Entre músicos e fadistas: a arte floresce em Marvila

Que Marvila tem vindo a evoluir de maneira gradual não é segredo para quem esteja atento à cidade de Lisboa.  O que nem todos sabem é que, ao longo das suas ruas, bairros e palacetes, existem talentos escondidos prontos para se mostrar ao mundo. Do fado à música, esta freguesia da capital ainda consegue surpreender e fascinar quem a conhece desde tenra idade

“Quem morreu há muitos anos, quando chegasse aqui não conhecia isto.” É com esta convicção que Alzira Fernandes, 56 anos, descreve Marvila, onde vive desde a juventude. “Nascida e criada no bairro”, Alzira recorda a antiga freguesia e a sua mudança como se fosse hoje: “Na altura, só existiam quintas. Havia muita agricultura, poços com água com os bois a trabalharem. Era muito campo.”

Atualmente, não existem vacarias ou quintas funcionais, apenas ruínas do que, em tempos, foi uma “freguesia de palacetes”. Considerada, nas palavras de Almeida Garrett, como o “majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa oriental”, Marvila encontra-se em constante evolução. Numa zona que outrora havia sido ocupada por quintas e, posteriormente, por edifícios dedicados à indústria, ninguém diria que esta zona da capital se pudesse transformar no polo criativo que é hoje.

Foto: DR
O artista Vhils instalou a sua galeria, intitulada de Eterno, em Marvila

Desde as fachadas coloridas pela arte urbana até aos jardins distribuídos pela freguesia, é nestas ruas perpendiculares que se encontram moradores de diversas faixas etárias com um talento para mostrar. Uma comunidade que cada vez mais se une e faz com que a cultura emerja. E o que não faltam são espaços para acolher esses talentos e divulgá-los ao mundo. Até o artista reconhecido internacionalmente Vhils instalou a sua galeria, intitulada de Eterno, em Marvila.

Braço de Prata também foi o bairro escolhido para acolher a galeria de Alexandre Farto. Na Praça David Leandro da Silva, encontra-se ainda a possibilidade de conhecer melhor a rainha do fado, no espaço ‘Ah Amália – Living Experience’, que visa proporcionar uma experiência imersiva, dinâmica e memorável ao espectador. A arte nos bairros marvilenses não se fica por aqui. Há quem diga que pelas ruas de Marvila, a música chama mais alto.

Há fado nas Amendoeiras

Quem vem do sentido da freguesia dos Olivais é recebido pelo Bairro das Amendoeiras, um lugar habitado pelo fado. Situado num dos prédios de habitação, o Clube Lisboa Amigos do Fado (CLAF) pode até passar despercebido a quem caminha por ali. Todavia, ninguém fica indiferente ao interior da associação. O ambiente no salão principal é acolhedor. Os vitrais possuem flores coloridas e nos postes existem candeeiros. A decoração com xailes, janelas e roupa pendurada no estendal remonta ao cenário tradicional bairrista. À medida que a hora do espetáculo se aproxima, as luzes avermelhadas dos candeeiros acendem-se. No palco, os guitarristas sentam-se a aguardar pelos fadistas que estão a chegar. Augusto Oliveira, um dos cinco fundadores, cumprimenta o público. Quando batem as três horas e meia no relógio, o espetáculo começa e ouvem-se murmúrios vindos da plateia.

No Clube Lisboa Amigos do Fado, todos se conhecem. Muitos por viverem no mesmo bairro ou na freguesia. Outros por frequentarem a sessões de fado de maneira assídua. A paixão pelo fado foi o que cruzou o caminho de todos os que se encontram na sala a escutar a música. No entanto, é o companheirismo e o sentimento de pertença que os une até os dias de hoje.  “Qualquer pessoa que canta ou que toca tem de sentir. Se não sentir aquilo não sai”, afirma Carlos Oliveira, um dos fadistas presente na sessão.

A verdade é que não só quem faz o espetáculo sente a música. A junção das quatro guitarras com a voz de cada fadista causa uma vibração à qual ninguém na plateia fica indiferente, principalmente quando chega a parte final da canção. Os apelos de motivação e as expressões de euforia no rosto de cada um apenas reforçam as palavras iniciais de Augusto Oliveira: “Quem assiste é quase tão fadista como quem canta.

No palco, os guitarristas Armando Roque e Hélder Nunes sentam-se na zona do restaurante da ACOF, a aguardar pelos fadistas para dar início do espetáculo

Quando o som é fado, não se fica por aqui. A Associação Cultural O Fado (ACOF) é a primeira escola especializada nesse género musical a ser fundada em Portugal e localiza-se, precisamente, em Marvila, também no bairro das Amendoeiras. À entrada , o salão onde decorrem os ensaios está decorado com molduras e quadros a homenagear artistas e a lembrar espetáculos antigos. Porém, existe um quadro que se destaca dos demais: a pintura a homenagear Amália Rodrigues, que reveste a parede ao lado do palco. Coberta por pedra e decorada com xailes, a associação tem tudo o que se espera de uma escola de fado: alunos com vontade de cantar e guitarristas preparados para tocar. Embora os alunos e os músicos sejam maioritariamente de faixa etária adulta, cada vez mais jovens se interessam por aprender a cantar e a tocar. Tanto no CLAF como na ACOF, é possível “tirar o tom” de quem quer frequentar os ensaios de canto, aprender a tocar guitarra e, posteriormente, praticar.


O Clube Lisboa Amigos do Fado (CLAF) tem sido importante na formação de jovens fadistas como Sara Correia

São inúmeros os fadistas e guitarristas que passaram pelo pequeno palco de ambas as associações para os grandes palcos do país, como Sara Correia. No entanto, existem também os que anseiam pela sua vez de brilhar e que têm vindo a construir o seu percurso, como Inês Coito. Hoje com 20 anos, a jovem nutre uma paixão pelo fado desde os cinco anos por influência da família, principalmente, da irmã mais velha, Sara. “Comecei no Clube Lisboa Amigos do Fado a ouvir a minha irmã. Até que um dia me disseram: ‘Oh Inês, canta aqui este fadinho!’ A partir daí, começou a ser a minha segunda casa, onde desenvolvi mais amor pelo fado”, declara.

As duas associações foram importantes na formação e evolução de habilidades fundamentais para se tornar na fadista que é hoje: “Comecei a dar os meus primeiros passos na CLAF. Aprendi tudo o que tinha de saber sobre o fado, a expressar-me. Na ACOF, foi onde comecei a sentir mais evolução de mim mesma, a estilar o fado à minha maneira.” Apesar dos desafios e dos obstáculos existentes, tais como a competição sentida entre colegas, Inês Coito não se consegue separar do que a faz feliz. A jovem fadista considera que a experiência a tornou imune ao lado negativo do mundo da música. Com aparições televisivas desde criança, Inês Coito chegou à final do The Voice Gerações em 2025, ao lado da irmã, Sara Coito, provando por que Marvila se tornou um berço de talentos do fado.

Música no coração dos Alfinetes  

Se nas Amendoeiras habita o fado, nas ruas do bairro dos Alfinetes sente-se a música. A Associação para o Desenvolvimento Cultural e Social de Marvila (ACULMA) acolhe todos os que se interessam por aprender a cantar e a tocar instrumentos. As instalações contam com um bar à entrada da escola, cujos prémios e condecorações recebidos até à data se encontram visíveis num armário transparente e salas dedicadas aos ensaios, onde os alunos de várias idades se juntam para praticar. Ao longo do estabelecimento, é possível observar instrumentos de sopro e percussão meticulosamente posicionados, a evidenciar a natureza da escola.

Foto: Associação para o Desenvolvimento Cultural e Social de Marvila (ACULMA)

Formada com o objetivo de agregar o Rancho Folclórico e a Banda Filarmónica já existentes na freguesia, a ACULMA possui dois órgãos principais: a escola e a banda. O aluno que comece a integrar as aulas de música irá, posteriormente, ser incluído na banda: “Qualquer pessoa que chegue inscreve-se tanto como sócio como nas aulas e começa a ter aulas. Se o maestro achar que o aluno está pronto para integrar a banda, assim será”, explica Fátima Duarte, vice-presidente da ACULMA.

Foi o caso de Ricardo Fernandes, 21 anos, que começou a frequentar as aulas desde criança e, atualmente, integra a Banda Filarmónica a tocar saxofone. “Entrei com 11 anos, tinha uma chefe nos escuteiros que andava cá e houve uma aula aberta para apresentar os diferentes instrumentos aos alunos. Ela convidou-me, eu vim, apresentaram-me os diversos instrumentos e acabei por escolher o saxofone.”

A entrada na banda requer uma prática e conhecimento que permite aos alunos participarem em eventos abertos ao público, como o Concerto de Ano Novo, na Igreja de São Maximiliano Kolbe. De acordo Fátima Duarte, “a passagem das aulas para a banda não requer muito tempo se a evolução do aluno for notória”, como foi o caso de Ricardo: “Ao fim de dois anos, fui para a banda. Na altura, aplicava-me um bocado e tocava em casa o que facilitou.”

Foto: Associação para o Desenvolvimento Cultural e Social de Marvila (ACULMA)

Duarte e Ricardo Fernandes concordam que os laços que se criam dentro da escola e o espetro variado de idades tornam a ACULMA uma grande família. “Tudo o que sei, aprendi aqui. Tenho um sentimento de gratidão para com todos”, afirma o músico.

A cultura no bairro social

Na passagem para o bairro do Marquês de Abrantes encontra-se a Biblioteca de Marvila, o ponto de encontro cultural da freguesia. Reconstruída a partir da antiga Quinta das Flores e com vestígios do que outrora tinha sido um lagar de azeite, abrange uma série de salas direcionadas não só à leitura como também ao trabalho digital e lazer, ao longo de 2600 metros quadrados de área. Fundada em novembro de 2016, é a maior Biblioteca Municipal de Lisboa e foi, como explica Sofia Resende, a atual coordenadora do estabelecimento, “construída em prol das necessidades da comunidade envolvente”.

Projetada pelo arquiteto Raul Hestnes Ferreira, filho do escritor José Gomes Ferreira, a Biblioteca Municipal de Marvila é a maior da capital, com 2600 metros quadrados de área

Por se dedicar à população da freguesia em que se insere, a biblioteca tem como função promover a cultura e torná-la acessível. Contudo, é igualmente necessário apoiar os artistas, bem como as escolas e as associações que dão vida à arte. A implementação de medidas como a gratuitidade da ocupação do auditório para a realização de espetáculos são importantes e imprescindíveis para tal acontecer: “Muitas companhias emergentes, que concorrem para ganhar bolsas financeiras para construir o seu projeto, solicitam muito o nosso espaço porque não têm de o pagar.”

Desde sempre que a biblioteca dá palco a iniciativas e eventos por parte das várias companhias e artistas. No entanto, Sofia Resende garante que todas as iniciativas que envolvam a comunidade e artistas locais são priorizados: “E se houver um projeto que envolva a comunidade, nós damos prioridade. Tentamos sempre garantir que, em cada mês, temos alguns dias para a comunidade sempre que precise.”

Em relação à divulgação da cultura em bairros sociais como os de Marvila, Sofia Resende refere que “ainda há muito trabalho para fazer”. E lamenta: “Infelizmente, na pobreza, a cultura não entra. Muita gente acha que a cultura não é para eles, que não têm direito.” Todavia, a bibliotecária garante que existe “imenso talento espalhado na freguesia de Marvila ainda por descobrir, talentos esses que estão à espera de uma oportunidade para se mostrar ao mundo”.

Para esses talentos que andam à procura de espaço para brilhar e para os que têm medo de se expor, Inês Coito incentiva a aparecer aos olhos não só de quem vê, como de quem ensina: “É o chegar à frente e arriscar que falta a muita gente.” No fim de contas, apenas a ousadia de tentar e a coragem de falhar criam grandes artistas, e Marvila está repleta deles.

Foto: DR
Inês Coito ganhou a 1ªedição da iniciativa “Talentos do Bairro”, em dezembro de 2024

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