Chama-lhe a “rainha do vento” e é a principal produtora de energia em Portugal, apenas superada pela hídrica em anos chuvosos, como foi o caso do último inverno. Segundo a REN (Redes Energéticas Nacionais), no primeiro trimestre de 2026, as energias renováveis garantiram quase 80% da energia nacional, dos quais 38% foi de produção hídrica e 32% de eólica, o recorde nacional. De acordo com dados do LNEG (Laboratório Nacional de Energia e Geologia), existem 2900 aerogeradores espalhados por mais de 260 parques eólicos, situados, sobretudo, nos distritos de Castelo Branco, Coimbra, Faro, Guarda, Leiria, Lisboa, Viana do Castelo, Vila Real e Viseu. Nestas centrais, as turbinas eólicas transformam a energia cinética do vento em energia elétrica. Os especialistas gabam-lhe, sobretudo, a capacidade de regeneração fácil e rápida produção.
Graças a turbinas com diâmetros que variam de dez a 170 metros, os aerogeradores só param se o vento for fraco (<3 m/s) ou excessivo (>25 m/s). O tamanho das turbinas e a intensidade do vento vão, segundo Teresa Simões, investigadora do LNEG (Laboratório Nacional de Energia e Geologia), “determinar a quantidade de eletricidade produzida”. Como esclarece: “A energia eólica pode ser explorada em terra (onshore) ou no mar (offshore) e através de parques eólicos ou de turbinas pequenas, independentes da rede, para uso local.”
Pelas condições geográficas, Portugal é um local que favorece este tipo de investimento. “Beneficia-se das várias horas de sol e bons índices de vento, nas zonas costeiras e mais a norte. A energia eólica tende, contudo, a ter mais efeito em países mais ao norte, onde os níveis médios de ventos são mais elevados”, refere a especialista. Ainda assim, o país está – considera – “no bom caminho para que, no futuro, existam mais investimentos neste setor, pois ao longo dos anos, a Comissão Europeia e as entidades portuguesas têm criado medidas para acelerar o desenvolvimento destas tecnologias”.


Desafios para as novas empresas
Existem algumas ideias inovadoras a surgir neste setor de mercado. É o caso da WindCredible, que se dedica à produção de novas soluções em relação às turbinas eólicas, com aposta no que António Santos, diretor de operações, descreve como “um design diferente das turbinas tradicionais”. E justifica: “Estas têm um eixo vertical e hélices curvas e uma forma espiral, em vez de serem pontiagudas e compridas como as convencionais.”
Esta startup é dirigida por dois antigos militares da Guarda Nacional Republicana (GNR), Filipe Fernandes e António Santos que, há cerca de três anos, iniciaram experiências com o mundo das energias renováveis, mais especificamente a eólica. Mais tarde, juntamente com outros dois colegas, fundaram a WindCredible. Apesar de ainda se apresentar em desenvolvimento, a empresa já conseguiu marcar presença em diversos eventos, nomeadamente a Web Summit, e estabeleceu contacto com empresas como a EDP, Galp, Prio. “Além disso, outras 15 empresas já mostraram interesse em trabalhar connosco”, aponta António Santos.
Um dos principais desafios associados às turbinas é a ausência de vento ou o vento excessivo, podendo assim prejudicar o seu funcionamento. Neste caso, António Santos explica que “as turbinas mais desenvolvidas têm um mecanismo de travagem magnético, ou seja, é possível controlar a rotação da turbina, aproveitando o máximo de energia que se possa extrair naquele momento. Mas claro que, em situações extremas, terá de ser parada”. Em cenários de vento reduzido, a solução mais comum passa, como acrescenta, “pela complementaridade entre fontes renováveis, combinando a energia eólica com a energia solar”.
Sobre a aplicação destas fontes de energia em pequenas comunidades ou até mesmo em residências domésticas, Filipe Fernandes, CEO da WindCredible, afirma que “a energia eólica como sistema de produção é algo que terá futuro. Já se nota mudanças relevantes em pequena escala, logo com a produção de novas tecnologias o seu potencial será ainda maior”.
O grande desafio para as turbinas se espalharem será garantir a qualidade e, ao mesmo tempo, ser um produto acessível ou, pelo menos, sem grandes discrepâncias face às já existentes no mercado. “O objetivo será manter o mesmo nível de viabilidade que os painéis solares têm.”
Uma das formas de incentivar o investimento passa por voltar a atribuir bonificações ao preço de venda da energia eólica, para compradores externos. A opinião pública tem posições fortes em relação a estas energias, o que pode influenciar os investimentos. Teresa Simões refere que “seria importante sensibilizar as populações, de modo a facilitar a aceitação dos projetos por parte dos municípios”.
A investigadora do LNEG considera que “o principal problema no aumento do investimento é os processos administrativos serem demorados. Ou seja, seria necessário desburocratizar os procedimentos”.

Usar o vento, mas com respeito pela natureza
Existem, no entanto, medidas restritivas para a instalação de uma turbina eólica. Geralmente, é requerida permissão de planeamento e as regras podem variar dependendo da sua localização – preferível em zonas mais altas ou costeiras do país. A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a DGRM (Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos) estabelecem restrições rigorosas em relação à instalação de aerogeradores para proteger áreas sensíveis e atividades piscatórias, sendo proibidas em zonas de pesca ou áreas protegidas.
Teresa Simões experienciou uma situação que comprova a importância de respeitar as normas ambientais, ainda antes de terminar a sua licenciatura. “O trabalho consistia em verificar o desempenho de duas turbinas eólicas para confirmar se funcionavam corretamente. Alguns meses depois, recebemos uma queixa de um proprietário de uma quinta de cavalos situada a vários quilómetros do parque eólico. Segundo o dono da quinta, os cavalos deixaram de acasalar devido ao ruído das turbinas. Um som que apenas os animais conseguem ouvir e mais intenso pois as turbinas estavam numa zona montanhosa. No final, as turbinas tiveram de ser retiradas e colocadas em outro local”, conta.
O futuro desta energia
Teresa Simões esclarece que existem metas definidas para 2030, embora talvez não seja possível alcançá-las. “Do ponto de vista técnico, não é possível armazenar diretamente a energia eólica. O que se pode fazer é contribuir para o armazenamento de energia através de sistemas de bombagem, uma vez que a energia eólica, por si só, não pode ser armazenada.”
Uma possibilidade futura poderá passar pelas microturbinas “que serão utilizadas para carregar baterias. Já existem projetos que visam desenvolver baterias de grande escala capazes de armazenar energia proveniente de fontes renováveis”, afirma. A especialista em energias renováveis prevê que “no futuro, surjam tecnologias capazes de permitir o armazenamento deste tipo de energia”.
Filipe Fernandes e António Santos acreditam que a energia eólica poderá seguir um percurso semelhante à energia solar: “Começou com grandes centrais e então perceberam que as unidades de custo começaram a fazer sentido mesmo aplicadas em projetos mais pequenos e isso é algo que ainda não chegou à eólica.”
A expectativa é que essa evolução tenha efeitos positivos e que seja mais adotada no futuro, não só em Portugal, mas também no mundo. “A energia eólica é uma das que produz mais, além de que o facto de ser produzida por uma fonte renovável torna-a inesgotável. Se com esta energia for possível substituir outras centrais de combustíveis fósseis, minimiza-se as emissões para a atmosfera, pois é uma tecnologia onde a sua maior fase poluente e de emissão de gases é na sua construção”, conclui a especialista do LNEG.
No momento em que as alterações climáticas têm assumido um papel mais evidente e urgente, as energias renováveis assumem um papel central. “São recursos naturais que se conseguem regenerar de forma fácil e rápida, sem causar danos ao meio ambiente”, sublinha a investigadora.
Relativamente à possibilidade de Portugal dispor de condições naturais para ampliar, ainda mais, esta fonte de energia, Teresa Simões refere que “do ponto de vista do recurso eólico que o país possui e o avanço tecnológico que a energia tem sofrido ao longo dos anos, houve uma grande evolução em relação à eficiência das turbinas, fazendo com que os locais que não produzem tanta energia, passem a produzir mais”. O facto de Portugal ser um país muito rico em áreas naturais protegidas e com sensibilidade ambiental faz, conclui, “com que reduza as possibilidades de existirem espaços onde se possa instalar as turbinas eólicas”.