No meio de partituras abertas sobre as estantes de alumínio, instrumentos espalhados pelas salas e rascunhos confusos, a disciplina manifesta-se nas horas de estudo solitário, a paciência nas revisões intermináveis, e a criatividade nas ideias que surgem repentinamente, testadas e ajustadas até que cada harmonia ou ritmo se transforme numa peça musical clara e audível para quem a escuta.
Para a maioria, o trabalho de composição não segue horários fixos. Não se trata de “picar o ponto”, como acontece com a generalidade dos empregos. Cada momento do trabalho criativo depende das ideias que vão surgindo, muitas vezes, em situações do dia a dia: no caminho da universidade para casa, a preparar o jantar, a correr para apanhar o autocarro ou até mesmo a dormir.
Mesmo nestas tarefas mais corriqueiras, a inspiração pode aparecer. E é nesses momentos que o trabalho do compositor ganha importância: escrevem palavras soltas nos cadernos apressadamente ou registam notas no telemóvel de tudo o que observam, captando ideias que, dizem eles, podem vir a ter muito potencial.
A rotina destes jovens é formada de tentativa e erro. Há dias que tudo parece fluir perfeitamente, com naturalidade e com força de vontade de fazer melhor. As relações entre as ideias surgem com facilidade, trazendo a sensação de que vale a pena o esforço.
Porém, nem sempre é assim. Há momentos em que as cadências precisam de ser reescritas ou o próprio raciocínio musical exige reformulação, seja na disposição das notas ou na clareza da partitura. Cada detalhe é, minuciosamente, analisado. E é justamente a partir desse processo diário, feito de desafios, que se revelam as trajetórias destes três jovens, cada um com a sua abordagem e visão musical.

O dia a dia em som
Entre estes jovens compositores, destaca-se Mariana Flores, estudante da licenciatura em Música, na Escola Superior de Música de Lisboa, onde se especializa em Oboé. O seu processo criativo é influenciado pelo quotidiano. Por exemplo, se na viagem até Ourém, de onde é natural, se depara com algo que lhe desperta curiosidade, anota no caderno pequenas referências que podem constituir material interessante para compor. Mas nem só de observação nasce a composição: pequenos gestos, sons, cheiros podem servir de inspiração para produzir uma obra. São estes aspetos do dia a dia que orientam o desenvolvimento das suas composições.
Mariana Flores divide o trabalho de composição em três etapas: criação, orquestração e edição. Na fase de criação, a jovem tenta perceber o que cada instrumento significa para si. “No meu processo de composição, começo sempre por responder à pergunta: o que é aquele instrumento representa para mim?” Esta reflexão, diz, ajuda-a a conhecer profundamente cada instrumento e como “fala” dentro da peça, garantindo que cada escolha seja intencional e contribua para a coesão da obra.
Durante este processo, Mariana constrói o que designa por “catálogo sonoro” que é o resultado da experimentação. A partir desse material, escolhe aquilo que mais lhe interessa para a composição da obra. De seguida, há a fase de orquestração, em que o experimenta diferentes formas de utilizar os sons para os instrumentos para os quais compõe, testando como cada um pode sublinhar certas ideias musicais e intensificar a expressividade da obra. Para Mariana Flores, a orquestração é o “pensamento vertical da música, ou seja, é a forma como todos os instrumentos se complementam ao mesmo tempo, criando camadas de som que dão corpo, profundidade e equilíbrio à peça”.


Finalmente, no momento de edição, ideias que pareciam interessantes na criação podem ser cortadas ou reorganizadas para melhorar a fluidez da peça. É nesta fase que a obra se transforma verdadeiramente. Aqui, normalmente, Mariana Flores percorre cada página com atenção, ajustando os pormenores até que a obra ganhe sentido.
Apesar de sistematizar o trabalho do compositor em etapas bem definidas, a jovem criadora assume que o ato de compor acaba sempre por fugir a uma estrutura fixa e severa. Por isso, não acredita “em rituais ou estados de composição” para começar a trabalhar. O impulso e a vontade de criar são o ponto de partida de Martina Flores. Depois, a naturalidade com que encara o processo é o que leva a música a revelar-se de forma mais orgânica, sem horários determinados ou locais especiais.
Mariana faz questão de realçar que, apesar de gostar do trabalho de composição, “é raro um compositor conseguir viver exclusivamente das suas obras. A maior parte dos músicos depende de várias fontes de rendimento: concertos, aulas ou encomendas”.
Por muito que a disciplina e o rigor sejam importantes, Mariana Flores procura sair da zona de conforto. Valoriza a diversidade dos estilos musicais e tenta sempre desafiar-se no momento de escrever cada obra. Com apenas 19 anos, é autora de cinco peças, entre as quais destaca Tempus Fugit, a que mais trabalho lhe exigiu, e Jungle Den, a que lhe trouxe maior alegria na escrita. Mariana assume não escrever para a agradar os ouvintes. Tenta, sobretudo, que o som que cria não seja indiferente a quem se cruza com as suas peças, sejam ouvintes ou intérpretes.

Compor sem planos
Se para Mariana Flores a composição é algo constante e rotineira, para Simão Casaleiro, é, sobretudo, um hobbie, algo que acontece de forma espontânea e sem pressões. O jovem de 25 anos pega no violino para compor “quando lhe apetece”, deixando que as notas apareçam, sem ordem. Não há pressa, nem a obrigação de criar algo definitivo, pois, na visão do jovem músico, “a composição é uma exploração de tons e ritmos, em que a criatividade flui livremente”. Ele toca, escuta, volta atrás, acrescenta pequenas coisas aqui e ali e grava no computador. As peças resultam do “bichinho” da curiosidade, de momentos de tédio ou do simples desejo de experimentar, e é exatamente dessa espontaneidade que nascem as suas peças.
Formado em Engenharia Biológica, Simão Casaleiro passa os dias no laboratório, onde faz análises quantitativas de amostras, análise de enzimas, preparação de testes. Ali, tudo é calculado e avaliado ao milímetro. Os sons que o rodeiam contrastam, fortemente, com o som que sai do violino. O que ouve é, essencialmente, o barulho das soluções químicas a borbulhar ou a frustração de um colega, quando não acerta num componente de uma nova mistura química.
Como qualquer pessoa, Simão Casaleiro levanta-se diariamente para ir trabalhar no laboratório e admite que adora aquilo que faz. No ensino secundário, na altura de escolher o que queria seguir, confessa que não hesitou: “Sou uma pessoa muito ligada à arte, mas também aprecio a lógica. A engenharia traz-me esse equilíbrio.”

O gosto pela música surgiu cedo, no Conservatório. Foi lá que teve as primeiras noções de composição, graças a aulas de Análise e Técnicas de composição. Enquanto estudava no Conservatório, teve a oportunidade de compor algumas peças, mas sem grande significado.
A primeira obra que compôs chamava-se Fragmentum, que tocou na prova final de violino. “A estrutura é muito básica. Se fosse hoje, teria feito muita coisa diferente”, diz com um sorriso envergonhado. Simão Casaleiro admite que a inexperiência o levou a cometer alguns erros, mas que evoluiu a partir daí. Embora aquelas experiências tenham sido pontuais e de carácter experimental, despertarem-lhe o prazer de criar música. Para este jovem músico, compor nunca se tratou de produzir obras perfeitas, mas sim de poder expressar algumas emoções que, de outra forma, não conseguia. Descreve o ato de compor “como uma terapia, em que o violino funciona como um psicólogo que ouve os desabafos do seu paciente. Depois de cada sessão, os pensamentos ficam mais organizados e, todos os sentimentos negativos, desaparecem ou, até parecem nunca ter existido”.
Ao longo do seu percurso, também chegou à conclusão de que detesta rótulos: “A música é algo extremamente livre. O que eu toco situa-se mais no campo da música contemporânea, mas cada pessoa deve perceber o que realmente gosta e lhe traz felicidade. Passo o cliché, é tudo um pouco subjetivo.”
O que o entusiasma, mais do que um género específico, “é a possibilidade de explorar estilos muito diferentes”. Simão fala disto com um brilho especial, típico de alguém que encontra uma imensa satisfação naquilo que faz. No seu entender, “a música não se organiza em gavetas”. Cada peça que escreve pode aproximar-se do clássico, do período romântico ou do jazz. Não existe um guião escrito, pronto a seguir, e não há nada mais satisfatório para ele do que essa imprevisibilidade.
Em 2024, compôs Forbidden Gaze, uma obra que reflete o seu espírito criativo e a relação espontânea com a música. O título evoca um “olhar proibido”, simbolizando a liberdade de criar sem limites bem como as restrições que surgem ao longo da vida. A abordagem de Simão Casaleiro é esta: quanto mais liberdade no ato da composição, melhor.
A disciplina faz a música
Enquanto Simão Casaleiro vê a composição como algo a ser explorado sem compromisso, Miguel Tiago Moura investe todos os dias na sua formação como compositor. Neste momento, encontra-se no mestrado em Ensino de Música, na Escola Superior de Música de Lisboa, e é professor de Análise e Técnicas de composição do ensino secundário para alunos de Música. Para ele, ser compositor não é algo para os tempos livres, mas sim um trabalho como qualquer outro, que exige disciplina e foco.
Para Miguel Tiago Moura, todos os momentos são ideais para compor. “Componho à noite ou de manhã, quase todos os dias. Ao fim de semana, sempre.” Não se trata de inspiração súbita. Aliás, segundo ele, “é difícil saber de onde vem a inspiração”. Escreve, inclusive, nos dias mais aborrecidos, em que nada parece acontecer.
A escolha do tema, muitas vezes, surge de fontes extramusicais: um livro, uma história, uma imagem. Depois de definido o ponto de partida, constrói mentalmente o plano da peça: o que vai escrever, para quem e o que pretende transmitir com a composição.
Na altura de escrever, o silêncio é requisito obrigatório e o processo raramente começa no instrumento, neste caso, o piano. As primeiras ideias são escritas à mão. O piano é usado apenas como um auxiliar para experimentar alternativas ou, simplesmente, para avaliar o que soa melhor para um determinado andamento.
Miguel faz questão de realçar que o mais importante acaba por ser a disciplina. Por ser “incerta” a origem da inspiração, ser consistente no cumprimento da rotina é essencial para que haja progresso no trabalho. Dessa forma, a prática constante constitui uma das partes mais importantes do processo de composição. Escrever diariamente é algo que tenta fazer. “Se eu não escrever durante algum tempo, isso nota-se”, sublinha.

Apesar de encarar a composição como profissão, Miguel Tiago Moura não vive fechado numa torre de marfim, isolado do mundo. Lê muito, faz caminhadas, joga xadrez. “Há tempo para outras coisas”, garante. Sabe, no entanto, que a dedicação tem de ser intensa e reconhece que os momentos de pouca motivação são inevitáveis. Houve alturas em que escreveu menos, por não se sentir ainda tão ligado à música. Acabou por ultrapassar esta fase menos produtiva quando começou a escutar mais música e prestar atenção aos pormenores.
Ao mencionar a situação atual dos músicos, Miguel Tiago Moura prevê que haja cada vez mais jovens compositores “bons e diferentes” e acredita que irá melhorar daqui a uns anos. Quando questionados sobre o que é necessário para ser um bom compositor, todos deram a mesma resposta: “Ouvir música. Muita música! Quanto mais ouvimos, mais ideias temos… ou então não”, disse um deles, em tom de brincadeira.
