tua vida é a enxada, claro que tens medo. Se te limitas, achando que és um compositor na forma tradicional de fazer música, estás com a enxada na mão. A tecnologia cresce de uma forma exponencial, mas o ser humano não mudou assim tanto. A emoção continua a ser emoção. A nossa forma de criar é a mesma. Não mudou em 10 mil anos. O que mudou foram as nossas referências. Vamos falar dos génios. Conseguem conter tanta informação no cérebro deles como tem a IA na sua banca de dados? Nunca na vida. Então inteligência não pode ser apenas informação. Inteligência é criatividade. É saber utilizar a informação como uma ferramenta. Daí o trator. Larga a enxada e usa o trator porque o teu objetivo é criar. Quer seja com a enxada, quer seja com o trator, crias.
A música como um lugar de espiritualidade
De que forma ter sido diagnosticado com cancro influenciou a sua abordagem à composição e à interpretação musical?
Foi uma grande lição. Tive cancro duas vezes. E o último foi terminal. Ninguém sabe nada, mas sinto que não vou morrer de cancro. Sinto que tive de passar por isso, ir ao fundo. Preparei-me para morrer. Fui ao zero. A morte do ego. A morte em vida. E está a fazer agora dez anos desde a primeira vez que tive cancro. O terminal faz quase cinco anos. O mesmo tipo. Sempre no mesmo sítio. Intestino, onde a gente acumula, acumula, acumula. Era um comboio descarrilado, que não explodia. Uma grande mágoa interna. Coisas não processadas. Comecei a aprender a processar. Abri-me à espiritualidade. Espiritualidade aqui entendida não como religião, mas como propósito. Comecei a trabalhar holisticamente. Holístico não é místico. Holístico é agarrar-se ao todo. Em três meses, a doença desapareceu. A música foi um reflexo de tudo isso.
Como foi o primeiro impacto de receber o diagnóstico de uma doença terminal?
Dá uma reviravolta dentro de nós. Imediatamente, a perspectiva muda. A primeira coisa que me veio à cabeça, obviamente, não fui eu. Não tenho medo da morte, tenho medo de morrer. É diferente. Porque o morrer… temos poder nisso. Como vivemos e alimentamos a vida define a forma como passamos e transcendemos. Pode ser fruto de um contínuo de décadas e décadas de mal tratamento, físico, psicológico… então é uma passagem dolorosíssima. Mas para quem aprende não. O meu avô, por exemplo. Seis meses antes estava a conduzir. Ele só se virou para mim e disse: “Estou cansado, quero ir com a avó”. Depois, teve uma embolia cerebral. Não tenho medo de diagnóstico. Tenho medo de prognóstico. “Estás doente, certo. Vais morrer daqui a seis meses?” Quem disse? Onde? Isso não aceito.
Quem recebeu a notícia?
Quando foi da segunda vez, a Li, a minha mulher, é que recebeu a chamada. A médica disse que não havia nada a fazer. Estava muito doente. Não ia à casa de banho há três meses. Ela ligou-me, eu tinha acabado de tocar com um colega: “Vem cá ter à Praia Formosa. Temos de conversar”. Eram dez da noite. Pensei…ela vai acabar comigo. Cheguei lá, ela estava nas escadas com o irmão, a chorar. Perguntei o que se passava, ela pôs a mão na minha e disse “Voltou.” Eu pedi-lhes para irmos todos jogar às cartas juntos. Depois, recomecei a quimioterapia. Depois, veio a artrite. E não conseguia levantar-me da cama. Ela levava-me três vezes por noite à casa de banho para eu vomitar. Não havia nada a fazer, passaram-me doze medicações, três com morfina, porque era inoperável. Estava cheio de tumores, grandes como laranjas, pelo intestino todo. Se operassem, tiravam-me o sistema digestivo, eu morria.
Como foi o processo de contar às outras pessoas?
Houve um dia em que eu e a Lidiane abraçámos um acordo: não contar a ninguém, nem à minha mãe nem ao meu pai, porque não queria que eles soubessem, senão ia ter de cuidar deles também. Aproveitámos o silêncio da pandemia para desaparecer um pouco, focando-me apenas no facto de que ainda estava a respirar e, enquanto isso, tinha coisas para organizar. Tratei do funeral, parte financeira, a casa, os seguros, e depois percebemos que, apesar de sermos casados no papel, nunca tínhamos feito uma cerimónia espiritual. Por isso, organizámos um casamento simples, em quatro dias, descalços e com os pés bem assentes na terra. Contei só aos meus irmãos e a alguns amigos próximos.
Pode descrever o percurso que o levou à remissão da doença?
Uma amiga falou-me da Ana Garcês e da importância da nutrição, da mudança de alimentação. Lembro-me de que a primeira consulta durou três horas e que as duas primeiras foram inteiramente dedicadas ao meu lado emocional. Falei das mágoas, dos traumas, de tudo o que nunca tinha conseguido processar, porque sou introvertido e sempre guardei tudo dentro de mim. Só na última hora é que falámos, de facto, de alimentação. Foi aí que ela me apresentou as técnicas de respiração do Wim Hof e me fez um pedido muito claro: que não abandonasse a quimioterapia, mas que parasse com a morfina, porque o meu corpo estava intoxicado e era urgente tratar o intestino. Foi também a primeira vez que alguém me falou de visualizações e do processo de manifestação.
Pediu-me que tentasse imaginar o meu intestino saudável, limpo, funcional. No início, parecia estranho, quase mórbido, estar constantemente a imaginar intestinos bonitos e saudáveis, mas comecei a fazê-lo todos os dias. Acordava, meditava, fazia respiração, entrava em banhos de gelo mesmo doente, vomitava e voltava ao gelo. O meu corpo estava em colapso, mas eu continuei. Ao mesmo tempo, a Li mudou completamente a alimentação; começou a mexer-se mais, a cuidar de si e passou a comer exatamente o mesmo que eu. Fazíamos as visualizações juntos, tentando acreditar, mesmo quando surgia a dor e a dúvida. Tive momentos em que não acreditava, em que pensava que era tudo uma treta, mas mantive a prática diária. E, pouco a pouco, comecei a notar melhorias reais, dia após dia. Houve um dia em que consegui ir à casa de banho, algo que não acontecia há três meses. Passado uns tempos voltei à médica e ela olhou para mim incrédula porque eu não tinha dores nenhumas. Nessa altura, já corria 12 quilómetros, já fazia crossfit, quando, teoricamente, ao fim de três meses, eu já nem devia estar vivo. Abandonei a medicação e nunca mais voltei a tomá-la. A médica abriu um caderno e perguntou-nos o que estávamos a fazer. A Li começou a explicar e ela foi escrevendo.
A partir daí, decidiu estudar nutrição. Foi quando percebi uma coisa fundamental: os médicos são peritos na doença, mas não são peritos na saúde. A saúde é uma responsabilidade nossa. Continuei com os exames, incluindo ressonâncias magnéticas que detesto, porque sou claustrofóbico e aquilo parece uma máquina de lavar roupa. Fiz cinco ressonâncias de duas horas e meia, sempre a ser deslocado de um lado para o outro. Até que, em janeiro, veio a confirmação: remissão total da doença. Tinha desaparecido. E foi aí que percebi que ninguém me pode dizer que algo é impossível, ou que eu não tenho direito a tentar, ou que algo não vai dar certo. Se alguém quiser dizer isso, então que se sente comigo e conversemos a sério.

