Fátima: O sagrado em movimento

Ainda não amanheceu e já há passos na estrada. O silêncio da madrugada é cortado pelo ritmo constante do andar e pelo som das mochilas a acompanhar o movimento. Perante a estrada que se estende sem fim, um grupo de 30 ou 40 pessoas partilha o mesmo percurso, mas não as mesmas histórias. Percorrem quilómetros e afastam-se não só em distância, mas também em relação à vida que deixam para trás

Na Cova da Iria, onde hoje se ergue o Santuário de Fátima, nem sempre existiram multidões e edifícios. No início de 1917, o cenário era rural e quase deserto e esta “pequena depressão topográfica”, como é descrita em alguns registos da época, estava “rodeada por outros conjuntos pequenos de casas espalhadas pela colina, entre rochas, azinheiras e oliveiras, e algumas clareiras para pastagem”. Foi a partir do relato das aparições de Nossa Senhora que tudo mudou. A figura da santa apareceu, vestida de branco, sobre uma azinheira perante três pastorinhos: Lúcia, Francisco e Jacinta Marto. Os relatos contam que cada visita era marcada por mensagens religiosas, segredos e visões, prometendo regressar ao local no dia 13 de cada mês, de maio até outubro. A chamada “experiência fundadora de Fátima”, vivida por Lúcia, Francisco e Jacinta Marto, é entendida como uma experiência hermenêutica: um acontecimento que gera interpretações ao longo do tempo.

Como escreve o teólogo António Manuel Alves Martins, no artigo “Fátima: um acontecimento narrativo. Experiência e Linguagem”, “A experiência fundadora de Fátima, protagonizada pelos três videntes em 1917, foi codificada no texto Memórias, da Irmã Lúcia”. Na narrativa do acontecimento-Fátima, Lúcia é a figura central. Foi a única testemunha viva a guardar e a comunicar a experiência fundadora de 1917. E isso deu-lhe um profundo sentido de missão. É a partir desse testemunho preservado e transmitido ao longo dos anos que diferentes leituras do fenómeno de Fátima começam a surgir. Se, por um lado, a explicação espiritual predomina, por outro há quem tente explicar os acontecimentos através da ciência.

Num registo mais analítico, há quem defenda que os fenómenos que colocaram Fátima no mapa podem ser explicados sem recorrer ao sobrenatural, aplicando técnicas baseadas em leis de física. Wojciech Kulczyk, investigador polaco, viveu durante alguns anos em Portugal e combinou o saber que obteve sobre Fátima com o conhecimento académico que possui para estudar este fenómeno, sem nunca descredibilizar o testemunho dos pastorinhos. “As crianças foram testemunhas fiáveis, sobretudo porque foram entrevistadas imediatamente após os acontecimentos”, assume.

A partir desses relatos, surgem hipóteses científicas que procuram explicar os episódios, que decorreram seis vezes, a cada dia 13. A visão da “Senhora”, por exemplo, pode ter sido criada através da projeção ótica, possivelmente utilizando uma luz laser. Já no dia em que o Sol dançou na Cova da Iria, o dia em que Nossa Senhora terá dito que faria um milagre para que todos acreditassem, a hipótese é de que não se tratou de um objeto real, mas de um fenómeno visual criado por efeitos óticos e projeções. “Não há a menor dúvida de que não se tratava de um objeto sólido a mover-se no céu, mas sim de uma espécie de fenómeno ótico”, afirma.

Levando estas hipóteses ainda mais longe, sugere ainda que os acontecimentos poderiam ter sido produzidos por uma civilização tecnologicamente avançada e não algo espiritual e de origem divina.

Os espaços de Fátima

“Espiritual ou não, o Santuário de Fátima é um espaço imponente. É um espaço marcante”, afirma Inês Tavares, uma jovem peregrina que não é crente. A construção da basílica marcou um ponto decisivo que transformou a Cova da Iria num dos principais centros de peregrinação do país e do mundo. A colocação da primeira pedra terá ocorrido a 13 de maio de 1928 e a escolha arquitetónica do edifício não passou despercebida.

A linguagem arquitetónica insere-se na estética historicista e recupera elementos do barroco, o que causou bastante estranheza aos críticos de arte de Fátima. A basílica foi concebida com o objetivo de criar um santuário de carácter rural, introduzindo uma forte dimensão de sociabilidade no espaço envolvente. A arquitetura do Santuário de Fátima foge ao panorama que existia nas igrejas portuguesas, destacando-se pela presença de uma única torre; um elemento que lhe confere singularidade e identidade própria.

Situada no ponto mais elevado da área, a construção impõe-se naturalmente na paisagem, que acentua a sua visibilidade a uma longa distância. O resultado é um edifício físico que procura conferir ao local uma sensação de urbanidade e monumentalidade, o que marca a experiência dos peregrinos.

Em “O Sagrado e o Profano”, o historiador Mircea Eliade reflete sobre a forma como os seres humanos atribuem significado ao mundo. A distinção entre o sagrado e o profano, entendida como uma estrutura essencial da experiência humana, faz com que “o homem tome conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como qualquer coisa de absolutamente diferente do profano”.

Para algumas pessoas, o Santuário de Fátima é mais do que uma obra arquitetónica; é mais do que um espaço físico. “Para mim, Fátima é um local em que agradecemos algo a Nossa Senhora, a Deus, por algo que nós acreditamos e não é o espaço de pedra que, às vezes, a Igreja quer fazer parecer”, considera Rogério Gaspar, um peregrino crente.

O Santuário de Fátima é um espaço comum (profano), que corresponde “ao domínio do quotidiano e do aparentemente insignificante”, até ser transformado num espaço sagrado através de manifestações do sagrado, ou seja, as hierofanias podem revelar-se nos elementos mais simples, como uma pedra ou uma árvore, ou assumir formas mais complexas e centrais para determinadas tradições religiosas, como a encarnação divina em Jesus Cristo. No entanto, como sublinha Mircea Eliade, estes elementos não são venerados pela sua materialidade, mas pelo que representam: “porque mostram qualquer coisa que já não é pedra nem árvore, mas o sagrado, o ‘ganz andere’”.

É precisamente nesta transformação de significado que reside a força do sagrado. “Uma pedra sagrada nem por isso é menos uma pedra. Para aqueles a cujos olhos uma pedra se revela sagrada, a sua realidade imediata transmuda-se numa realidade sobrenatural”, afirma. Não é o objeto que muda, mas o olhar humano que o ressignifica, abrindo espaço para uma dimensão que ultrapassa o visível. “As pessoas precisam de acreditar em algo que as ajude a ultrapassar as dificuldades”, assume Rogério Gaspar.

Essa dimensão do sagrado faz com que milhares de pessoas se desloquem todos os anos até Fátima a pé, com diferentes motivações, e onde cada passo se torna parte de um percurso interior. Como descreveu Mircea Eliade, aqueles que partem, “os peregrinos e os ascetas”, mostram, através da marcha, “o seu desejo de sair do mundo, a sua recusa de toda a situação mundana”.

“Narrativa em carne viva”

Rogério Gaspar foi, este ano, pela 15ª vez em peregrinação a Fátima. Em 2011, decidiu percorrer 159 km para agradecer: “A minha filha teve uma doença grave e eu disse que, se ela se curasse, que ia a Fátima, porque acredito que Nossa Senhora de Fátima a ajudou a superar aquela dificuldade.”

Este homem de 55 anos acredita em Deus e vive guiado pela fé, um sentimento que, diz, “dá força para enfrentar todas as dificuldades”. Apesar disso, admite que considerou não continuar a meio da caminhada. “Pensei em desistir no primeiro dia, mas depois cheguei quase a correr a Fátima”, disse sorrindo. “A minha sogra disse-me: ‘Enquanto eu estiver aqui, tu não vais desistir!’ E não desisti!” Quando finalmente chegou a Fátima, Rogério Gaspar encontrou no Santuário um lugar de resposta: “É indescritível. Só me dá para chorar.”

Hoje, procura transmitir a todos os outros peregrinos essa mesma força, ao ajudá-los ao longo do caminho, assim como a sogra o ajudou a não desistir. “Gosto de ajudar as outras pessoas que também vão em promessa e que enfrentam as dificuldades e que, às vezes, não conseguem vencer essas dificuldades; essa é a minha maneira de os ajudar.”

O percurso é o mesmo, mas aquilo que cada um encontra pode ser muito diferente. Fátima é uma narrativa coletiva e individual. Cada peregrino vive e reinterpreta a experiência de forma única, integrando-a na sua própria história. O caminho é difícil, mas é também um espaço de encontro com o divino. “São dias em que eu vou conversar com muita gente e não vou conversar com ninguém”, explica.

Cada pessoa torna-se uma “narração viva” de Fátima. “Cada peregrino é ele mesmo uma narração pessoalíssima, concreta e encarnada de Fátima, colocando em sua narrativa corpo, interioridade, alma inteira, sentir e viver, dor e alegria.”

Inês Tavares tem 28 anos e foi pela primeira vez a Fátima a pé há dois anos. Nasceu no cerne de uma família católica, mas nunca sentiu essa aproximação à religião. “A fé para mim não está necessariamente ligada à crença em Deus. Acho que é algo que pode ser um acreditar em algo diferente, um acreditar num sentido da vida”, refere.

Em 2024, a curiosidade tomou conta de si. Decidiu juntar-se ao grupo de peregrinação da família e passar quatro dias e quatro noites a andar em direção ao desconhecido. Apesar de não ser crente, assume que isso nunca foi um impedimento e que a peregrinação teve um peso emocional e de superação ainda maior do que imaginava. “Acho que muitas pessoas vão a Fátima por fé, mas também acredito que em momentos difíceis das nossas vidas, as pessoas são obrigadas a acreditar em algo, que pode não ser necessariamente religioso, mas é acreditar que quando fazemos o bem e quando fazemos tudo, o possível e o imaginário, de alguma forma a vida nos retribui”, explica.

Assim como Rogério Gaspar, Inês enfrentou muitas dificuldades físicas e psicológicas num dia que descreve como bastante difícil: “O fim do primeiro dia é muito gratificante: Pensar que conseguimos. Para além disso, acaba por nos dar uma perceção de que: ‘Ok, eu vou conseguir!’ Vai ser difícil, vai ser duro, vou ter de me esforçar, vou acordar com dores nas pernas, vou passar o dia a falar com pessoas e a distrair-me, mas acaba por ser um dia de inspiração.”

O apoio que encontram no grupo torna-se uma parte essencial da experiência que liga percursos, motivações e pessoas diferentes numa caminhada coletiva.

Na terceira peregrinação que fez, Rogério recorda a primeira vez que ajudou um colega que se tornou amigo. “Quando já estava naquela fase de ajudar o outro, eu e outro rapaz levamos quatro horas para fazer dois quilómetros. Tudo por que a pessoa precisava da nossa ajuda. Ele estava num sofrimento brutal…”

Apesar de ser um elemento novo no grupo, Inês Tavares sente-se bastante apoiada. “É um grupo bastante dado, bastante solidário e que se apoia”, explica. Há espaço para a conversa, para a partilha de experiências e também para diferentes ritmos, que acabam por originar pequenos “grupinhos” ao longo do caminho.

O mundo reunido na Cova da Iria

O caminho não é linear e, por isso, ao longo dos vários dias de caminhada, os peregrinos cruzam-se e conhecem pessoas de outros grupos. Pessoas de todos os pontos do país e de todos os cantos do mundo unem-se para apaziguar as suas dores, ultrapassar os problemas do passado e enfrentar os desafios do futuro.

Em 2024, cerca de 6,2 milhões de peregrinos participaram em pelo menos uma celebração em Fátima, um número ligeiramente inferior ao de 2023, marcado pelo impacto excecional da Jornada Mundial da Juventude 2023 e pela visita do Papa Francisco. Ainda assim, o número de peregrinações organizadas aumentou, sobretudo internacionais, com participantes de 88 países diferentes.

No ano seguinte, em 2025, cerca de 6,5 milhões de peregrinos e mais de 5600 grupos organizados, a maioria estrangeiros, participaram em celebrações no Santuário de Fátima. A presença internacional continuou a diversificar-se, com o aumento significativo de peregrinos asiáticos, nomeadamente da Indonésia e do Vietname, levando a Ásia a tornar-se o segundo continente mais representado em Fátima. Paralelamente, também os grupos nacionais cresceram, com maior expressão nas dioceses do Porto, Braga e Lisboa.

Os peregrinos deslocam-se, sobretudo, para cumprir promessas, agradecer pedidos recebidos ou viver uma experiência cultural e espiritual e, para isso, precisam de ajuda externa. Do ponto de vista prático, envolve organização logística, como: carros de apoio para assistência e planeamento da alimentação para diferentes durações, dependendo da distância e do meio utilizado.

A chegada

Fátima não é apenas um acontecimento histórico, mas também uma história contada e interpretada por quem a viveu. E, mesmo quando se conta essa experiência, a linguagem nunca consegue explicar totalmente tudo o que foi vivido. Assim que passam a barreira das árvores, os peregrinos veem o mar de gente. As bandeiras dos países pintam o recinto com as cores do mundo e, nesse momento, cruzam-se diferentes línguas, culturas e intenções, unidas pelo sagrado.

“A chegada ao Santuário foi inicialmente um alívio físico, um alívio emocional de pensar: já cá estou!”, confessa Inês Tavares, ao recordar o impacto que sentiu ao entrar no Santuário de Fátima pela primeira vez, após a longa caminhada.

À medida que os peregrinos avançam lentamente pelo recinto, a emoção toma conta do ambiente. “Foi tocante ver que, se calhar, 90% dos que chegaram connosco acabaram por se emocionar e desabar em lágrimas. Isso tem um peso muito importante para as pessoas e, portanto, foi bastante emotivo e impactante de ver.”

À chegada, multiplicam-se os abraços e os agradecimentos para acompanhar as lágrimas, porque, conclui, “até o gesto mais habitual pode significar um ato espiritual.” O autor Mircea Eliade evoca que “todo o caminho pode simbolizar ‘o caminho da vida’ e toda a marcha uma ‘peregrinação”.

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