Futuros cineastas: A incerteza como guião

Num setor marcado pelo reconhecimento artístico, mas também pela fragilidade estrutural, em Portugal, os jovens realizadores enfrentam um futuro tão promissor quanto incerto. Entre quem já entrou na área e quem ainda seja estudante de Cinema, desenham-se dúvidas e certezas sobre o caminho a seguir

A história de Amelie Borges, 19 anos, não é comum e ela própria reconhece a singularidade do seu percurso. Nascida em Caxias do Sul, no Brasil, e atual estudante da Escola Superior de Teatro e Cinema, cresceu com os pais a trabalhar no mundo do cinema e do teatro. Desde muito nova percebeu que o seu caminho passaria pela representação: “Sempre estive em contacto com artes performativas e acabou por ser um caminho quase instintivo.” Ainda assim, foi no cinema que encontrou maior identificação, sobretudo pela forma como se consegue “contar histórias através dos equipamentos de imagem e som” e pela “rapidez com que as mensagens chegam aos outros, algo que é extremamente forte e poderoso”.

O primeiro contacto mais prático com o cinema surgiu através de um grupo de amigos dos pais, no Brasil, que faziam uma curta por ano, sempre com um género diferente. Depois desta proximidade ao meio, só mais tarde voltou a ter uma experiência mais direta, já com outra maturidade. Apesar do ambiente em que cresceu, Amelie afirma: “Não sinto que tenha seguido exatamente o percurso de alguém, simplesmente inspirei-me.”

Tentou evitar trabalhar na publicidade, mas hoje não descarta a possibilidade de seguir esse caminho: “Talvez tenha de ser, sobretudo pela necessidade de estabilidade financeira, já que uma pessoa não vive de boa vontade.”

Amelie Borges mudou-se para Lisboa quando tinha apenas dez anos, em 2017. Quando chegou a hora de escolher o curso a seguir no ensino secundário, escolheu estudar Cinema, na Escola Artística António Arroio. Foi nesta instituição de ensino que desenvolveu o primeiro grande projeto cinematográfico: a Prova de Aptidão Artística. Essa curta-metragem marcou bastante o início do seu trabalho no mundo do cinema e chegou a entrar em três festivais, no Reino Unido, em Lisboa e em Elvas. Hoje, recorda esse trabalho como um misto de “amor e ódio”, “feito em condições de stress e pressão extrema” Ainda assim, guarda algum carinho pela obra de estreia. “Especialmente pela experiência de ver o meu nome associado ao filme e de saber que outras pessoas o veem”, justifica.

Falta de caminhos

A transição para o mercado de trabalho é uma das maiores incertezas. “Num país onde não se faz mais do que um filme grande por ano, as oportunidades acabam por ser poucas e a ideia de entrar no mundo do cinema parece muito distante para quem está a começar”, afirma Amelie Borges. Esta perceção é acompanhada por dados recentes. Um estudo da associação MUTIM (Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento) em parceria com a Universidade Católica Portuguesa revela desigualdades de género no setor do cinema e do audiovisual em Portugal. Segundo as primeiras conclusões divulgadas, a maioria das pessoas inquiridas são mulheres, o que evidencia também um desfasamento estrutural no acesso e nas condições de trabalho da área.

A falta de caminhos definidos leva a que muitos estudantes acabem por considerar alternativas, como a publicidade, ou dependam de contactos para conseguir trabalho. Há quem passe anos a tentar entrar, a enviar currículos, à espera de uma resposta. Amelie relata esse processo como “longo e frustrante até surgir uma primeira oportunidade, mesmo que seja começar a carregar caixas”.

Outro problema inevitável é a falta de orçamento: “Não se fazem filmes sem dinheiro. E é preciso bastante”, diz, de forma direta. Durante o curso, essa realidade torna-se evidente, mas nem sempre há preparação para lidar com o assunto. Os estudantes acabam por enfrentar decisões difíceis: como pagar ou não a atores e garantir comida ou condições mínimas de trabalho. Muitas vezes, são eles próprios a suportar os custos, o que faz com que alguns projetos fiquem aquém do que poderiam ser. É, como refere, “um problema pouco falado, em particular durante o secundário”.

“Sinto-me motivada pelas pessoas que conheço e que, como eu, querem realmente fazer cinema e marcar a diferença.”

Amelie Borges

Apesar de tudo, baixar os braços não é uma opção. “Se desistirmos não se fazem filmes já que para se trabalhar nesta área é preciso persistência e confiança nas nossas ideias”, assume. Até mesmo com todas as dificuldades, há muitos momentos que alimentam a esperança: “O contacto com realizadores convidados, histórias de quem conseguiu entrar na indústria, ou simplesmente o facto de estar rodeada por pessoas com o mesmo objetivo.”

Chegou a ponderar estudar fora, ainda na altura da Escola António Arroio, por receio de ficar presa ao mesmo método de ensino. Mas acabou por ficar e escolher a Escola Superior de Teatro e Cinema, “o mais importante seria o contacto com pessoas diferentes e a prática constante”, afirma.   Quando pensa no panorama geral, identifica três grandes obstáculos: “falta de incentivo, escassas possibilidades de formação e pouco financiamento”. Ainda assim, acredita na sua geração. “Sinto-me motivada pelas pessoas que conheço e que, como eu, querem realmente fazer cinema e marcar a diferença.”

A voz da experiência

William Vitória, 35 anos, já acumula provas no currículo. Nasceu em Toronto, mas a partir dos sete anos veio morar para Portugal, onde ficou até completar o ensino secundário. Durante a infância, William gostava de escrever guiões e de obrigar os irmãos a participar nos filmes que gravava com uma câmara de vídeo. Em 2014, depois de já ter regressado ao Canadá há três anos, começou a estudar cinema na Toronto Film School, não com o objetivo de se tornar realizador profissional a tempo inteiro, mas sim para poder levar a cabo algumas ideias que já tinha em mente.

Depois do tempo que passou a viver em Portugal, voltar para o Canadá despertou nele uma saudade pela vida simples do oeste rural. “Quando estamos por dentro de uma situação não a conseguimos ver tão bem como quando estamos por fora. Foi o que me levou a realizar o meu primeiro projeto individual: Mar”, partilha. Filmada em Peniche, mas preparada e editada no Canadá, a curta-metragem transmite a ideia daquilo que é a vida no campo e à beira-mar, que, segundo o cineasta, “teve sucesso no estrangeiro por retratar um estilo de vida diferente do habitual”. O segundo projeto realizado chama-se Purga por Detrás de Portas, com uma temática de assuntos secretos que, sem serem vistos, fazem parte de vidas normais. William Vitória admite que “este trabalho foi muito complexo por englobar demasiadas histórias numa só”.

Um dos objetivos que já tinha quando começou a estudar era o de dar visibilidade à causa LGBT, que, na altura, era um assunto pouco abordado. Assim nasceu Edmundo, uma curta-metragem com base em experiências reais sobre a vida de um jovem que saiu da sua terra para estudar. Sem sucesso, volta às suas origens e é descoberta a sua paixão por Rafael. O protagonista é então obrigado a fazer face aos valores tradicionais de um ambiente ainda conservador. Neste projeto, William Vitória focou-se mais no “amor entre Edmundo e Rafael do que numa história complexa e com vários plot twists”. Ainda assim, confessa que “desta vez, o mais complicado foi o processo de produção”. 

“Mesmo que não se trabalhe a tempo inteiro na área, é importante manter-se ocupado com aquilo que se ama, contar histórias da nossa vida, da nossa terra e das nossas dificuldades. A arte é um medicamento natural sem efeitos colaterais.”

William Vitória

Paralelamente aos projetos individuais que realizou, como confessa, “para criar um portfólio”, William Vitória manteve sempre um trabalho à parte, maioritariamente a realizar videoclipes para colegas que trabalham no mundo da música. Atualmente, estão escritos os guiões para os projetos Crua e A Caverna das Almas. O primeiro é uma curta-metragem que descreve as dificuldades que uma mulher enfrenta no mundo do trabalho na cidade.  O realizador luso-canadiano candidatou-se a um apoio do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) para poder seguir com a gravação dessa obra, mas ainda aguarda a resposta do instituto. O segundo é uma longa-metragem que dá continuação à sua primeira obra, Mar.

William Vitória afirma ser uma pessoa muito ansiosa, o que o leva a não se dedicar à realização a tempo inteiro, “já que nem sempre é fácil manter um emprego estável dessa forma”. No futuro, o cineasta espera poder finalizar os projetos que tem pendentes e trabalhar como diretor de fotografia em colaboração com outros produtores. Também espera poder continuar a realizar videoclipes e documentários.

“Deem sempre o vosso melhor e trabalhem com o máximo de pessoas que conseguirem, porque assim já ficam com conexões úteis para o futuro”, aconselha William Vitória aos estudantes de Cinema. O cineasta recomenda também que sejam mais ambiciosos do que ele e que se “atirem de cabeça” para o mundo do cinema: “Mesmo que não se trabalhe a tempo inteiro na área, é importante manter-se ocupado com aquilo que se ama, contar histórias da nossa vida, da nossa terra e das nossas dificuldades. A arte é um medicamento natural sem efeitos colaterais.”

William Vitória indica ainda que em Portugal há bastantes oportunidades no trabalho promocional e que devemos confiar no nosso potencial. “Ir para o estrangeiro é uma forma de ganhar visibilidade e reputação, já que aquilo que é habitual para nós pode ser inovador ou espontâneo aos olhos de quem vê de fora. Ainda assim, se soubermos contar as nossas histórias de formas interessantes, podemos ser reconhecidos em qualquer lado.”

Em Portugal, a formação em Cinema surge como ponto de partida essencial, mas que o cineasta considera “insuficiente por si só para garantir uma entrada fácil e segura no mercado de trabalho”. Tanto Amelie Borges como William Vitória reconhecem o valor da formação, sobretudo – sublinham – “pela sua prática e contacto com outras pessoas da área”. No entanto, também apontam lacunas. “Existe pouca preparação para o lado financeiro e profissional do setor”, refere Amelie Borges.

As perspetivas divergem quando William Vitória incentiva a procurar emprego na área da publicidade. Amelie Borges, ainda a estudar, vê o ensino como um palco de descobertas, mas também de incertezas quanto ao futuro. Já William Vitória, com mais experiência, encara o seu percurso “como uma base que deve ser complementada com iniciativa própria, ambição e coragem”.

Entre estas duas vozes, percebe-se que estudar cinema é apenas o primeiro passo num longo caminho por seguir. Foi o que fez o autor de Mar, que acredita que “o verdadeiro desafio está em transformar esse conhecimento em oportunidades num setor instável, mas cheio de criatividade”.