Quem vive na Linha de Sintra e depende diariamente do comboio para se deslocar ao trabalho até Lisboa não tem uma manhã fácil e o regresso tão pouco é melhor. Nos horários de ponta, conseguir entrar nas carruagens é um verdadeiro desafio. Já durante o trajeto, os compartimentos apinhados de gente tornam a circulação difícil e, nas paragens, ainda se sente mais a sobrelotação de passageiros. Quando alguém precisa de sair, é comum que outras pessoas tenham de abandonar momentaneamente o comboio para abrir caminho. Verifica-se também um excesso de calor em muitas carruagens e desconforto geral. A limpeza mantém-se, no geral, aceitável, mas nas horas de maior movimento nota-se alguma acumulação de lixo.
Os números dizem tudo. Em 2020, Pedro Nunes Santos, então ministro das Infraestruturas e da Habitação, afirmava que o comboio da Linha de Sintra tinha capacidade para 1600 passageiros. Se tivesse dois mil, já estaria em sobrelotação, o que corresponde a 130% de ocupação, mas normalmente, segundo admitia o governante em declarações à Imprensa, os comboios circulavam a 160%. Desde essa altura, os números só têm vindo a agravar-se. De acordo com os dados mais recentes da CP-Comboios de Portugal, a Área 1, que inclui Sintra e zonas limítrofes, registou um recorde diário, num dia útil de 2025, de 258,4 mil utilizadores. Só na Linha de Sintra viajaram mais de 100 milhões de pessoas em 2025.
A Comissão de Utentes da Linha de Sintra (CLUS) recebe, através das redes sociais, diversos relatos e fotografias enviadas por utentes que, segundo a organização, expõem uma situação “inaceitável e que se tem agravado diariamente”. As imagens revelam “comboios tão sobrelotados que as portas não conseguem fechar, revelando condições de transporte indignas, insalubres e inseguras”. Noutra publicação, uma denúncia de um utente denuncia “infiltrações graves, baldes no chão e condições indignas para quem ali circula diariamente”, na estação do Rossio.
Entre os 274 mil passageiros que, em média, utilizam diariamente este transporte encontra-se Mariana Luz, estudante de Psicologia que depende dos comboios para chegar a Lisboa e depois apanhar o metro até à universidade. A jovem de 21 anos relata que “os atrasos são frequentes e têm uma espécie de efeito em cadeia”. Como justifica: “A perda de um comboio implica, muitas vezes, perder os transportes seguintes.” Nos períodos de maior afluência, descreve as condições como “particularmente difíceis, com os passageiros esmagados uns contra os outros”.
Mariana Luz refere ainda que, durante o verão, já presenciou situações em que pessoas se sentiram mal devido ao calor intenso, num ambiente com “falta de ventilação e ar rarefeito”. Nessas alturas, é comum abrirem-se as portas, até mesmo as que estão entre as carruagens, numa tentativa de melhorar a circulação de ar.

Longos tempos de espera
O comportamento dos passageiros tende a refletir as condições de elevada procura da linha, sobretudo nos períodos de maior afluência. Nestas alturas, observa-se um ritmo acelerado de entradas e saídas das carruagens, frequentemente marcado por alguma pressão junto às portas. Ainda assim, é possível identificar dinâmicas de adaptação entre os utilizadores, como a organização espontânea para facilitar a circulação ou a cedência de espaço sempre que necessário. Apesar de algum cansaço visível no rosto das pessoas, especialmente no final do dia, prevalece, de forma geral, um comportamento funcional e cooperativo, orientado para garantir o fluxo de passageiros num contexto de sobrelotação.
Para a jovem, “o momento mais difícil não é propriamente o trajeto, mas sim o tempo de espera”. Os comboios passam, em média, a cada 10 ou 15 minutos, embora se verifiquem atrasos com alguma frequência. Com utente afetada, Mariana Luz não tem dúvidas que “uma das principais medidas a adotar passaria pelo aumento da frequência dos comboios, sobretudo nas horas de ponta e durante a noite, mesmo que com menos frequência, de forma a garantir uma alternativa de transporte para quem depende deste serviço fora do horário diurno”.
Pedro Carelli, 21 anos, também depende dos comboios da Linha de Sintra para deslocações diárias. No entanto, por estar neste momento desempregado, a aflição para apanhar o comboio deixou de ser tão angustiante, uma vez que já não existem horários para cumprir. O jovem lamenta que “os atrasos e a falta de comboios em horário noturno tornem o dia a dia dos utentes bem difícil”. Como descreve, “nas horas de ponta, sobretudo nos comboios com destino ao Oriente, a quantidade de pessoas torna difícil que a viagem seja feita com conforto, seja sentado ou em pé”. Ainda assim, Pedro Carelli entende que “a linha cumpre a sua função, embora reconheça a necessidade de melhorias, especialmente para aumentar a qualidade de vida de quem depende deste serviço diariamente.



CP menciona esforço de modernização
Os dados do relatório de contas da CP referentes a 2024 ajudam a enquadrar estas dificuldades. Este relatório menciona um esforço de modernização por parte da CP, com destaque para a reabilitação e modernização do material, incluindo carruagens, bem como o reforço das ações de manutenção, com o objetivo de garantir maior disponibilidade do serviço. Paralelamente, o mesmo documento refere que “têm sido realizados investimentos ao nível da modernização de sistemas, assim como na melhoria de estações e infraestruturas associadas à operação ferroviária. A empresa também garante ter “vindo a apostar em medidas de sustentabilidade”, procurando reduzir o impacto ambiental da sua atividade e aumentar a eficiência energética, com o objetivo de reduzir o impacto ambiental da sua atividade”.
O documento aponta para “um crescimento moderado das receitas operacionais, despoletado pelo aumento do número de passageiros, especialmente nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto”. Por outro lado, os custos operacionais registaram uma subida, associada ao aumento dos preços da energia, à manutenção do material e à atualização salarial dos trabalhadores. Há também indicação de despesas relacionadas com a renovação de carruagens e investimentos em infraestruturas.
Apesar da descrição das melhorias e do esforço que o relatório por parte da CP-Comboios de Portugal para reforçar os comboios, a Comissão de Utentes da Linha de Sintra (CULS) tem uma opinião muito diferente, apelando a “respostas imediatas e estruturais da empresa responsável, incluindo o reforço da oferta, a modernização do material circulante e a melhoria da fiabilidade do serviço, sublinhando que “a mobilidade pública é um direito fundamental”.
No âmbito desta reportagem, foram realizadas diversas tentativas formais de contacto com a Comboios de Portugal (CP) para obter esclarecimentos sobre medidas em curso ou previstas para melhorar a experiência dos passageiros. No entanto, não nos foi fornecida qualquer resposta.