Gostavam de computadores, tinham boas notas e não queriam seguir o cliché “de que as mulheres inteligentes vão para medicina”. Exploraram para lá da corrente e foram dar com elas numa área altamente masculinizada. Habituaram-se a ser das únicas na turma e, mais tarde, no local de trabalho. Falamos das 28,39% de mulheres profissionais nas áreas CTEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Quem conclui o número precário é o Observatório Género, Trabalho e Poder, do Instituto Superior de Economia e Gestão, num relatório publicado no Dia Internacional das Mulheres na Engenharia em 2023.
No nicho da informática, mais especificamente nas áreas das tecnologias da informação e comunicação (TIC), a sub-representação é ainda mais evidente, com apenas 22,22% a trabalhar no campo.
Apesar de já todos os colegas terem um computador para fazer os trabalhos da escola, a mãe de Miriam Santos não a deixou tocar na “máquina” até ao último ano do ensino secundário. Nas aulas de Informática, “não aprendia praticamente nada” e sentia que “para os colegas o que era importante era a Matemática e o Português”.
Acabar por lecionar Ciências da Computação na Universidade do Porto foi uma bússola que se foi afinando ao longo do caminho. Iniciou-se pela engenharia biomédica (esfera bastante feminizada, visto que, de acordo com dados publicados pela Pordata, a presença feminina ronda os 80%), partiu para a bioinformática e, mais tarde, doutorou-se em engenharia informática.
Miriam Santos vê a falta de atratividade dos cursos de tecnologia para as jovens mulheres como resultado da “desinformação” e da “marginalização”. “As pessoas têm a ideia de que para entrar em Engenharia Informática têm de saber montar e desmontar um computador”, argumenta a investigadora em Inteligência Artificial (IA), garantindo que essa “não é a realidade”. Ademais, admite que as jovens mulheres possam “sentir estranheza” ao depararem-se com turmas e conjuntos de professores altamente masculinizados. Para Miriam Santos, “é natural que, nesse contexto, não se sintam motivadas a ir para um meio onde não conhecem uma semelhante”.
A tendência em cursos como ciências da computação e IA, aos olhos da professora, é clara: há poucas mulheres. Exemplifica com uma das turmas de IA em que leciona, onde num universo de 67 alunos, não há mais de oito do sexo feminino. Miriam Santos acredita que a resposta para o aparente desinteresse das mulheres nestas áreas remete para a infância, quando são impostas “determinadas regras de conduta e cultura”. “Se as crianças vão às compras e existe um corredor cor-de-rosa com cozinhas, vestidos, fadas e princesas, e depois existe outro diferente com dinossauros, telecomandos e legos”, ilustra, “cria-se um estigma de que as coisas tecnológicas e que exigem raciocínio lógico não se adequam tanto às mulheres”. Combater esse estigma significa, como defende, “sermos um pouco disruptivos, mesmo dentro dos nossos próprios canais profissionais e pessoais”.

Estimular a aproximação das jovens às ciências tecnológicas é o principal objetivo do projeto coordenado por Miriam Santos
Desmistificar a “máquina”
Portugal vai tentando alterar esta realidade. Em outubro de 2025, o Governo avançou com a criação do Programa Nacional das Raparigas nas STEM, objetivando “estimular o interesse das jovens raparigas por estas áreas, para seguirem cursos de ensino superior e, futuramente, carreiras nestes campos”, como se pode ler na página oficial. Estima-se que o investimento ronde os 13,25 milhões de euros.
Miriam Santos vê com bons olhos iniciativas deste cariz, mas mostra ceticismo quanto à sua eficácia. A investigadora está habituada a ver muitos projetos com “dificuldade em arranjar financiamento e falta de voluntários”, bem como a perder a esperança em “apoios que só chegam em momentos muito particulares do ano”.
Porém, não deixou de fazer a sua parte. Com vista a estimular a aproximação das raparigas mais novas às ciências tecnológicas, Miriam Santos idealizou e criou as Raparigas do Código. O projeto, inicialmente, oferecia formação a mulheres e jovens nas áreas das CTEM, mas, ao perceberem que podiam “atuar mais preventivamente”, direcionaram a atenção para as crianças.
Entre jogos e workshops, desde 2020 que as Raparigas do Código procuram que “as meninas mais novas estimulem o raciocínio lógico e se aproximem às ciências”. De momento, as atividades são mais pontuais devido ao desgaste da equipa, que é inteiramente constituída por voluntários, mas o projeto continua a lutar por “plantar sementes”. Pode-se dizer que Miriam Santos procura que as jovens toquem na “máquina” bem mais cedo do que a ela tocou.

Maria, a engenheira
Paula Alexandra Silva trabalha com a “interação humano computador”. Estuda , como descreve, “as preocupações não só do ponto de vista da tecnologia, mas também da componente humana no uso da mesma”. A docente do Departamento de Engenharia Informática da Universidade de Coimbra explica a natureza das áreas em que atua: “A tecnologia, para mim, é um veículo de expressão que serve propósitos.” Até chegar à “cidade dos estudantes”, foi docente em várias universidades nacionais e internacionais e admite algo que foi sempre imutável ao longo do percurso: ser das únicas mulheres da equipa.
Paula Alexandra Silva considera que “a disparidade de género na informática continua a ser um desafio enorme”. Não se referindo apenas aos cursos superiores, a professora identifica “desequilíbrios evidentes nas carreiras, especialmente no que diz respeito a cargos de liderança”.
À semelhança de Miriam Santos, também a investigadora de Coimbra aponta a infância como o momento de criação de “estereótipos de género”: “Nós não incentivamos as raparigas a seguir percursos ligados às áreas da tecnologia.” Mas além da tendência normativa no início de vida, também “a falta de modelos femininos” ao crescer pode influenciar as jovens. Paula Alexandra Silva considera que “falta premiar e dar palco às mulheres, para que se possam criar os mesmos”.
Os números são claros quanto à disparidade de género nas profissões das áreas CTEM – as mulheres ocupam menos de um terço do espaço -, e Paula Alexandra Silva admite que existe uma “normalização desta ausência”. “Se as mulheres são metade da população, é natural que tenhamos que pensar no porquê de haver uma área em franco crescimento e que domina as nossas vidas, que é área da tecnologia, em que realmente não estamos a envolver mulheres suficientes desde o início, nem ao longo de todo o processo, de modo a dar continuidade para cargos de liderança”, reflete.
Opinião partilhada pela professora portuense Miriam Santos que vê na representação e no contacto com modelos um motor de mudança. No seu entender, essas alterações podem ser a nível micro: “Coisas pequenas como mudar o manual. Não ser só ‘o João’ que é engenheiro e CEO, mas também ‘a Maria’ que é engenheira e CEO.” “É preciso a tecnologia desenvolver-se e ver as mulheres não só como utilizadoras, mas como criadoras”, reflete Miriam Santos. Na sua perspetiva, não há dúvida de que “há ainda muito trabalho a fazer.”
Morosidade das iniciativas
Em Portugal, algumas empresas criaram bolsas de apoio especificamente a mulheres nas áreas CTEM. A Revolut com a Rev-Women in Engineering ou a Feedzai com a Feedzai Women in Science apostaram em incentivos que encorajam mulheres a prosseguir carreiras na tecnologia, em particular às que estão em mestrado e doutoramento. Mas, na perspetiva de Miriam Santos, levanta-se um problema: “Quem é que chega a essa fase?”
Ao iniciar o doutoramento em engenharia informática, Miriam Santos viu-se sozinha. Era a única mulher naquela especialidade. “Percebi que à medida que subia as escadas, mais colegas mulheres iam ficando para trás”, suspira. Por essa razão, acredita que, apesar do “trabalho esplêndido que essas empresas têm feito”, o investimento deve, também, ser feito antes.
O exemplo de Miriam Santos não é único. Perante a necessidade de arranjar soluções, Paula Alexandra Silva fundou um projeto capaz de orientar as jovens informáticas: o Inspira. O programa de mentoria, cujo objetivo é a atração e a retenção de mulheres nas áreas da informática, ajuda as jovens “a criar redes” e fomentar “o apoio entre mulheres”.
Catch-some
“Quando cheguei ao secundário, apesar de gostar muito de ler, para mim era óbvio que não iria para Línguas e Humanidades e, portanto, fui para Ciências e Tecnologias. Tinha muito pouca paciência para a subjetividade.” Tinha boas notas e era rapariga, por isso, toda a gente expectava que fosse para medicina no final do ensino secundário. Catarina Silva tinha dúvidas se era esse o futuro que desejava e optou mesmo por remar contra a maré, escolhendo um curso que surpreendeu os seus conhecidos: Engenharia Eletrotécnica. Mais surpreendida ficou quando, ao começar as aulas, se apercebeu que dos 120 alunos que iriam cursar consigo, apenas 20 eram raparigas. O cenário foi mais animador no mestrado em engenharia informática, com 30% de representação feminina.
Atualmente, Catarina Silva é professora no Departamento de Engenharia Informática na Universidade de Coimbra, mas está também a estrear o segundo ano do novo mestrado em IA da mesma universidade. O plano seria ser “um mestrado catch-all, em que qualquer pessoa com uma base matemática mínima se poderia inscrever”. Contudo, não há nenhuma aluna na turma. A professora não esconde a surpresa, mas não consegue decifrar o motivo para a falta de atratividade.
Reconhece que a assimetria de género também se reflete no conjunto de professores do próprio departamento onde trabalha. Catarina Silva admite que não parece existir um esforço para aumentar a quota de mulheres. “Durante estes últimos anos estive em várias reuniões em que era a única mulher”, relata. Diziam-lhe que “fazia o esforço de divulgação para aumentar a diversidade”, mas a professora respondia que “não estava a ser bem-sucedida”, visto continuar a ser a única na sala.
No Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra, ligado à investigação, quem quer ser coordenador deve propor-se a si próprio e vencer por sufrágio. Mas segundo Catarina Silva, as mulheres raramente avançam com a proposta. “Acho que as mulheres têm que mostrar que não têm medo”, sublinha.
Professora no mesmo centro de investigação, Paula Alexandra Silva teme um problema futuro: o risco de aumento das desigualdades ao longo do treino nos modelos de IA. A docente explica que “se não envolvermos as mulheres e se não treinarmos os modelos para saberem lidar com estes enviesamentos que já trazem com eles, é possível que se enfatizem as diferenças”. A diversidade fica posta em causa até na tecnologia do futuro.

