Mariana Van Zeller: “Mesmo nos sítios mais violentos e perigosos dos confins do mundo, encontramos pessoas melhores do que nós”

Há várias formas de noticiar o mundo. Neste caso, Mariana Van Zeller entra sempre pela porta dos fundos. A portuguesa que vive há mais de 20 anos nos Estados Unidos da América já se infiltrou em redes de tráfico de armas na América do Sul, explorou fraudes no sudoeste asiático e até já veio à Península Ibérica à procura da droga preferida da Europa. Em 2020, estreou-se no canal National Geographic com uma série de investigação sobre os mercados ilegais mais perigosos do mundo: "Na Rota do Tráfico com Mariana Van Zeller"

A vencedora de dois Gracie Awards (2021, 2024), nove Emmys (2024, 2025) e o Prémio Direitos Humanos (2025), atribuído pela Assembleia da República portuguesa pela série Rota do Tráfico com Mariana Van Zeller, produzida pela National Geographic começou por estudar Relações Internacionais, na Universidade Lusíada de Lisboa. Trabalhou como estagiária no Jornal da Noite, na SIC. E após a criação da SIC Notícias, foi convidada para realizar um programa de viagens. Habituada a ver o jornal da noite com a família, hoje percebe que existia mais mundo para além do que era mostrado nas televisões portuguesas. “Aquilo era o jornalismo que existia”, recorda.

O sonho, porém, estava do outro lado do oceano. Candidatou-se duas vezes ao mestrado na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e foi rejeitada em ambas. À terceira tentativa, Mariana Van Zeller foi diretamente à universidade para explicar ao reitor o sonho que queria concretizar. Dessa vez, conseguiu.

Enquanto frequentava o mestrado nos EUA, percebeu que estava errada e descobriu, como revela, “um mundo do jornalismo que nem sabia que existia, o long-form journalism”, que corresponde a investigação e documentários de longo formato, um género que ainda pouco conhecido em Portugal, mas popular nos Estados Unidos”.

No mesmo ano em que ingressou na Universidade de Columbia, Mariana Van Zeller vivenciou o ataque terrorista às torres gémeas. Tinha 24 anos quando foi contactada pela SIC para entrar em direto de Nova Iorque. Sentiu que aqueles diretos para a SIC não iam, como recorda, “conseguir ter muito impacto, que não era dessa forma que ia conseguir contar a história completa”. Ao sair à rua e começar a ver as consequências dos ataques, a repórter percebeu que género de jornalismo queria realmente fazer. “Queria ir além de relatar factos”, sublinha. 

Graças a um prémio que recebeu pelo documentário na universidade, foi-lhe oferecido um estágio numa empresa de produção de documentários em Londres.  Ficou oito meses na produtora Insight News Television. Era paga à comissão, sempre que uma das suas histórias fosse comprada por um canal de televisão. “Sabia que ali não ia ter muito futuro”, conta. Entretanto, com a guerra no Iraque a decorrer há algum tempo, a jornalista tinha a certeza de que, como refere, “o Médio Oriente ia ser o centro das notícias do mundo durante muito tempo”.

A decisão já estava tomada. A jornalista mudou-se para a Síria, onde começou a carreira como freelancer. “Comecei a estudar árabe na Universidade de Damasco. Até encontrar a minha primeira história”, declara.

A forma que arranjou para se sustentar foi eficaz. Mariana Van Zeller comprava tapetes a preço em conta e enviava caixas cheias para Portugal, onde a mãe recebia a mercadoria. “A minha mãe fazia uns chazinhos com as amigas em que vendia os tapetes ao dobro do preço e enviava-me o dinheiro e foi aí que sobrevivi durante vários meses na Síria”, lembra.

O método resultou. A jornalista encontrou a primeira história uns meses depois. “O tema da reportagem foi sobre os sírios a cruzarem a fronteira para o Iraque, para lutarem contra os americanos”, revela. A história acabou por ser vendida a um canal televisivo britânico, o Channel 4, e a partir desse momento, a carreira de Mariana Van Zeller não parou de crescer.  Aos 49 anos, a jornalista natural de Cascais sabe, no entanto, que o mais importante foi transformado: “Talvez tenha hoje mais conhecimento, mais humildade e mais esperança pelo mundo.”

O gesto simples que quebra barreiras

A mais premiada repórter de nacionalidade portuguesa reconhece que o seu trabalho é sempre acompanhado por uma forte carga emocional. “Acontece, sobretudo, quando estou a cobrir acontecimentos que envolvem mães que perderam filhos, uma realidade que me afeta profundamente por também ser mãe. Sei perfeitamente o elo que existe entre uma mãe e um filho”, admite.

Mariana van Zeller nunca deixou uma história por contar devido à sua carga emocional. “A grande perda é da parte deles, não da minha. Portanto, é minha responsabilidade como repórter manter alguma força para continuar o trabalho.” Essa responsabilidade estende-se também à forma como se prepara: “O meu percurso é sustentado por meses, anos, de cursos, incluindo formação em Hostile Environment Training e extensos planos de avaliação de risco. Temos uma empresa de segurança que nos faz uma pasta com dezenas de páginas de Risk Assessment. Se isto acontecer, qual é o hospital mais próximo? Se outra coisa acontecer, qual é a empresa de evacuação que vão contactar?”.

 Apesar de todas estas medidas, a jornalista admite: “Há sempre uma luta dentro da Disney e da National Geographic para poder viajar sem seguranças. Para mim, é contraprodutivo. Ao chegar com segurança, o que eu lhes digo é:  eu não tenho confiança em ti.” O jornalismo que pratica exige uma visão diferente daquela ensinada em contextos militares. “Os seguranças são treinados para ver o mundo como uma ameaça. Eu tenho que ver o mundo com empatia”. Mariana Van Zeller acredita que “tratar as pessoas com respeito e dignidade” é uma das principais razões pelas quais tem conseguido trabalhar com segurança, independentemente do lugar.

Apesar da brutalidade associada ao tráfico e ao crime organizado, para Mariana Van Zeller não é difícil encontrar humanidade. De acordo com a própria, “é não irmos com ideias preconcebidas do que é que as pessoas são”. E, até agora, a realidade no terreno não tem contrariado este pensamento. “O que mais me choca é conseguir criar conexões humanas bastante facilmente”, confessa, referindo que muitas dessas pessoas “são pais, são mães, são irmãos, que muitas vezes nos fazem lembrar as pessoas com quem nós crescemos, ou o nosso tio”. Para criar essas ligações, a jornalista freelancer aposta em gestos simples. “Pode ser partilhar um cigarro ou uma cerveja, falar sobre filhos ou trocar fotografias de família. Isso põe-nos todos no mesmo nível”, revela.

A jornalista vê para além da máscara do crime e reconhece que essas pessoas também têm “sonhos, medos e características tão humanas como outra pessoa qualquer”. Em contraste com os cenários com que se depara todos os dias Mariana mantém   uma visão otimista da humanidade e acrescenta que uma das maiores lições da sua carreira foi “Saber que mesmo nos confins do mundo, nos sítios mais violentos e perigosos, ainda conseguimos encontrar pessoas como nós e até, talvez, melhores do que nós.”

A repórter defende que ninguém deve ser julgado apenas pelos seus atos. Com o lemayour choices are only as good as the options you’re given(“As tuas escolhas são tão boas quanto as opções que te são oferecidas”), a jornalista considera que as alternativas disponíveis são extremamente limitadas. É uma realidade que vê constantemente no seu trabalho, desde as comunidades empobrecidas no Brasil, às mulas de droga até aos bairros da Europa de Leste.

Ao trabalhar diretamente com as redes transnacionais, Mariana Van Zeller acredita que o crime tem uma nova realidade, uma vez que a tecnologia alterou profundamente os mercados negros e o tráfico moderno. “São mais rápidos, modernos e difíceis de controlar. Hoje é possível produzir drogas num país e distribuí-las noutro em poucos dias, o que torna o trabalho das autoridades cada vez mais desafiante”, acrescenta.

Entre o sonho americano e o olhar europeu

Do outro lado do Atlântico, a jornalista portuguesa descobriu um ambiente de oportunidades sem paralelo, em que, como descreve, “independentemente da cor de pele, das condições em que se nasceu ou até do sotaque, o mérito individual, aliado ao trabalho árduo e à persistência, tende a ser recompensado”.

Este ambiente de oportunidades é – reconhece – “acompanhado por extremos culturais e sociais, como tendências para o radicalismo político e défices de empatia, realidade que contrasta com o contexto português”, que descreve como “mais moderado e ancorado num forte legado histórico, o que permite uma leitura mais cautelosa e informada do presente”.

Embora conte com uma projeção internacional consolidada, o reconhecimento do seu trabalho em Portugal revelou-se tardio. “Ninguém sabia quem eu era e ninguém sabia do trabalho que eu fazia”, admite Mariana Van Zeller. A atribuição da Medalha de Direitos Humanos pela Assembleia da República, em dezembro de 2025, assume particular relevância enquanto primeiro reconhecimento institucional no seu país de origem. “Dar a conhecer a Portugal e aos portugueses que existe essa possibilidade para todos traduz, para além da dimensão pessoal, a importância do reconhecimento do trabalho.”

A conciliação entre a vida profissional e familiar constitui outro aspeto central do percurso de Mariana Van Zeller. A jornalista realça o apoio fundamental da família. “Tenho a sorte de fazer o que eu adoro e não quer dizer que seja a pior mãe ou a pior mulher, membro de família por causa de ter o trabalho que eu faço”, afirma. Ser questionada sobre o tema é algo que a irrita profundamente, em particular quando é uma pergunta que recai exclusivamente sobre as jornalistas femininas.

Mariana van Zeller contesta a tendência de a sociedade atribuir certos papéis apenas às mulheres, como se tivessem de carregar alguma culpa quando são bem-sucedidas profissionalmente. A repórter recusa o duplo padrão de género ainda presente na profissão. “O meu marido é jornalista, viaja à volta do mundo e nunca lhe fizeram essa pergunta”. Em contrapartida, prefere destacar a relação próxima que mantém com o filho. “Sou a primeira pessoa a saber tudo da vida dele”, afirma, com orgulho.

Se tivesse de classificar o seu percurso, admite que tem sido positivo. O mesmo orgulho que admite por conseguir trabalhar “num mundo que geralmente está rodeado de homens”.

Entre os episódios mais exigentes da sua carreira, identifica a cobertura do tráfico de ouro no Níger como particularmente desafiante. “Foi a primeira vez que senti que era uma situação que estava completamente descontrolada. Fiquei presa e não tinha controlo nenhum sobre o que ia acontecer, nem forma de sair do país”, recorda.

Em contraste, a reportagem sobre o haxixe em Portugal revelou-se a mais divertida de realizar porque teve a oportunidade de filmar com algumas amigas, em Cascais. Durante este trabalho jornalístico, levou a equipa a conhecer a sua família e o seu país, descrevendo a experiência como “um momento de grande alegria e cumplicidade”.

A criação do podcast The Hidden Third, disponível em plataformas como o Spotify, resulta da necessidade de dar maior profundidade a histórias que, em formatos tradicionais, ficam limitadas. “Muitas entrevistas acabam reduzidas a 1, 2, 3 minutos. Assim, o podcast surge como um espaço que permite desenvolver diálogos mais extensos e intimistas”, afirma.

Mais do que prémios ou reconhecimento institucional, Mariana Van Zeller sublinha que o legado que ambiciona deixar é, acima de tudo, ético e humano. Em palavras da jornalista, “é um símbolo de empatia”, princípio que associa à educação recebida e à convicção de que as pessoas devem ser julgadas “não pela ligação que têm com mais poder, mas pelo tratamento que dão àqueles com menos direitos e menos poder”. Em tempos de apregoada crise, defende um jornalismo “com base na empatia como a chave para conseguirmos melhorar o mundo”.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *