Dos juniores aos seniores: O que ficou por jogar

A transição para o escalão dos juniores é um dos momentos mais decisivos para os jogadores no mundo do futebol distrital. O aumento da competitividade e a incerteza do futuro fazem com que muitos jovens se confrontem com a possibilidade de não continuar. Entre a pressão e a dificuldade em conciliar com a vida pessoal, muitos acabam por desistir

“Houve um treino em que o mister parou tudo e disse que quem não desse mais não ia chegar longe nesta época e muito menos no futebol.” É assim que o ex-jogador de 18 anos do Sport Clube Sanjoanense, Salvador Januário, recorda o momento em que percebeu que o futebol já não era vivido da mesma forma. O que até então era parte da rotina, a partir daí, tornou-se uma prova constante.

No futebol distrital, a transição dos juvenis para os juniores é o primeiro grande choque de realidade. Nos juniores, o conceito de “futebol para todos” acaba: as substituições deixam de ser ilimitadas e instala-se a competitividade dentro dos balneários. Muitos atletas só se apercebem de que o tempo de brincar acabou quando se veem sentados no banco sem minutos de jogo. Esta realidade torna-se um dos principais motivos de desistência.

Com menos oportunidades, aumenta também a exigência. Para muitos atletas já não basta “marcar alguns golos” ou apresentar uma boa condição física. Nesta etapa, os jogadores são obrigados a elevar as competências técnico-táticas e demonstrarem consistência para se destacarem individualmente num contexto cada vez mais competitivo. Todos os treinos contam em dose dupla, cada falha pesa mais um pouco na balança e a margem para erro é muito mais reduzida. 

Criar laços afetivos que perduram pela vida fora é uma característica do desporto que, muitas vezes, se sobrepõe à competitividade dos torneios

Nesta fase, a pressão não se limita ao que acontece dentro de campo, é também emocional e profundamente pessoal. Muitos jovens carregam o peso das expectativas de quem os acompanhou desde o início, como os pais, presentes em cada treino e jogo, e sentem o receio de os desiludir ao abandonar o relvado. Há ainda quem sinta que a maior pressão vem de si próprio: do desejo de não falhar, de não deixar um sonho por cumprir, ou até mesmo de não desiludir a criança que um dia pegou na bola com a ambição de ir mais longe.

Entre expectativas externas e exigências internas, este período transforma-se num verdadeiro teste não só ao talento, mas também à resiliência emocional. “Tenho sempre medo de desiludir a minha família. Foram as pessoas que, desde sempre, abdicaram de horas e horas para me verem e acompanharem, e sinto que lhes devo sempre isso. Acho que também é por isso que ainda continuo a jogar e a manter o amor pelo desporto”, partilha Leonor Faria, 20 anos, jogadora do Real Sport Clube, SAD, de Queluz-Massamá.

Leonor Faria, jogadora do Real Sport Clube, SAD, de Queluz-Massamá, refere que, mais do que a pressão da vitória nos jogos, tem receio de dececionar a família, que a acompanha desde sempre

Quando a continuidade deixa de ser garantida, surge também a frustração. Para muitos destes atletas, o momento de parar é inicialmente vivido como uma derrota, como se os anos de dedicação tivessem sido em vão. “Pensei que tivesse sido um desperdício de tempo ter feito aquilo tudo para depois parar”, confidencia o ex-jogador de 19 anos, Rafael Mendes, do Cultural Atlético Clube da Pontinha, em Lisboa, refletindo sobre o momento da decisão final. No entanto, com o tempo, esta perceção tende a mudar. “No fim de tudo, fiquei orgulhoso daquilo que fiz, das experiências que vivi, do que aprendi e, principalmente, da pessoa que me tornei”, admite.

O crescimento fora do relvado

O futebol acaba por deixar marcas que vão muito além do campo. Amizades construídas ao longo dos anos, experiências que moldam o crescimento pessoal e valores que permanecem para a vida tornam-se parte deste trajeto. Estes vínculos também se sentem fora das quatro linhas. “O futebol criou laços ainda mais fortes entre nós. Fez-nos vibrar, sofrer e celebrar juntos. Há abraços depois de golos que nunca esquecerei. Há silêncios no carro após uma derrota que dizem mais do que mil palavras. O futebol deu-nos memórias que vão ficar para sempre na nossa história enquanto família”, conta Mafalda Januário, mãe de Afonso e Salvador Januário, ambos ex-jogadores. Foi ela que acompanhou os filhos aos jogos, desde tenra idade. Afonso começou a pisar os relvados com apenas cinco anos e Salvador com oito.

A disciplina, o espírito de equipa, a capacidade de lidar com vitórias e derrotas, bem como a resiliência tornam-se aprendizagens essenciais. Beatriz Neves, 18 anos, jogadora do União Futebol Clube Moitense, reconhece que, mais do que um fim, o percurso no futebol ajudou-a crescer, não apenas como jogadora, mas sobretudo como pessoa: “Nunca foi só um desporto. Este é um lugar de formação, de conquistas, de vivências, de aprender a ser pessoa e até mesmo a cuidar de nós. O futebol deu-me muitas bases, conhecimentos que até sou capaz de levar para o mundo da enfermagem, a área que atualmente estudo. O saber olhar para um problema e dar a volta ao mundo até ter a solução, conseguir trabalhar em equipa e aprender a pôr todo um grupo a remar em direção ao mesmo objetivo, mesmo que, às vezes, nem seja por nós próprios.”

Para além da componente emocional, existe ainda um fator decisivo quando chega o momento de escolha: a dificuldade em conciliar a vida desportiva com a académica ou profissional. Com treinos frequentes, jogos ao fim de semana e constantes deslocações, manter este ritmo exige uma gestão de tempo rigorosa e uma grande resistência física e mental. À medida que as responsabilidades fora do futebol aumentam, muitos jovens começam a questionar se conseguem continuar a acompanhar as exigências do futebol sem comprometer o seu futuro. “Acho que a pressão é o que me afeta menos, pois sempre me mentalizei que devia jogar feliz e agradar apenas a mim mesmo. Nesta fase, tenho sentido o cansaço mais do que nunca. As horas de sono não são as melhores e os quatro dias semanais de treino intenso mais os jogos não têm ajudado”, afirma Rodrigo Magina, 18 anos, jogador do UFC Moitense.

É neste contexto que surge uma das decisões mais difíceis do percurso dos atletas: continuar a perseguir o sonho ou optar por um caminho mais estável. Mesmo quando a paixão pelo jogo se mantém, a incerteza de uma carreira no futebol leva muitos a priorizar os estudos ou o trabalho. Trata-se, muitas vezes, de uma decisão silenciosa, tomada longe dos relvados, mas que marca o fim de um ciclo vivido durante anos. “Já me vinha a conformar há alguns anos com uma eventual desistência. Percebi que não ia conseguir alcançar uma carreira promissora. Tomei a decisão oficial quando se tornou incompatível conciliar a exigência dos treinos com a vida universitária. Então preferi priorizar os estudos”, afirma Gonçalo Pinto, 22 anos, ex-jogador do União Atlético Povoense, de Póvoa de Santa Iria.

Mesmo quando a paixão pelo jogo se mantém, a incerteza de uma carreira no futebol leva muitos jogadores a optar pelos estudos ou pelo trabalho

Realidades opostas na competição

Contrariamente ao futebol masculino, em que esta pressão e exigência podem levar à desistência, no feminino estes fatores não se fazem sentir tão intensamente, uma vez que, em Portugal, é mais difícil para uma mulher alcançar o patamar do futebol profissional. Por este motivo, muitas jogadoras não têm tantas expectativas de progressão de carreira. “Neste momento, sinto que a pressão diminuiu. Talvez porque hoje encaro o futebol como algo que quero ter na minha vida para que me faça sentir bem e feliz e não viver o desporto como se fosse a única coisa que tenho na minha vida. Ter agora um segundo foco, a faculdade, permite-me distanciar deste lado mais tóxico de praticar desporto”, confessa a jogadora do UFC Moitense, Beatriz Neves.

Afonso Januário, 23 anos, é a metáfora física destes dilemas. Depois de um percurso marcado pela dedicação, chegou a ser chamado para treinar com a equipa profissional do GD Chaves. Esteve próximo de assinar contrato e dar o salto para o futebol profissional. No entanto, perante a incerteza do futuro e a exigência de conciliar o desporto com a vida académica, aos 20 anos, acabou por tomar uma escolha inesperada: abandonar o futebol competitivo para se focar na universidade. “Foi uma decisão difícil porque o futebol sempre fez parte da minha vida. Senti uma mistura de alívio e incerteza. Tentava focar-me no trabalho diário, mas nem sempre era fácil gerir tudo ao mesmo tempo. Então, comecei a sentir mais pressão do que prazer em jogar”, confidencia o ex-jogador.

À semelhança de Afonso Januário, a dualidade de sentimentos acompanha muitos jovens atletas que acabam por dar um xuto na bola para fora de campo e investir noutra fase da vida. Entre a concretização de um sonho e a necessidade de garantir estabilidade, nem sempre o mundo do futebol é o caminho escolhido. A decisão de sair acabou por ser o remate final: “Percebi que estava na altura de colocar um fim a uma das etapas mais especiais da minha vida, dedicando-me cem por cento aos estudos.”

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