A maioria não chegou aqui por acaso. Para muitos motoristas de TVDE (Transporte Individual e Remunerado em Veículos Descaracterizados a Partir de Plataforma Eletrónica), este trabalho surge como resposta a mudanças inesperadas na vida. De situação de desemprego, a separações ou necessidade de conciliar horários familiares, são vários os motivos que levam alguém a escolher esta profissão. “Trabalho há um mês como motorista. Separei-me e o trabalho que fazia antes não dava para estar com os meus filhos. Assim, consigo levá-los e buscá-los à escola”, conta Pedro Silva, de 40 anos. Frequentemente apontada como vantagem, a flexibilidade revela-se, muitas vezes, uma necessidade disfarçada. Edward Borges, de 27 anos, profissional com mais de dois anos de experiência, reforça a ideia de autonomia: “Começou pela possibilidade de gerir o próprio tempo, sem depender de horários fixos ou de terceiros, uma das razões mais apontadas por quem entra neste setor.”
A flexibilidade tem, no entanto, um custo. Para equilibrar as contas, muitos acabam por trabalhar nos períodos mais rentáveis: noites, fins de semana e eventos. É nesses momentos que a procura dispara e, em consequência, a exigência. “Já estou acostumado… faço muitos festivais como motorista. O pessoal está todo a divertir-se e eu estou ali a trabalhar.” Do lado de fora, a festa; do lado de dentro, a rotina. O contraste é constante. Contudo, há quem sinta que nem sempre é fácil lidar com essa realidade. “Não vou mentir, é um pouco mau. Sinto que estou a perder a diversão”, admite Edward Borges. Ainda assim, reconhece o outro lado: a elevada procura permite ganhos superiores que compensam noutros dias. “É um 50/50… faço o sacrifício para aproveitar depois.”
No interior do carro, o cenário muda a cada viagem. Há silêncio, conversas inesperadas, confissões, gargalhadas e, por vezes, situações desconfortáveis. A noite traz uma diversidade de passageiros que poucos outros trabalhos permitem observar tão de perto. Jovens em festa, turistas desorientados, trabalhadores a terminar turnos, casais em discussão. Cada trajeto torna-se um fragmento de vidas alheias, cruzadas por breves minutos. “Como disse, há uma história diferente todos os dias”, acrescenta Edward Borges.
Todos os dias se vive algo… evitar um acidente que pode ser fatal, lidar com pessoas difíceis. Esta exposição constante raramente é reconhecida.”
Pedro Silva
Mas nem tudo são histórias curiosas. A imprevisibilidade faz parte da rotina. “A mais estranha foi um cliente pedir Bolt… e aparecer com um gato sem escolher a opção Bolt Pet.” Situações como esta são comuns e obrigam os motoristas a tomar decisões rápidas, muitas vezes, sob a pressão das avaliações. “Se recusamos, podemos ser penalizados. Se aceitamos, arriscamos problemas”, explica. Para além disso, o risco faz parte do quotidiano. “Todos os dias se vive algo… evitar um acidente que pode ser fatal, lidar com pessoas difíceis. Esta exposição constante raramente é reconhecida”, refere Pedro Silva.
Profissão desvalorizada
O sistema de avaliações é uma das maiores fontes de pressão. Um comentário negativo pode comprometer o acesso a viagens futuras, criando uma relação desigual em que o motorista trabalha sob permanente vigilância. “Muitas vezes, os motoristas são culpados por erros dos clientes e isso acaba por prejudicar as nossas avaliações.”
A esta realidade soma-se a questão financeira. Apesar da aparência de autonomia, muitos motoristas falam em margens reduzidas. “As pessoas não fazem ideia do que temos de trabalhar para ganhar dinheiro. A percentagem que as plataformas nos retiram é absurda.” Combustível, manutenção, seguros e impostos reduzem significativamente o rendimento final.
Outro desafio é a perceção social, no qual a sensação de desvalorização persiste. “Não sinto que seja valorizado. Há um monopólio que não pensa nos motoristas, nem na segurança nem nos ganhos. Hoje em dia, as pessoas associam isto a certas nacionalidades ou pessoas com menos formação.” O estigma mantém-se e reflete-se na forma como alguns profissionais são tratados, apesar de desempenharem um serviço essencial no quotidiano urbano.
Em março de 2026, existiam 39.615 motoristas de TVDE registados na plataforma do IMT (Instituto de Mobilidade e dos Transportes), ao serviço de operadoras como a Uber e Bolt, o que representa um aumento de 6% face aos 37.495 registados em igual período de 2025. No total, há mais de 77 mil motoristas com certificado TVDE emitido, embora nem todos ativos, e mais de 14 mil operadoras ativas. A maioria dos condutores através de aplicação é de nacionalidade portuguesa (51%), seguida da brasileira (21%) e indiana (11%). Esta plataforma foi criada há mais de um ano e permite regular o setor e garantir o cumprimento das obrigações legais.
Na semana em que estou com os meus filhos, o horário não é o melhor para faturar. A escolha torna-se inevitável: privilegiar a presença ou maximizar os ganhos. E, muitas vezes, não é possível ter ambos.”
Pedro Silva
A comunicação com os clientes tende a ser igualmente uma fonte frequente de tensão. Muitos passageiros não compreendem o funcionamento da aplicação, o que gera conflitos desnecessários. Erros no ponto de recolha ou no destino, definidos pelo próprio cliente, acabam por ser injustamente atribuídos ao motorista. Conciliar a vida pessoal com esta realidade exige um equilíbrio difícil. “Na semana em que estou com os meus filhos, o horário não é o melhor para faturar. A escolha torna-se inevitável: privilegiar a presença ou maximizar os ganhos. E, muitas vezes, não é possível ter ambos.”
Histórias que quebram a rotina
Há momentos que interrompem a dureza da rotina. Pequenos episódios trazem leveza aos dias exigentes. Edward Borges recorda uma viagem invulgar: “Uma cliente pediu um carro do Cacém até ao Porto, convencida de que o marido a traía. Durante horas, partilhou comigo suspeitas e desabafos, mas o desfecho foi inesperado: acabou por ser pedida em casamento. No fim, foi tudo ao contrário.” Já Pedro Silva relata um episódio que acabou por quebrar a monotonia e trazer conforto a esta rotina exigente: “O mais engraçado foi apanhar um amigo meu por acaso.”
“As pessoas não veem que também somos seres humanos.”
Edward Borges
No fundo, a falta de empatia de muitos passageiros torna-se um motivo de constante desgaste. “As pessoas não veem que também somos seres humanos”, desabafa Edward Borges. À medida que a madrugada avança, o ritmo abranda. As ruas esvaziam-se, os pedidos diminuem e o cansaço acumula-se.
Para muitos, este é o fim de um turno longo, mas invisível para quem dorme. Quando a cidade desperta, estes motoristas regressam a casa, encerrando um ciclo que poucos testemunharam. Enquanto uns vivem a noite, outros trabalham nela. E, no silêncio das primeiras horas da manhã, outros colegas de TVDE continuam a ligar destinos, histórias e vidas, viagem após viagem.