Em defesa do País natural

Durante anos, interrogamo-nos sobre o que levaria os japoneses e outros povos asiáticos culturalmente próximos a fotografar, até à exaustão, cada instante das suas viagens. Mesmo antes de as selfies, os telemóveis e de outros dispositivos de portabilidade existirem, os nipónicos não perdiam uma oportunidade de disparar contra o efémero. Encontrávamo-los pelas ruas de Sintra, de Lisboa, do Porto ou de outro lugar que se tivesse transformado num fenómeno turístico, sempre com as suas câmaras compactas a sobrepor o olhar. Como se nesta vírgula do final da Europa existissem borboletas raras que seria importante capturar; uma etnografia, um jeito de ser e de estar que tenderiam a desaparecer.

Depois de tantas perdas e voltas ao Sol, percebo o quanto, na verdade, os japoneses são visionários. Talvez por serem um povo que guarda no ADN um passado de isolamento face ao Ocidente e que culturalmente preservou o silêncio, a contemplação e o sossego, mas viu a geografia humana mudar abruptamente com a Revolução Industrial, eles sabem que o tempo é um bem escasso e raro. Os instantes de lazer e de ócio – a vida simples – desaparecem com um piscar de olhos. Bastará ver o filme Dias Perfeitos para perceber a mensagem que Wim Wenders, já depois da pandemia, nos tentou transmitir.

O que se encontra em Tóquio, Quioto, Osaka, Yokahama, Hiroshima, entre outras cidades altamente industrializadas e tecnológicas é reflexo do expoente máximo de uma sociedade, de certa forma, desapropriada da sua cultura ancestral e tão arreigada ao consumismo. Em Portugal, ainda há roupa a secar na beira das janelas ou sacudida ao vento numa qualquer aldeia, crianças a brincar nas ruas e uma natureza, mesmo que desorganizada, que se impõe. Portugal é um mapa mundi de paisagens diversas, como poucos países na Europa.

E hoje, quando assistimos às constantes ameaças de empresas internacionais que querem transformar Portugal, o país do Sol e de searas ao vento, num coração esventrado para explorações de lítio, num cemitério de painéis solares, onde já deixaram cortar sobreiros, azinheiras, pinheiros mansos e outras árvores que nos garantem a biodiversidade e combatem as emissões de CO2, vemos que, afinal, as tendências chegam aqui mais tarde. No entanto, quando entram, é para passar por cima de todas as convicções.

Por agora, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) reprovou as propostas apresentadas nos megaprojetos para a instalação das centrais solares Sophia e Beira, que corresponde a espalhar mais de 425.600 painéis fotovoltaicos numa área superior a 524 hectares, com potência total de 266 megawatts, nos concelhos de Castelo Branco e Idanha-a-Nova. Os relatórios da APA confirmaram que estas centrais teriam impactos graves para o ecossistema. Estamos a falar de uma das regiões com maior biodiversidade e também uma das zonas mais quentes do país, que precisa das árvores para garantir a sobrevivência; uma área imensa que integra o pulmão de Portugal: uma parte significativa do território que é a zona Centro. Um pouco por todo o país, existem outros projetos que estão a desesperar e a entristecer as populações.

Até quando se conseguirá travar as propostas cada vez mais rebuscadas das empresas que precisam destes projetos para alimentar a Inteligência Artificial e outras tecnologias galopantes? Na maior parte dos casos, o poder local tem conseguido, a custo, adiar a chacina que se vislumbra no país.

Imaginem uma montanha depois dos incêndios, quando os pássaros findaram à fúria das chamas, ouve-se um silêncio que dói a quem está habituado ao seu cantar. Imaginem Portugal coberto de centrais solares, onde a Natureza se calou, onde as temperaturas superiores a 40 graus são insuportáveis. Imaginem Portugal daqui a uns anos, se as vozes do contra não se ouvirem, e depois perceberemos por que tiveram os japoneses de capturar o efémero que sabiam raro nas suas deambulações.