Heróis com Capa: Livros que ajudam causas

Há cerca de três anos que o projeto instalado no mercado de Carnaxide transforma livros em super-heróis. Graças ao trabalho de cinco amigas, há causas que ganham mais sentido

A influência podia ter vindo do pai, que sempre gostou muito de ler, mas foi nas livrarias solidárias que já frequentava há algum tempo, como a Dejá Lu e a Livraria Solidária de Carnide, que Sofia Gonçalves encontrou a inspiração necessária para começar a escrever a história do projeto que se tornaria na Heróis com Capa. Na altura, trabalhava no hospital Beatriz Ângelo, mas considerava que, segundo conta, “ainda se justificava abrir, na zona de Lisboa, uma livraria que pudesse, de alguma forma, transformar os livros em ajuda”. Este desejo levou Sofia Gonçalves a partilhar a ideia com a administração do hospital e a disponibilizar as suas horas de almoço em prol de um projeto solidário cuja receita reverteria para a pediatria do local onde trabalhava.

O desfecho da narrativa da Heróis com Capa poderia ter sido este, não fosse a pandemia. Sofia Gonçalves acabou por sair do hospital, levando consigo uma imensa vontade de continuar a escrever esta história – e uma quantidade avultada de livros que, entretanto, já lhe tinham sido doados para esse propósito. Sem saber bem que destino lhes dar, convocou as amigas mais próximas. Marta Amorim, Alexandra Infante, Ana Caseiro e Georgina Rodrigues conhecem-se desde que as filhas, hoje na faixa etária dos 20 anos, andavam na creche.

As cinco mulheres partilham um grande amor pelos livros e pelo voluntariado. Tanto assim é que, quando Sofia Gonçalves lhes apresentou o projeto, a disponibilidade foi imediata. Ofereceram-lhe as tardes de sábado e sugeriram que procurassem um espaço onde, à semelhança das livrarias solidárias que já tinham visitado, pudessem promover a leitura e juntar-se a uma causa. Escolheram apoiar a Make-a-Wish, para quem Sofia Gonçalves já tinha feito voluntariado, e estabeleceram-se numa pequena loja, no Centro Comercial de Miraflores, sob o nome Book-a-Wish.

Transformar livros em desejos

À semelhança de Sofia Gonçalves, Marta Amorim também já tinha trabalhado com a Make-a-Wish, antes de esta ser a associação escolhida para o início deste novo capítulo. Foi por admiração à amiga que escolheu juntar-se ao projeto. “Lembro-me perfeitamente do dia e do momento em que ela me abordou pela primeira vez. Quando me falou sobre a possibilidade de me convidar para participar, pensei que era uma coisa que se encaixava na minha vida. Disse logo que sim, sem saber o que é que aí vinha.”

Antes de trabalhar na Book-a-Wish, já tinha feito voluntariado em associações como o Banco Alimentar Contra a Fome e a Refood, mas a Book-a-Wish foi um desafio maior, permitindo-lhe fazer a diferença ao lado das amigas e distinguir esta proposta de outras livrarias solidárias já existentes. Colaborar com a Make-a-Wish era uma escolha ideal. “Tinha a força e a confiança que procurávamos. Portanto, foi um processo quase natural.” Iniciou-se assim uma colaboração que duraria cerca de dois anos, durante os quais a Book-a-Wish ofereceria desejos no Centro Comercial de Miraflores e depois em Linda-a-Velha.

O que parecia um projeto simples, que não ocuparia muito tempo às cinco amigas, tornou-se rapidamente, como descreve Marta Amorim, “numa coisa mais séria”. “Tivemos de começar a ter voluntários, a melhorar a nossa de forma de receber os livros, de os colocar na base de dados e de lhes atribuir os valores.” Todo este processo, já para não falar das tardes em loja, tornou a Book-a-Wish num projeto muito maior do que aquele que Sofia Gonçalves tinha pensado inicialmente.

A “tomada de consciência” fez com que as cinco amigas chegassem à conclusão de que estava na altura de conferir outra dimensão à ideia. “Chegámos a entregar cerca de sete desejos à Make-a-Wish e pensámos que, em vez de apoiarmos apenas uma instituição, podíamos estender isto a outras organizações e causas, como apoiar causas animais, causas relacionadas com pessoas mais idosas, instituições mais pequenas e mais próximas de nós. Enfim, inúmeros projetos”, partilha Marta Amorim.

O sentido de missão cumprida e o desejo de cooperar cada vez mais traduziu-se – descreve Marta Amorim – num virar de página. “A mudança foi uma luta, a criação do nome foi uma luta, mas tínhamos de começar a escrever uma nova história. Deixámos de ser as ‘crianças’ que faziam a Book-a-Wish e passámos a ser as ‘adolescentes’ que encaram isto como um projeto mais sério, mais estruturado.”

A mudança aconteceu oficialmente em outubro de 2023. “Somos as mesmas pessoas, temos os mesmos princípios e a mesma missão.” O novo nome da associação veio precisamente desta vontade de apoiar novas causas através dos livros. “Um herói, para nós, é um livro porque, quando sai aqui da livraria, não pretende apenas dar uma nova leitura a quem o comprou. Vai também ajudar uma causa”, refere.

As voluntárias Fernanda Silva e Ana Araújo ao lado das “madrinhas” do projeto Alexandra Infante e Ana Caseiro

Apoiar causas e projetos

Marta Amorim explica que “quando a Heróis com Capa contacta uma associação não o faz apenas para lhe entregar um donativo e contribuir para a parte financeira dessa mesma associação”. As ‘madrinhas’ deste projeto, como se auto identificam os membros da direção, composta por Sofia Gonçalves e pelas amigas, reúnem-se mensalmente. Nesses encontros, questionam-se sobre quais os projetos que, naquele momento, precisam de mais apoio. “Privilegiamos associações com menos visibilidade, geograficamente mais próximas e apoiamos projetos com ênfases diferentes todos os meses. Aquilo que procuramos é a diversidade”, esclarece Marta Amorim. E justifica a opção: “As grandes associações já têm muitos apoios. Contribuir para causas a um nível mais local é também uma maneira de apoiarmos a freguesia que nos recebeu.”

Para além destes critérios de seleção, a Heróis com Capa almeja que a aplicação do donativo seja o mais direta possível e, por vezes, assume outras formas além da transferência bancária. Quando apoiou a associação Coração Amarelo, em novembro de 2023, o contributo da Heróis com Capa materializou-se através da organização do “amigo secreto”, num convívio que é organizado mensalmente pela Coração Amarelo para combater a solidão e o isolamento em que vivem os mais idosos.

O valor angariado no mês ajudou a comprar 13 kits de orientação e mobilidade para pessoas com deficiências visuais. 

De vez em quando, são as próprias organizações que estabelecem contacto com a Heróis com Capa. Aconteceu em abril de 2024, quando membros da ACAPO (Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal) visitaram a livraria solidária. O valor angariado no mês ajudou a comprar 13 kits de orientação e mobilidade para pessoas com deficiências visuais. “Isto só mostra o quanto somos importantes para estas associações”, comenta Marta Amorim. “A própria causa trouxe-nos as pessoas.”

Situação semelhante tinha acontecido no mês anterior, quando a Heróis com Capa escolheu ajudar, pela primeira vez, uma causa animal. “As pessoas vieram aqui à livraria precisamente para apoiar essa causa. Não é acessório, é relevante”, acrescenta Sofia Gonçalves. Da mesma forma que considera importante a transparência de todo o processo. Os comprovativos das aplicações dos donativos são publicados em diversos suportes partilhados, quer por fotografia, como vídeo e redes sociais da livraria solidária. “Partilhamos sempre o feedback com quem nos apoia”, garante Alexandra Infante.

Além da venda de livros

A loja número 10 do Mercado de Carnaxide é a morada da livraria solidária Heróis com Capa há cerca de um ano. É o terceiro local por onde passa o projeto idealizado por Sofia Gonçalves, depois de o público o ter conhecido como Book-a-Wish, em Miraflores e em Linda-a-Velha. Sofia Gonçalves afirma que “não podia desejar melhor”, mas admite que o espaço físico da loja é um obstáculo ao desenvolvimento do projeto. “É muito frustrante pensar que temos livros suficientes para preencher o dobro ou triplo deste espaço”, lamenta.

Para além dos cinco membros da direção, a equipa da Heróis com Capa conta com cerca de 15 voluntários. O desejo de ajudar a Heróis com Capa, mas a impossibilidade de fazer voluntariado ao sábado fez com que Sara Esteves criasse um clube de leitores que se reúne quatro vezes por ano – uma vez em cada estação. “Foi a forma que encontrei de conseguir ajudar este projeto”, partilha a voluntária. Para além de trazer mais visibilidade à missão da Heróis com Capa, o projeto ‘Mais que Palavras’ tem também uma componente solidária, uma vez que o valor gasto na inscrição em cada encontro converte-se num vale para gastar na livraria, o qual será posteriormente entregue a uma causa solidária. Escritores e representantes das associações também costumam participar nos encontros, o que, na opinião de Sara Esteves, os torna mais “especiais”: “Os momentos das causas são sempre muito marcantes. Tivemos aqui uma intervenção da presidente da Associação Culpa que fez com que toda a gente ficasse com lágrimas nos olhos.”

O projeto “Mais que Palavras” tem também uma componente solidária, uma vez que o valor gasto na inscrição em cada encontro se converte num vale para gastar na livraria, o qual será posteriormente entregue a uma causa solidária.

Os encontros sazonais do clube de Sara Esteves não são, no entanto, os únicos eventos realizados na Heróis com Capa. A própria livraria solidária promove algumas iniciativas que estão relacionadas com o universo da literatura. É o caso das “Conversas com Heróis” e o “Silent Book Club” (clube do livro silencioso), que trazem ao Mercado de Carnaxide, autores para conversar sobre um determinado tema e oferecem, também, a rara oportunidade de aproveitar um livro em completo silêncio.“Já aqui tivemos a escritora Joana Kabuki a recomendar livros para as férias de verão”, aponta Marta Amorim. Há cerca de um ano, a conversa decorreu no âmbito dos 50 anos da Revolução dos Cravos e procurou sensibilizar os convidados para a frágil realidade da liberdade de escrita. Acerca do “Silent Book Club”, Marta Amorim comenta que “o intuito é a dedicação à leitura. Com são sempre pessoas novas, tão diferentes umas das outras e cada uma traz o seu livro, acabamos sempre por ter aqui alguns minutos de conversa e partilha”.

Não é apenas o público em geral e os autores convidados que passam por esta livraria. Em janeiro de 2024, Inês Herédia publicou um vídeo nas suas redes sociais, onde partilhou uma história que fez com que o seu caminho e o de Sofia Gonçalves se cruzassem.  A atriz andava à procura do livro O Rei, o Sábio e o Bobo, de Shafique Keshavjee há cerca de 15 anos. Procurou-o várias vezes, em diferentes lugares, mas nunca o encontrou. Falou sobre o assunto no podcast “Vale a Pena”, de Mariana Alvim e, pouco tempo depois, recebeu uma mensagem da Heróis com Capa, que tinha acabado de receber o livro que Inês há tanto tempo procurava. “Fiquei maluca com esta loja”, comentou a atriz no vídeo. “Saí daqui com não sei quantos livros e estou feliz da vida.”

Sofia Gonçalves era quem estava, por acaso, a ouvir o podcast e contactou a atriz. “Ela veio à loja muito contente, porque andava à procura do livro há séculos. Foi bom termos conseguido ajudá-la. Tivemos também um crescimento gigante em termos de número de seguidores. Nunca tínhamos previsto nada como isto. Foi muito bom para a Heróis com Capa.”

O prazer de ajudar

Visitar o mercado de Carnaxide aos sábados à tarde já se tornou num hábito para muitos os que passam por este lugar. “Temos pais que trazem as crianças e elas ficam aqui uma tarde inteira só a ver capas, porque ainda não sabem ler. Temos também pessoas que já se tornaram nossas amigas porque vêm todos os fins de semana. Vêm um bocadinho para a conversa, para espreitar as novidades”, revela Alexandra Infante.

Ajudar as pessoas através da literatura – e fazê-lo ao lado das amigas – é, precisamente, a parte mais gratificante de trabalhar na Heróis com Capa para Marta Amorim: “Fora do funcionamento normal da livraria, tenho o enorme prazer de ter este projeto juntamente com quatro amigas, porque acabamos por dar continuidade à nossa amizade, que nasceu quando as nossas filhas se conheceram na escola, e cuja ligação e proximidade ainda se mantêm.” Poder ajudar o máximo de entidades possíveis tem sido o mais compensador neste cantinho onde as capas dos livros têm o poder dos super-heróis. “Neste processo, estamos a ajudar uma entidade sem fazer esforço e com prazer; alguém que gostava de ler e que nos entregou um livro, e um outro alguém que gosta de ler leva esse mesmo livro e acaba por pagar um valor que é deixado a uma associação.”

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