Ao longo da História, a música tem assumido um papel estruturante na organização da vida coletiva. Tanto nos rituais religiosos como nas práticas associadas à identidade nacional, a música não surge de forma isolada, mas sim como um elemento que atravessa e interliga dimensões simbólicas, culturais e emocionais.
Nestes contextos, atua como uma linguagem partilhada que permite a cada ser humano reconhecer-se como parte de um todo, seja definido pela fé, pela tradição ou pela pertença a um país. Embora distintos nas origens e finalidades, os cânticos religiosos e os hinos nacionais convergem na forma como mobilizam sentimentos de pertença e de coesão. Ambos recorrem à repetição, à solenidade e à participação coletiva para reforçar valores comuns e consolidar identidades partilhadas.
Ao som da celebração
Nos rituais religiosos do cristianismo, a música não é um elemento acessório. Pelo contrário, reforça a ligação a uma comunidade. No Mosteiro dos Jerónimos, o padre José Manuel dos Santos Ferreira celebra a missa num tom de júbilo, a fechar o período pascal – iniciado a 5 de abril, dia de Páscoa, e terminado a 24 de maio. Numa das mais emblemáticas igrejas do país, a alegria pela ressurreição de Cristo manifesta-se de forma vibrante. À medida que a missa decorre, os cânticos religiosos enchem a igreja e envolvem a assembleia para que cada voz contribua. Enquanto o padre José Manuel Ferreira celebra a missa, ao cantar o mesmo cântico, a assembleia une-se num “uníssono”, o que intensifica o sentimento de pertença e a convicção de uma comunhão de fé e amizade entre todos. Estes cânticos presentes em todas as celebrações, sem exceção, transportam significados espirituais, culturais e sociais.
O prior está bem ciente da importância que a música tem para a religião, descrevendo-a como “arte extraordinária que possui uma variedade quase infinita de expressões”. Para o Padre José Ferreira, a música tem a capacidade intrínseca de juntar as pessoas. “Funciona como um fator agregador que eleva e unifica os sentimentos numa expressão comum”, afirma. A música tem, como explica, “uma função aglutinadora e congregadora da assembleia litúrgica”. E esclarece ainda: “Cada um poderá cantar em sua casa os cânticos que entender, mas o facto de determinado cântico ser cantado numa reunião, numa celebração litúrgica, numa missa, permite intensificar o sentimento de pertença e a convicção de uma comunhão de fé e de amizade entre todos.”
Um dos significados socioculturais da música para a religião é o facto de ser um elemento que acompanha os atos litúrgicos desde as suas origens, atuando como um reforço da palavra e permitindo exprimir convicções de fé, louvores e pedidos de forma mais intensa do que a simples leitura ou recitação. Segundo o sacerdote, para além do louvor divino, “os cânticos têm uma função pedagógica e social, incentivando atitudes de compreensão e auxílio ao próximo na vida quotidiana. É um reforço da palavra simplesmente lida ou proclamada porque permite exprimir mais intensamente as convicções da fé e os pedidos, os favores, os agradecimentos que os crentes desejam elevar até Deus”.
A música na igreja não é estática. Reflete o estado de espírito sociocultural de cada momento. As mensagens variam consoante a época: a alegria e o júbilo na Páscoa e no Natal, e a penitência e conversão na Quaresma. Esta especificidade mostra como a música é utilizada para balizar o tempo e as emoções de uma comunidade. Deste modo, tal como clarifica, “não há como decifrar uma mensagem comum a todos os cânticos, uma vez que cada época tem um diferente significado”.
A música religiosa está profundamente enraizada na cultura portuguesa. Cânticos como o “Avé de Fátima” ou o “Miraculosa Rainha do Céu” – recuperado recentemente em contextos de pedido pela paz devido à guerra na Ucrânia – demonstram como a música religiosa se funde com a história e com os sentimentos do país. A música sobrevive através de décadas e séculos, mantendo viva a memória coletiva e adaptando-se às necessidades sociais de cada época.
Terminada a celebração, o silêncio instala-se enquanto os passos rápidos dos fiéis ecoam até a porta do Mosteiro. É no Secretariado Paroquial de Belém que o Padre José Ferreira se acomoda, depois da missa e reflete sobre o futuro dos cânticos religiosos. Para o prior, nem num futuro longínquo se prevê a alteração da música no contexto litúrgico. “Desde os primórdios que as celebrações são acompanhadas por cânticos que mantêm a sua essência até aos dias de hoje. A liturgia, em si, progride, mas de forma muito fiel à sua herança”, afirma.

A música como fenómeno sociocultural
Diversos autores já se debruçaram sobre o tema da música com o objetivo de entender os significados socioculturais. Jerome Lewis, professor de Antropologia na University College of London, utiliza o exemplo dos pigmeus bayaka, um povo caçador-coletor que habita as florestas tropicais do sudoeste da República Centro-Africana e do norte da República Democrática do Congo, para demonstrar como a participação musical molda estruturas sociais, políticas e económicas de forma igualitária. As investigações que tem desenvolvido evidenciam que a música funciona como um mecanismo de comunicação que reforça a identidade do grupo e liga os indivíduos ao seu passado mítico. Estas práticas musicais são apresentadas como esquemas culturais fundamentais com uma resiliência extraordinária, o que permite a continuidade de tradições ao longo de milénios. Em última análise, a antropologia tem provado que, mais do que uma atividade de lazer e ócio, a música é o coração da adaptação humana e da organização social, tendo um papel fulcral na organização, manutenção e transmissão da cultura humana.
Ao mesmo tempo, a música desempenha um papel determinante na construção da identidade de um grupo, reafirmando continuamente a ligação do indivíduo ao coletivo e aos seus antepassados. Tal como é reconhecido entre os Bayaka, ao ouvirem estilos musicais semelhantes, mesmo que vivam a milhares de quilómetros de distância, a música atua como força conservadora que estabelece um senso de pertença.
Além disso, a música constitui um importante papel como canal vital para a transmissão cultural, ensinando valores centrais como a partilha e o igualitarismo. Através da prática musical, estes valores são transmitidos às novas gerações e revitalizados nos adultos, num processo de aprendizagem baseado sobretudo na observação e na imitação, sem necessidade de instrução formal. Paralelamente, reflete e reforça a ordem política e social de um grupo. Na polifonia vocal dos Bayaka, por exemplo, não há hierarquia entre os cantores; cada indivíduo deve manter a sua própria melodia enquanto permanece em harmonia com os outros, no sentido de uma sociedade igualitária.
A música desempenha ainda funções rituais e cosmológicas, sendo essencial na marcação de cerimónias, rituais de passagens e celebrações religiosas. Permite que os participantes entrem num “tempo sagrado” e atemporal, conectando o presente ao passado mítico. Em algumas tradições, as próprias estruturas musicais refletem perspetivas cosmológicas, como ritmos que representam ciclos de vida, morte e renovação. Além disso, a música facilita a comunicação grupal e a coordenação de atividades essenciais, como a caça e a coleta.
O musicólogo Richard Widdess também tem tentado compreender o significado da música e como está profundamente enraizado em contextos culturais específicos. Para situar a música na cultura, o professor da Universidade de Londres centra os seus estudos na antropologia cognitiva, definindo a cultura como “aquilo que precisa de ser conhecido para operar de forma razoavelmente eficaz num ambiente humano específico”. A música não é apenas um adereço, mas também uma forma de conhecimento e memória que deve ser adquirida, armazenada e recuperada. Segundo o autor, “grande parte deste conhecimento é não linguístico, mas sim adquirido através da observação repetida e da imitação, sem necessidade de explicações verbais”.
Nos seus artigos sobre música e tradição na cultura indiana, o investigador destaca ainda que “o significado sociocultural da música não reside apenas no som, mas na incorporação da experiência”. Na música clássica indiana, movimentos de mãos e cabeça contribuem para a construção de conceitos como “autoridade” ou “devoção”. A performance musical pode servir para estabelecer e negociar identidades sociais e relações entre grupos, transformando tensões em reconciliações através da prática estética.
O som de um país
Falar dos significados socioculturais da música e da sua importância nos rituais de nacionalidade implica falar de hinos nacionais. A grande maioria dos países possui um hino nacional oficial que funciona como um símbolo musical de identidade e soberania. Portugal não é exceção e, no final do século XIX, “A Portuguesa” foi composta em contexto de revolta e contestação ao ultimato britânico a Portugal em relação ao território africano.
Com base nos significados socioculturais apresentados por Jerome Lewis e por Richard Widdess, o hino nacional enquadra-se em várias categorias. Funciona como uma ferramenta de coesão e manutenção da ordem social. Em primeiro lugar, Lewis afirma que “cada grupo social tem a sua música, e esta música é de alguma forma emblemática da identidade do grupo”. O hino nacional é o exemplo máximo desta função, atuando como um símbolo sonoro que permite ao indivíduo identificar-se como parte de uma nação.

Tal como os bayaka reconhecem outros como “povo da floresta real” ao ouvirem o seu estilo musical, o hino gera um reconhecimento imediato de pertença a uma coletividade específica. Segundo os musicólogos, a música atua frequentemente como uma força conservadora. O hino nacional reafirma a ligação de cada pessoa ao grupo e aos seus antepassados, conecta o presente às origens coletivas num passado mítico – neste caso, a história e fundação da nação. E argumentam que a música é essencial para a transmissão e manutenção de sentimentos culturalmente desejáveis. No caso do hino nacional, estes sentimentos são o patriotismo, a lealdade e o orgulho nacional. A participação na performance (cantar ou ouvir o hino) revitaliza estes sentimentos nos adultos e cultiva-os nas novas gerações.
Como observado em outras sociedades, estas performances podem reforçar a estrutura social e a ordem política em vigor. Com o sucesso dos republicanos ao expulsar a monarquia e substituí-la por um governo democrático, “A Portuguesa” foi aprovada como hino nacional de Portugal, logo após 1911. Em 1956, depois de já terem existido algumas variações no hino, tanto a nível melódico como também na instrumentalização, o governo nomeou uma comissão encarregada de determinar a versão final e oficial de “A Portuguesa”. A versão aprovada a 16 de julho de 1957 permanece em vigor até hoje, tendo sido a mudança mais gritante a substituição da palavra “bretões” por “canhões”.
Quer nos cânticos do coro do Mosteiro dos Jerónimos, quer num hino cantado em uníssono, a música revela-se muito mais do que um simples som. Entre o sagrado e o nacional, aquilo que à primeira vista parece distinto encontra um ponto comum: a capacidade de reunir pessoas em torno de algo maior. Numa celebração religiosa, as vozes unem-se criando um espaço de partilha e reconhecimento mútuo. De forma semelhante, um hino nacional quando é cantado, não recorda apenas a história de um país, mas faz com que esta seja revivida coletivamente. É nesse encontro entre som e significado que a música cumpre a sua função mais profunda. E é precisamente por isso que, ao longo do tempo, continua a ser um dos meios mais eficazes de construir uma comunidade, de preservar memórias e de dar forma a identidades, quer no silêncio reverente de um espaço religioso, quer na força vibrante de uma nação que se reconhece na sua própria voz.