António Duarte foi dos primeiros praticantes de kickboxing em Portugal. Colocou pela primeira vez as luvas em 1975, numa altura em que os praticantes rareavam e o termo usado para a modalidade era full contact. Após anos de competição e de terminar o percurso como atleta, ingressou no curso de treinador. Começou a formar atletas e, mais tarde, assumiu as funções de árbitro, um dos primeiros da Federação Portuguesa de Kickboxing. Atualmente, aos 67 anos, treina os atletas do Real Clube de Massamá, posição que exerce desde 1993.
Para ganharem experiência e evoluírem, não só em classe, mas também em qualidade de combate, os atletas precisam de competir. No entanto, a dificuldade em obter financiamento tem comprometido a evolução da modalidade. “A falta de apoios afeta o desenvolvimento dos atletas, porque uma modalidade como esta vive à base da competição”, refere o treinador. Nos campeonatos europeus e mundiais, a federação apoia alguns desportistas que são chamados à seleção. Mas o dinheiro não é suficiente para todos e a maioria dos atletas é obrigada a pagar as despesas do próprio bolso. António Duarte explica que “para entrar num campeonato da Europa, os atletas têm de pagar inscrição, deslocação, estadia, alimentação, entre outros gastos”. O valor nunca fica abaixo dos 2 mil euros. Muitos não conseguem pagar valores tão elevados “Temos bons atletas em Portugal, que até já têm vários títulos, e quando vamos a campeonatos no estrangeiro, em vez de levarmos 20 atletas, podíamos levar 40 ou 50, se tivéssemos apoios para isso”, revela.
Atletas condicionados pelos custos
César Martinho, estudante de 20 anos e cinto vermelho, iniciou-se neste tipo de desportos com a modalidade de Mixed Martial Arts (MMA). Pouco tempo depois, trocou a MMA pelo kickboxing, desporto que já pratica há quatro anos. Atualmente, é campeão nacional de kickboxing e de muay thai. Há dois anos, foi campeão do mundo desta modalidade, em Espanha. Quer competir até aos 35 anos, mas admite que “o kickboxing é para a vida”.

Por agora, César Martinho tenta entrar no máximo de competições possíveis para evoluir como atleta e na modalidade. Mas participar em campeonatos mundiais e europeus, como menciona António Duarte, é sempre dispendioso. As galas, eventos organizados por promotores, onde ocorrem vários combates, acabam por ser a via mais comum e fácil para o constante desenvolvimento dos atletas e a continuidade do seu percurso. “Nos campeonatos, e quando vamos para mundiais e europeus, somos nós que pagamos. Mas quando vamos a galas, geralmente, é o promotor que cobre as despesas”, adianta. Em 2024, César Martinho acabou por não participar no outro campeonato do mundo, em Viena, na Áustria. E em 2025, o infortúnio repetiu-se quando não conseguiu financiar a ida ao campeonato europeu, em Malta.
O problema é transversal a muitos atletas nacionais. Em 2022, uma notícia da agência Lusa dava conta que dezenas de atletas portugueses recorreram a crowdfunding para tentarem financiar a participação no campeonato mundial de kickboxing, na Turquia. Nuno Margaça, presidente da federação, revelou, em declarações à Imprensa, que “apesar de existirem vários participantes que têm qualidade para representar Portugal, não é possível à federação pagar as despesas de todos”.
César Martinho ambiciona continuar a evoluir e chegar a profissional, mas sabe que é difícil fazer do kickboxing profissão. Não só porque as competições são dispendiosas, mas também porque, para atingir outro nível, é importante realizar seminários com outros mestres, muitas vezes, de outros países. “Se quiser ir treinar à Tailândia ou à Holanda, tenho de ser eu a pagar porque, neste momento, não tenho patrocinadores. Mas quem sabe, no futuro, pode ser que os meus patrocinadores me ajudem a pagar”, afirma.
Luana Dias, estudante de 17 anos e cinto laranja, começou a praticar kickboxing há dois anos e meio. Iniciou-se em competições pouco tempo depois e, em 2025, foi campeã regional e nacional de kickboxing e campeã nacional de Muay Thai. Este ano, já foi campeã regional de kickboxing e vai participar no nacional, em julho, que se realizará no Pavilhão Multiusos de Odivelas.

Até agora, Luana Dias não se sentiu diretamente afetada pela falta de financiamento nas competições. No entanto, os custos dos equipamentos continuam a ser um problema. “Um equipamento de boa qualidade, que dure um bom tempo, é caro. Os mais baratos são sempre à volta dos 30 ou 40 euros. Muitas vezes, estou a precisar de equipamento novo e não dá para ter sempre as coisas de melhor qualidade. Então, tenho de continuar com o mesmo. De resto, consigo. A minha realidade permite-me. Mas, muitas vezes, há competições em que gostaríamos de participar e coisas que gostaríamos de fazer que acabam por não ser possíveis por conta do dinheiro”, lamenta. Se a verba que os atletas disponibilizam para o kickboxing é gasta maioritariamente em competições, fica difícil investir em material. E nem todos os atletas têm possibilidades financeiras para investir de forma constante, independentemente da finalidade.

Gerir treinos e trabalho
A maioria dos atletas de competição treina kickboxing seis vezes por semana, fazendo treinos adicionais de resistência, como correr, quase diariamente. Entre treinos, competições e vida pessoal, acaba por ser necessário tomar opções. E os atletas que trabalham enfrentam ainda mais dificuldades, por terem de conciliar horários mais rígidos que os de um estudante e por terem mais responsabilidades.
Sandro Jesus iniciou-se no kickboxing com nove anos, na Associação Moreira Team, equipa em que permanece até aos dias de hoje. “Comecei a competir e a levar este desporto mais a sério em 2015”, confessa o atleta, que, em março de 2026, venceu um combate na gala Star Kombat, a primeira competição em que participou, após uma pausa de cerca de um ano devido a não conseguir conciliar os treinos com o trabalho.

Atualmente, aos 21 anos, Sandro Jesus é cinto vermelho e trabalha como abastecedor de máquinas de venda automática, emprego que lhe permite continuar a treinar para as competições, já que trabalha durante a madrugada e os treinos são à noite. No entanto, admite que “o cansaço é visível, tanto no trabalho como na performance nos treinos”, o que, inevitavelmente, afeta também em parte a competição.
O jovem atleta admite que a falta de financiamento na modalidade o prejudica em vários aspetos, “começando pelos equipamentos de qualidade para que as lesões sejam menos frequentes”, e incluindo a alimentação e a suplementação. “Isso tudo são pontos que um atleta tira do próprio bolso para continuar a fazer o que gosta”.
O Diário LX tentou, por diversas vezes, contactar a Federação Portuguesa de Kickboxing para obter mais informações sobre estes casos e como a falta de financiamento afeta a modalidade, mas não obteve resposta em tempo útil.