Lojas de Lisboa: Liquidação total

António tinha nove anos, quando começou a trabalhar numa leitaria do bairro da Bica. Estávamos no ano de 1934. Tinha acabado de chegar a Lisboa, com os pais, oriundos da distante Quinta do Brejo, no Fundão. Não podia imaginar qual seria o seu papel na vida comercial, social, política até, da cidade que agora o acolhia.

Em Agosto de 2023, a Livraria Barata abandonou o que lhe restava de identidade, passando a integrar a rede de lojas da FNAC.

Aos 14 anos, começou a vender livros, em régie de porta a porta. A aventura começara em 1957, no mesmo nº 11 A de uma das principais artérias comerciais da capital portuguesa, a cosmopolita e bem-apessoada Avenida de Roma. O seu criador era o já referido António Domingues Melfe Barata. Por debaixo do balcão, fez a sua parte, no combate à ditadura salazarista, assegurando a venda clandestina de títulos proibidos ou oficialmente inexistentes – foi um dos locais onde “desaguaram”, em 1972, exemplares do grito editorial escrito, e publicado, em França, por Mário Soares, Le Portugal Baillonné. A ousadia rendeu-lhe prisão e consequentes… incómodos, chamemos-lhes assim.

Já em Democracia, o azedume dos dias venceu a perseverança perante a vida. Com a morte do filho a atormentar-lhe o espírito, escolheria o mesmo caminho, o suicídio. A porta manteve-se aberta, com o seu nome no letreiro, primeiro sob os comandos da viúva (Zélia), da nora (Graça Didier), depois da filha, Elsa, na companhia do marido, José Rodrigues. A marca chegou a ter diversas lojas, pela cidade.

Cerca de um mês antes, Julho de 2023, as Escadinhas do Duque, antigo poiso de alfarrabistas e consequentes bibliófilos, viam encerrar definitivamente as portas da última casa desta especialidade que ainda resistia naqueles degraus, O Az do Livro, loja com uma boa selecção de Banda Desenhada franco-belga e um fundo aparentemente inesgotável do Magazine de Fantástico e Ficção Científica ou do Guia do Pandego (assim mesmo, sem circunflexo).

Em outros tempos, ao longo daquelas escadinhas, eram vários os vendedores de livros usados, até em vãos de escada – muitos policiais, ficção científica e variações pulp – alguns deles pedidos de empréstimo pelo escritor Luiz Pacheco, que os devolvia impróprios para comércio: revistos, emendados, com notas à margem.

Ainda no mesmo ano, a cidade despediu-se de mais uma livraria histórica, uma casa aberta há quase dois séculos (desde 1840), a segunda livraria mais antiga do país (a mais antiga – do mundo, até – fica igualmente em Lisboa, a Bertrand do Chiado, de portas abertas desde 1732). Com o desencadear das guerras napoleónicas, o belga Jean-Baptiste veio para Portugal. Teve onze filhos, entre eles Maria Theresa, que casaria com Pedro Langlet, dono da Librairie Belge-Française, na Rua Nova do Almada, que daria lugar à Livraria Férin.

E permanecendo pela Baixa e Chiado, encaramos agora uma porta fechada quando chegamos à Casa Chineza, na Rua do Ouro, fundada em 1866, como atesta a inscrição na calçada, mesmo perante os fantasmas de quem ali procurava louças da Índia, China ou Japão, no século passado, ou tartes de maçã, broas de mel e folares (muito apreciado, o de Chaves), em tempos mais contemporâneos.

Apenas vinte anos mais tarde, 1886, portanto, incapaz de imaginar que teria uma saída de Metropolitano (de quê?) mesmo ao pé da porta, pela mão de uma sociedade de investidores, surgia uma barbearia que estava destinada a ter nas suas mãos os rostos de Almada Negreiros, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e Artur Agostinho. O grupo inicial desfez-se em 1910, o negócio ficou nas mãos de José Augusto Campos e prosseguiu na família durante três gerações, tornando-se a mais antiga barbearia lisboeta em funcionamento. Até ao final de Dezembro de 2023.

E o ano seguinte começou com o mesmo fado: Rosa Amélia Piegudo e Amélia Vieira, mãe e filha, despedindo-se do espaço que durante trinta anos foi um importante passaporte para a música emblemática de Lisboa, esvaziando a Discoteca Amália dos cartazes, discos de vinil, cassetes e CD que a compunham.

Estes são apenas os capítulos mais recentes de uma história, um destes dias sem lojas com História. Já muito se escreveu e muito se lamentou, falta agir, caso contrário…

A minha ligação à Baixa de Lisboa é antiga e profunda. Vesti-me na Rosicler e na Lanalgo (cuja vida do gerente o meu pai, nadador profissional, salvou, relato que fazia parte de cada visita à loja, à exaustão, especialmente para um puto com menos de dez anos); no Eduardo Martins e na Famarlix (que, para a minha mãe, foi até ao fim dos seus dias “o sr. Hélder”). Maravilhei-me com as montras dos brinquedos do Bazar do Povo, do Mundos dos Brinquedos e das Natalícias e luxuosas vitrines dos Armazéns do Grandella. Lanchei gelados na Suíça (a verdadeira, não a anedota que agora habita na Praça da Figueira) e comprei muitas botas na Lisbonense.

Na adolescência, continuou o relacionamento, agora com novos apelos. Comprei muitos discos na Melodia, na Rua do Carmo; na Caravela (cá em baixo, num primeiro andar da Praça D. Pedro) e na Valentim de Carvalho, na Rua Nova do Almada. Na Discoteca do Carmo, ia quase só namorar as capas. Um disco importado custava quase dois contos, o que é muito mais do que os 10 euros que qualquer conversor sem alma vos definirá. Bebi cervejas na Camponeza (fundada em 1907, hoje uma marisqueira), partilhando o espaço com os azulejos Arte Nova  e os artesãos e artistas de rua que povoavam a sala. Assisti a muito boa música nas artérias principais daquele bairro comercial, percorridas por performances teatrais dos Felizes da Fé (por onde militava Rui Zink), Miguel Yeco (que assumia, de forma quase obsessiva, a figura e a postura de Fernando Pessoa), Helena Laureano (manipulando as marionetas de cantor de rua) ou um grupo de “engabardinados”, liderado por Tiago Gomes, onde ouvi pela primeira vez “Tarantella, dos fabulosos Lounge Lizards.

Há umas semanas, fui à Baixa, como tantas e tantas vezes vou. Entre algumas outras tarefas, o objectivo era trazer um bolo de mel, da Madeira, uma garrafinha de Jägermeister e meio quilinho de figos da Mercearia e Charcutaria Manuel Tavares, fundada em 1860, uma das poucas lojas que cabem na diminuta Rua da Betesga. Cruzo Lisboa para comprar os figos ali. Bom, e o licor de ervas também justifica visita, confesso…

No perfil memorialístico que a sua livraria, em parceria com a Editorial Presença (da qual foi fundador e gerente, em 1960), lhe dedicou, o tal António Barata que chegou a Lisboa com tenra idade e se tornou num dos símbolos da cidade, da sua vida comercial e cultural, da sua história, deixa-nos algumas reflexões que ajudam a entender a sua personalidade. Gosto especialmente de uma: “O fim do negócio é sempre o lucro, mas neste ramo, é um pouco diferente, a paixão já é uma quota parte desse lucro”. E prossigo o passeio, nesta Baixa lisboeta, cada vez mais desapaixonada.