Hotéis onde a alma não é pequena

Nem só nas bibliotecas, livrarias ou nos planos curriculares da disciplina de Português se consegue ter acesso à obra dos mais consagrados escritores lusos, como Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queirós, Saramago e tantos outros autores. Existem formas inovadoras de dar a conhecer a literatura nacional. Pelo menos, é esta a proposta de alguns hotéis: mais do que um lugar para pernoitar e ficar, serem também uma porta aberta para divulgarem e preservarem a memória literária

Num setor económico tão competitivo e marcado pela diversidade de públicos, práticas e referências como é a hotelaria, há cada vez mais espaços a apostar em conceitos distintivos e que possam proporcionar experiências únicas aos clientes. Neste cenário, a cultura surge como uma dimensão transversal, capaz de influenciar não só o funcionamento interno dos espaços, mas também a forma como são sentidos e interpretados pelos hóspedes. Essa dimensão sensorial não está apenas na decoração, no edifício ou na localização de um espaço. Encontra-se na forma como um hotel comunica e constrói significado para quem o visita.

A unidade hoteleira de eleição para conhecer um dos autores mais icónicos e singulares da cultura portuguesa fica situada, precisamente, no coração de Lisboa: o Lisboa Pessoa Hotel. O ambiente deste espaço do Chiado foi totalmente inspirado na vida e obra do poeta que está traduzido em quase 40 línguas. Em cada um dos cinco andares do edifício, os hóspedes imergem num mundo que combina a literatura e a história do autor em ligação com a cidade que habitou. A idealizar o itinerário deste lugar desde 2017 está Fabrizio Boscaglia, investigador na área de Estudos Portugueses e autor livros e de uma tese de doutoramento sobre o poeta. “Fernando Pessoa diferencia-se dos outros autores por causa da questão dos heterónimos, desta fragmentação de si próprio. E ele faz isto de uma forma tão radical que, de facto, é um caso basicamente único e revolucionário na história da literatura”, sublinha.

A entrada principal faz-se pelo piso 2, onde apenas existe a portaria e um pequeno hall com sofás e quadros. Apesar da principal decoração do hotel ser virada para a literatura e, mais especificamente, para Fernando Pessoa, com quadros, bonecos, desenhos, fotografias e muitos dos objetos de lembranças à venda a fazer alusão ao poeta, tudo se conjuga com os tons dourados e mais brilhantes das paredes, espelhos e espaços do hotel.

Fragmentação num só espaço

Para além da alusão aos sentidos visuais, o Lisboa Pessoa Hotel junta toda a fragmentação que Fernando Pessoa constrói nas suas obras num só espaço. Ao se entrar no piso zero, são apresentadas três salas diferentes destinadas a três dos heterónimos do poeta – Bernardo Soares, Álvaro de Campos e Ricardo Reis -, o que faz com que os hóspedes e as pessoas que por lá passam mergulhem na sua escrita fragmentada. Também nas restantes instalações, o hotel procura manter vivo o espírito pessoano. “Temos exposições de obras de arte e de documentos ligados à pessoa e trabalhamos em tudo aquilo que é também a tematização dos espaços, portanto, os quartos, os corredores, as vitrines”, conta o consultor literário.

As cartas de trunfo do Lisboa Pessoa Hotel são a biblioteca, que se localiza no piso 0, e o restaurante ‘Mensagem’ no quinto e último piso. A biblioteca pode ser transformada em sala para reuniões, tertúlias e outras apresentações e contém uma cópia do livro ‘A Mensagem’. Já o restaurante oferece uma vista panorâmica para cidade de Lisboa e costuma apresentar três exposições rotativas: uma sobre a  revista Orpheu, sobre o nascimento de Pessoa e outra sobre o legado do poeta.

O ambiente onde se mergulha mais profundamente na história de Fernando Pessoa e, consequentemente, na história de Lisboa é nas atividades realizadas ao longo dos dias, que são pensadas por Fabrizio Boscaglia, nomeadamente o passeio literário que acontece uma vez por semana. Quem quiser juntar-se a essa caminhada fica a conhecer os locais mais emblemáticos da cidade e que, de alguma forma, foram importantes na vida do poeta, mas que, hoje em dia, continuam a marcar a história de Portugal.

O itinerário vai desde a casa onde nasceu Fernando Pessoa até aos cafés onde permanecia grande parte dos seus dias, passando pela estátua de Fernando Pessoa no Chiado em frente à ‘A Brasileira’ e pela Igreja de Santo António, que deu o segundo nome ao escritor. Juntando-se ao passeio literário, o hotel oferece ainda exposições de obras de arte e de documentos ligados ao poeta, mas também conferências e tertúlias sobre outros tipos de arte.

Para Fabrizio Boscaglia, a integração da literatura no Lisboa Pessoa Hotel foi “um trilhar de caminhos novo; um começo de um novo capítulo na carreira que tinha enquanto intelectual literário”. Para o consultor literário e turístico, “construir um hotel com bagagem literária nunca pode consistir apenas em fazer só uma operação de marketing, ou apenas fazer t-shirts, ou apenas meter fotografias nas paredes”, acrescentando que aquilo que “diferencia o hotel dos outros é que não aborda a literatura de uma forma superficial, profana, decorativa, mas aborda-a por dentro, de forma informada, profissional”.

Fabrizio Boscaglia ressalta ainda a importância da literatura para a indústria hoteleira: “A literatura é património artístico, exatamente como a arquitetura, a escultura, a pintura e, portanto, é só uma questão de se encontrar e se aplicar a maneira certa para fazer-se a mediação cultural.”

É precisamente nesse ponto que a literatura ganha relevância. Através dos autores, das obras e das personagens que convoca, a literatura aproxima a cultura da história e dá corpo a narrativas que podem ser vividas no presente. Como refere Fabrizio Boscaglia: “Não basta metermos uns livros e umas fotografias de um escritor, temos de fazer mais, ser criativos.” A literatura inserida num hotel é uma forma de oferecer ao hóspede uma relação mais imersiva com o lugar que visita. Quando se associa à hotelaria, a literatura não produz apenas atmosfera; pode também produzir valor.

Como mencionou Phillip Blackwell, fundador da Ultimaty Library, em Londres, ao site Booking.com, a disposição dos objetos literários pode influenciar a forma como um hóspede perceciona o espaço, se lembra dele e até o recomenda. Phillip Blackwell deu o exemplo de um hóspede que prolonga a estadia para acabar de ler um livro encontrado no hotel, ou que regressa a casa e partilha essa descoberta nas redes sociais. Quando a literatura marca a experiência, o hotel torna-se mais lembrado, comentado e distintivo. O CEO do Ultimaty Library afirmou ainda que “há um retorno sobre o investimento e que investir numa boa coleção de livros pode ter um impacto maior na perceção da marca do que qualquer outro investimento”.

De pioneiro a legado

Um dos principais objetivos dos hotéis literários consiste em ser espaço de trocas de experiências, bem como um local que cative os hóspedes e os leve numa “viagem histórica” através da cultura literária de um país ou cidade. No livro Hotéis Literários de Portugal, as autores Sílvia Quinteiro (coordenadora), Ana Cláudia Salgueiro da Silva, Isabel Dâmaso Santos, Maria Mota Almeida, Maria José Aurindo e Natália Constâncio, do grupo de investigação em Literatura e Turismo, do Centro de Investigação em Artes e Comunicação da Universidade do Algarve, esclarecem que apesar de um hotel não costumar ser um alojamento de longa duração, nem que deixe uma grande marca sem ser a nível de qualidade de serviços, os hotéis literários fogem à regra: “Verificam-se, todavia, exceções, situações em que as experiências vividas proporcionadas pelo hotel, a memória da presença de uma hóspede ilustre deixam memórias únicas e indeléveis.”

Ao falar da experiência que teve ao criar a marca literária no Lisboa Pessoa Hotel apenas dois anos depois de ter aberto as portas ao público pela primeira vez, Fabrizio Boscaglia refere que o projeto do Lisboa Pessoa Hotel foi algo pensado de raiz por si e pela equipa de marketing para preencher um vazio existente na capital. “Em Portugal, penso que o Lisboa Pessoa Hotel é dos pioneiros – e não digo que não existissem hotéis literários antes, mas não se falava muito neles e não havia assim grande interesse em falar-se deles.”

Um destino para sentir

Em Portugal, poucos hotéis mostram de forma tão nítida como a literatura pode sair dos livros e instalar-se num lugar como o Lawrence’s Hotel, em Sintra. Fundado em 1764 e apresentado como a unidade hoteleira mais antiga da Península Ibérica, o hotel tornou-se um caso singular não por ter adotado, já no presente, uma estética literária, mas porque essa dimensão faz parte da sua própria história. Ao longo dos séculos, por ali passaram nomes como Lord Byron, William Beckford e Eça de Queirós. Felizmente, essa passagem não ficou reduzida a nota de rodapé. Da convivência entre espaço, cultura e literatura nasceu uma identidade rara, capaz de transformar o Lawrence’s num dos exemplos mais pioneiros de hotel literário em Portugal.

O artigo publicado no semanário Expresso, aquando dos 260 anos do Lawrence’s, recupera a lenda segundo a qual Lord Byron terá escrito, com um anel de diamante no vidro de uma das janelas, as primeiras frases de Childe Harold’ Pilgrimage. E recorda igualmente que Eça de Queirós escolheu o hotel para passar temporadas em Sintra, deixando ainda em Os Maias uma referência ao “bacalhau que aqui comeu”. Episódios concretos que ajudam a compreender por que razão o hotel continua a ser lido, visitado e vivido como um lugar onde a literatura deixou rasto.

A pegada literária prolonga-se hoje numa experiência cuidadosamente construída. O hotel oferece passeios temáticos dedicados a Eça de Queirós, promove momentos ligados aos livros e à conversa literária e leva essa herança até à mesa com o menu queirosiano, transformando referências literárias em experiência gastronómica. Mas essa identidade também se constrói materialmente. Segundo o gerente Glauco Mansur, em declarações ao Expresso, a própria renovação do hotel foi pensada na lógica de “modernizar sem perder a essência”, preservando o romantismo, a tradição inglesa e o legado cultural do edifício.

Amanda Souza, rececionista de primeira do hotel, explica que “os atuais proprietários têm procurado recuperar a identidade histórica do espaço, preservando o chão de pedra original de 1764, adquirindo mobiliário em leilões e valorizando peças com peso simbólico, como a escrivaninha presente na suíte de Eça de Queirós. Mais do que uma opção decorativa, trata-se de manter coerência entre a memória literária do Lawrence’s e a experiência oferecida ao visitante. É isso que Amanda Souza traduz quando descreve o hotel como “voltar no tempo” e “viver uma experiência imersiva, com uma ambiência clássica e um serviço de excelência”.

Há turistas que, segundo Amanda Souza, mesmo não estando hospedados no hotel, “têm incluído no seu roteiro parar no Lawrence para fazer uma refeição e experimentar o menu queirosiano”, num sinal claro de que esta herança cultural não é apenas simbólica, mas também atrativa. Ao definir o Lawrence’s quase como “um museu ainda ativo” e ao dizer que “não é apenas um lugar para pernoitar; é um destino em si mesmo”, a funcionária desta unidade hoteleira resume aquilo que a distingue no contexto português: “a capacidade de transformar memória literária em experiência concreta e desejável, mantendo-se, ainda hoje, como um precursor entre os hotéis que atraem visitantes, precisamente, pela história que guardam e pela atmosfera que conseguem fazer viver.”