Pessoas por todo o lado. Vários estilos, nacionalidades, etnias, culturas. Todas por uma causa: a música. Há 25 anos que, no mês de julho, algo de único acontece no Castelo de Sines e outros itinerários demarcados no programa. O que se vive não é apenas um alinhamento de concertos. É uma espécie de deslocação coletiva para fora do quotidiano, onde a música deixa de ser apenas som e passa a ser, sobretudo, encontro.
Folk. Jazz. Música alternativa. Ouve-se a multiplicidade sonora do mundo, por todos os palcos. Mas mais do que aquilo que escutamos, importa aquilo que se vive. “Música como espírito de aventura”, lê-se por todo o lado. É o slogan que melhor descreve o festival.

Como referiu Kirstie Jamieson, investigadora ligada à área dos estudos culturais e urbanos, citada no artigo “Música para todos os gostos: Festivais urbanos e cosmopolitismo cultural como estratégias de controlo social em Portugal”, a própria palavra festival “evoca imagens de multidões empurrando-se, bares, bebidas e cacofonias de conversas multilíngues, provocando uma rutura no quotidiano e uma festa para os sentidos”.
Quando pensamos em festival, é precisamente essa a imagem que nos surge de imediato: um oceano de pessoas, música constante, línguas diferentes a cruzarem-se, copos na mão, conversas sobrepostas, risos, movimento. Em Sines, essa descrição ganha expressão direta no espaço urbano, onde o festival altera o ritmo da cidade e cria um ambiente de intensa convivência coletiva, marcado pela mistura de línguas, sons e culturas em torno da música.
Ao longo das suas 25 edições (1999–2025), passaram por Sines cerca de 1,68 milhões de pessoas, assistiram-se a 822 concertos e cruzaram-se mais de 4200 músicos de mais de cem países e regiões. Números que impressionam, mas que representam apenas uma parte da história. Não há duas vivências iguais, apenas um espaço comum onde todas acontecem.
De 20 a 25 de julho, quem gosta de libertar o espírito e as almas ao ritmo das múltiplas geografias poderá rumar para Sines e assistir aos concertos da 26ªedição do festival. No primeiro dia, os espetáculos abrem às 16h00, com as sonoridades de “nuestros hermanos” Paqui Ríos, de Andaluzia. Segue-se, às 18h00, Vitu Valera, de Argentina e Espanha. E às 21h30, Tablao de Tango, da Argentina. No dia 22, as sonoridades são francófonas, com ritmos dos senegalenses Mariaa Siga; One Rusty Band, de França, e de Portugal para o mundo, Ressoa, mas o programa do Músicas do Mundo já está disponível online.




TODOS: um mapa do mundo em Lisboa
Mais acima, na capital, mudam-se as sonoridades, mas o propósito mantém-se. Se em Sines o mundo converge para um ponto, em Lisboa, o ambiente de festa espalha-se. O Festival TODOS não vive num recinto fechado. Habita na cidade. Nas ruas. Nos bairros. Criado em 2009 com o objetivo de promover o convívio entre culturas na cidade e combater a fragmentação urbana, o Festival TODOS encerra o ambiente de verão e acontece no final de setembro, mas as datas exatas ainda não são conhecidas.
Promovido pela Academia de Produtores Culturais e pela Câmara Municipal de Lisboa, o festival tem vindo a afirmar-se como um projeto de intervenção cultural no espaço urbano, atuando diretamente em diferentes bairros da capital. Não se trata de um evento centrado num único lugar. É uma iniciativa itinerante que se desloca pela malha urbana, leva a programação artística a territórios diversos e, com isso, promove encontros que dificilmente aconteceriam fora deste contexto.
No TODOS, existe um elemento diferente de qualquer outro: uma orquestra, fundada em 2011. Num primeiro olhar, é uma orquestra como tantas outras. Instrumentos de sopro, cordas, percussão. Mas basta um olhar mais atento para perceber que há ali algo diferente. “Há pessoas de todas as nacionalidades. Um saxofonista brasileiro, um bangladeshiano na flauta transversal, um ucraniano no violoncelo”, conta Carlos Garcia, maestro no projeto desde 2019. Mais do que uma orquestra, é um mapa do mundo.
Carlos Garcia começou a sua relação com a música muito cedo, de uma maneira descontraída, quase sem perceber que ali nascia um percurso. “O meu pai chegou a ter uma banda e eu ia ouvindo os ensaios”, conta. Sem um caminho traçado, começou por ingressar numa banda filarmónica. Depois veio o clarinete e, mais tarde, o piano, instrumento que acabou por assumir de forma mais autónoma, quase como descoberta pessoal.
Entre tentativas, erros e uma vontade constante de aprender, a música foi-se tornando prática, levando-o a aprofundar os seus estudos na área. Frequentou a licenciatura em Formação Musical na Escola Superior de Música de Lisboa, consolidando o percurso académico e técnico. Neste cruzamento de experiências, entre formação, prática e contacto com diferentes projetos musicais, acabou por surgir o convite para assumir a direção da Orquestra TODOS, papel que marcou uma nova etapa no percurso enquanto maestro.

O feedback era positivo. O público falava por si: as emoções subiam à flor da pele. A orquestra sempre se assumiu como um espaço de encontro. Cada ensaio, cada concerto, transformava-se numa coesão entre culturas, estilos e tradições. E o resultado refletia-se no público: “As pessoas ficavam muito comovidas por ver como um encontro de culturas aparentemente tão diferentes, pode ser tão feliz.” O facto de haver total liberdade e um grande à-vontade entre os músicos permite que haja “input de qualquer um dos músicos”, afirma o maestro.
Mais do que um especialista num único género, Carlos Garcia assume-se como um explorador das diferentes linguagens: “Não posso dizer que sou um especialista em nenhum propriamente, mas gosto de estar um bocado ‘a par’ de todas, digamos.” Esta perspetiva estende-se para além da forma como vê o papel da música na sociedade. Para o maestro, projetos como este vão além do artístico; criam-se ligações reais entre pessoas: “Quando as pessoas se veem envolvidas na construção sentem que fazem parte das coisas.” Num mundo onde as diferenças tendem a criar barreiras, Carlos Garcia utiliza uma prática musical que aproxima e transforma. Porque, como sugere, “é da fusão de diversidades que surge o novo, o diferente”.
A orquestra reúne músicos de várias nacionalidades a residir em Lisboa. “Um dos critérios foi ter o maior número de nacionalidades possíveis”, explica. A partir dessa premissa, foi-se construindo um grupo improvável, mas funcional, onde a diversidade é a própria estrutura do projeto. É nesse contexto que a experiência assume um carácter difícil de traduzir em palavras. “É algo que não se explica. O que se vive ali é muito mais do que música”, afirma.
A prática musical torna-se um espaço de aprendizagem mútua. “Quando tocamos com músicos que têm outra linguagem completamente diferente, vamos absorvendo coisas… a nossa bagagem vai ficando mais rica”, acrescenta Carlos Garcia. Neste momento, por questões financeiras, a orquestra encontra-se num impasse a aguardar apoio para poder continuar. Além deste projeto tão distinto, em cada edição, a organização abre calls para apresentação de propostas artísticas. Até 11 de maio deste ano, a organização recebeu 633 ideias e projetos, o que revela o entusiasmo que o festival desperta na sociedade civil.
A ritualização dos festivais
Para além da dimensão inclusiva dos festivais, há também uma dimensão ritual. Uma ida a um festival não é unicamente musical: ocorre uma deslocação, uma partilha de um conjunto de práticas. Se em Sines o mundo se concentra num espaço temporário e em Lisboa se dissolve pela cidade, em Paredes de Coura, que este ano acontece entre 12 e 15 de agosto, é o tempo que se repete. Durante quatro dias, milhares de pessoas vivem juntas, partilham rotinas, constroem relações, sobretudo, pela experiência do campismo que o festival proporciona, criando experiências únicas.
A curta-metragem Long Way From Home (How Did We Get Here?), realizada por Luís Sobreiro e João Diogo Marques, ilustra bem esta ideia. As pessoas têm rotinas, como conviverem junto à praia fluvial do Taboão, participarem em momentos de música e dança, entreajudarem-se na montagem das tendas. Surge uma comunidade temporária que vive uma experiência imersiva, unida por um único motivo: a música. O festival surge como um “lar temporário”, onde milhares de pessoas regressam ano após ano, repetindo gestos, revivendo experiências, reforçando laços.
É neste contexto que a noção de ritual ganha força. Ir a um festival não é apenas uma escolha de lazer, mas um comportamento repetido que estrutura a experiência. Apesar de não serem formalmente escritas ou impostas, estas práticas tornam-se normas implícitas dentro da comunidade de participantes. Organizam a vivência coletiva, dão previsibilidade ao imprevisível e criam um sentido de continuidade entre diferentes edições.

Música, a língua em comum
O festival deixa de ser apenas um evento cultural e passa a ser um espaço de repetição simbólica onde a partilha de experiências reforça pertença, identidade e coesão social. Entre Sines, Lisboa e Paredes de Coura, o que se revela não é apenas uma geografia de festivais, mas uma cartografia de encontros. Lugares diferentes, mas um mesmo propósito. Em Sines, o mundo concentra-se num único espaço. Em Lisboa, espalha-se pela cidade e mistura-se com o quotidiano. Em Paredes de Coura, repete-se no tempo, ano após ano, como se cada edição fosse continuação da anterior. Três formas diferentes de viver o mesmo fenómeno: a criação de comunidade através da experiência partilhada.

Mais do que eventos isolados, os festivais surgem como espaços onde a vida social se reorganiza temporariamente. Onde desconhecidos se cruzam, diferenças se diluem por instantes graças à música surge que funcional uma expressão comum. Quando as luzes do palco se apagam, as tendas são desmontadas e a cidade regressa ao seu ritmo normal, em cada festivaleiro fica a sensação de que, durante aqueles dias, uma comunidade se formou. Os concertos ou espetáculos foram o pretexto comum, mas, no final, fica a sensação de um encontro universal.