Diogo, 29 anos, analfabeto, vítima de uma escola incapaz de lidar com a diferença

O sistema de ensino nem sempre está preparado para acompanhar pessoas com deficiência. Faltam condições e formação adequada de docentes. Esta é a história de Diogo, que completou o 12º ano, mas é analfabeto. A sua vida só melhorou quando decidiu sair de Lisboa. Em 2016, arrumou os seus pertences em caixas e fez-se à estrada. O carro só parou em Aveiro. Ali, encontrou o apoio que Lisboa não lhe conseguiu oferecer

Aos 20 anos, Diogo, que prefere não revelar o sobrenome e pediu para não ser fotografado, tomou a decisão que mudou a sua vida. Nascido e criado em Lisboa, deixou para trás as ruas familiares da capital e rumou para norte do país de forma a garantir que o seu futuro não ficava capturado pela condição que o acompanha desde o dia em que nasceu. “Há nove anos, vim para Aveiro por ser uma cidade que tem mais associações para nos ajudar. Sinto que a cidade está mais preparada para receber pessoas como eu, comparativamente com Lisboa. Foi uma mudança que melhorou muito a minha qualidade de vida”, conta. A luta por uma vida digna pode implicar sair do porto de abrigo e ir à procura de um lugar mais aconchegante e menos sombrio, onde todos parecem ser mais compreensivos e tolerantes.

Desde pequeno que percebeu que a sua vida não seria exatamente igual àquela que qualquer um idealiza. “Quando era mais novo, rejeitava a minha doença. À medida que fui crescendo e convivendo com as pessoas, fui aprendendo a lidar com ela.” Ao longo dos anos, foi aceitando a sua condição porque percebeu que só assim a conseguiria transformar numa força. A perseverança tornou-se a chave para desbloquear as barreiras que pareciam intransponíveis. “Fui-me tornando uma pessoa com cada vez mais capacidade para lidar com a minha doença e com as consequências que ela traz.”

A doença cognitiva que o decidiu acompanhar para a vida afetou-lhe as principais células cerebrais e a visão do olho esquerdo. Simples tarefas do quotidiano, como apanhar o autocarro, são um verdadeiro desafio. Mas Diogo já se habituou à sua realidade.

O percurso académico de pessoas com deficiência nem sempre é linear. “Sempre senti o preconceito dos meus colegas, mas tentava não me deixar afetar.” Os estabelecimentos de ensino desempenham um papel fundamental na evolução e construção de identidade destas pessoas. Qualquer falha pode deixar sequelas para a vida. Apesar das limitações, Diogo Flor terminou o 12º ano. Mas não teve o acompanhamento adequado e especializado que necessitava, durante os 12 anos que frequentou a escola. A consequência é que Diogo é analfabeto. É um dos 30 mil analfabetos em idade ativa que existem na população portuguesa. Saiu da escola sem saber ler nem escrever.

Ilustração: Amália Somsen

O seu défice cognitivo, a falta de visão no olho esquerdo, as “células mortas” e as perturbações na fala que a sua doença lhe provocou tornaram a aprendizagem num processo muito difícil. As incapacidades de Diogo foram um entrave para que pudesse aprender como todos os colegas de turma. É esta a explicação que encontra para, aos 29 anos, ser analfabeto.

Quando o ensino abraça a diversidade, permite que se derrubem barreiras invisíveis e que se mostre que todos têm capacidade de aprender, evoluir e contribuir. Mas quando esta diversidade é vista como um obstáculo, as crianças e os jovens que fogem ao padrão ficam para sempre presos à mesma realidade. Tal como aconteceu com Diogo, inúmeros jovens em situações similares não recebem o acompanhamento de que carecem e fazem parte da pequena percentagem de analfabetos em Portugal. Apesar de o acesso à educação ser um direito consagrado a todas as crianças e jovens na Constituição da República Portuguesa, ainda não pode ser dado como garantido. A educação inclusiva tem estado em debate nos últimos anos e vários estudos tentam mostrar a realidade destes jovens no ambiente académico e explicar porque razão muitos deles não têm o desenvolvimento esperado.

A taxa de abandono escolar precoce de jovens com deficiência é quase quatro vezes superior à de jovens sem deficiência, valores que são justificados, de acordo com o “Relatório Pessoas com Deficiência em Portugal – Indicadores de Direitos Humanos 2024”, pela falta de apoios especializados. No que se refere ao acompanhamento disponibilizado, em 2022/2023, cerca de 76% dos alunos com medidas de apoio beneficiaram da intervenção de um docente de educação especial. Apesar de este valor ter melhorado ao longos dos anos, Diogo faz parte da percentagem de alunos que não beneficiou deste acompanhamento. A FENPROF revelou este ano que “num ano letivo em que a falta de professores aumenta, tanto em número como em extensão geográfica, os alunos com necessidades específicas são os mais penalizados pela ausência de recursos adequados”. A federação disse ainda que há falta de formação de docentes e também falta de recursos para conseguirem acompanhar estas crianças e assumiu esse como um dos maiores desafios da inclusão.

Para o jovem, “as justificações são frustrantes e é preciso resolver estas lacunas para que a inclusão não seja uma mera idealização”. E acrescenta: “Não me parece justo que a minha vida tenha ficado condicionada por não existirem apoios ou formação suficiente para nos apoiarem.” Apesar de duvidar das suas capacidades, confessa que gostava de saber se teria sido capaz de aprender a ler e a escrever, se tivesse tido o acompanhamento necessário, enquanto frequentou a escola. “Não sei se seria capaz, muito provavelmente não, até porque já tentei aprender a ler e a escrever várias vezes ao longo dos anos e nunca consegui. Mas sei que, quando somos crianças, o nosso cérebro está mais preparado para aprender, por isso é que gostava de saber como teria sido a minha vida se tivesse tido mais ajuda quando era pequeno na escola.”

Não há dados disponíveis sobre o número de indivíduos com deficiência que são analfabetos, mas, por exemplo, ao analisar as taxas de atividade de pessoas com e sem deficiências, percebe-se que as oportunidades para aqueles que vivem com algum tipo de condição incapacitante são muito menores.

Ilustração: Amalia Somsen

Garantir qualidade de vida

Com o foco bem definido, a mãe de Diogo, Isabel, recorreu a ajuda profissional fora do ambiente escolar anos depois, quando Diogo já era adolescente: “No fundo, só queria garantir que a qualidade de vida do meu filho seria a melhor que pudesse ser. Sabia que tinha de fazer alguma coisa para melhorar o futuro dele. Por isso, investi muito em consultas que o fizessem melhorar a fala e a capacidade de lidar com a doença e com as tarefas do dia a dia, para que pudesse ter uma vida mais normal.”

O único objetivo era garantir que a qualidade de vida de Diogo estaria a salvo. “Para ser aquilo que sou hoje, tive de recorrer a ajuda profissional. Era quase como se estivesse a ser treinado. Não gostava de ir a esses treinos, mas a minha mãe insistia muito, e ainda bem”, conta. Aprender a ler e a escrever era a meta que a sua terapeuta tinha estabelecido no início da caminhada. Infelizmente, não foi possível cortá-la porque as capacidades de neurodesenvolvimento deste jovem não permitiram. Ainda assim, o objetivo de garantir a sua autonomia ficou cumprido. Foram esses “treinos” que hoje lhe permitem ter um emprego e conseguir apanhar sozinho o autocarro para o centro da cidade. “Foi isso que me fez aceitar a minha condição e aprender a viver com ela”, diz.

A maratona de tentar corresponder às expectativas parece não ter fim. Todos os dias recomeça uma nova tentativa de pertencer ao estereótipo da normalidade e de fintar os muros que o quotidiano insiste em erguer. Mas qualquer caminhada se torna mais fácil quando é partilhada. Foi o que permitiu a associação Cerciav, que deu a mão a Diogo assim que chegou a Aveiro. Conseguiu arranjar-lhe um emprego e fazê-lo sentir-se pela primeira vez dentro da normalidade. “Foi fundamental para que conseguisse encontrar trabalhos que me aceitassem com a minha condição”.

Agora, aos 29 anos, o caminho no mundo do trabalho já vai longo. E nem sempre foi um mar de rosas. O primeiro emprego não correu como esperado. Nem o segundo. Nem o terceiro. A persistência fez com que tudo se encaminhasse. Não desistiu e foi em busca de lugar onde as suas limitações não fossem um problema. Hoje, Diogo trabalha no Hospital de Aveiro como assistente operacional no armazém.

Os primeiros dias foram difíceis. Diogo sabia que a adaptação seria sempre desafiante. “Quando vim para cá, estava muito nervoso, tive medo que corresse como os meus trabalhos anteriores. Os primeiros dias não foram fáceis. Tinha uma senhora comigo que me estava a ensinar a fazer as minhas tarefas. Senti que não confiaram nas minhas capacidades.” Passados dois anos, sente-se finalmente acolhido por todos os colegas e garante que encontrou um lugar onde pode ser exatamente como é, sem se sentir deslocado ou incapacitado. Com o tempo, vieram também as estratégias que descobriu sozinho para adaptar o trabalho à sua condição e facilitar toda esta jornada. Conseguiu ganhar a confiança daqueles que partilham o seu dia a dia com ele e, sem o saberem, são o que motiva Diogo a continuar a lutar diariamente.

Diogo cresceu a ouvir que era especial e talvez seja isso que mais o cansa, uma vez que só deseja ser comum. “Tento sempre passar despercebido e ser o mais normal possível. No fundo, é isso que quero. Desagrada-me ser olhado como alguém que tem uma condição especial. Sei que não é a realidade, mas não gosto de me sentir uma pessoa deficiente.” Diogo não quer ser olhado com pena. A única aspiração é que possa ser reconhecido por todo o esforço, trabalho e mérito, e não pela sua condição.

O verdadeiro desafio ainda permanece. A inclusão começa quando deixamos de olhar para a diferença como uma ameaça. Como defende: “Há muito caminho a percorrer. É essencial preparar muito melhor as escolas, o mercado de trabalho e a sociedade em si para não precisarmos de tentar pertencer à normalidade. Não gosto de me sentir deslocado, mas infelizmente ainda acontece muito.” A vida destas pessoas é, muitas vezes, consumida pela procura incessante da normalidade e pela luta por uma vida comum. “Muito tempo da minha vida foi e é passado a tentar encaixar na sociedade.” Reajustam cada detalhe que podem, movidos pelo desejo simples de pertença, de encaixarem na normalidade que o mundo lhes pede.

Em Aveiro, Diogo vai continuar a sua caminhada. Desconhece o que o futuro lhe reserva, mas sabe exatamente o que quer. Não sabe se algum dia vai conseguir aprender a ler e a escrever, mas rejeita que o percurso da sua vida fique marcado pelas limitações. Em todos os aniversários, quando trinca a vela, apenas deseja uma vida plena, na qual a sua deficiência seja só uma nota de rodapé e não o título da sua história.

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