Há não muito tempo, o jornalista era o principal mediador entre a notícia e o público. A ética, a honra e a responsabilidade de informar estavam nas mãos dos profissionais que dedicavam anos de estudo à arte de relatar os factos – uma profissão que somente aceitava aqueles que não se contentavam com pouco, mas sim que exploravam para além do óbvio. Contudo, o panorama noticioso como o conhecemos mudou e o papel do jornalista também. Se antes eram guardiões da verdade e mensageiros da informação, hoje enfrentam novos desafios que colocam em causa esse ideal. A pressão das audiências, o peso das métricas, a velocidade com que as notícias se propagam e a atenção cada vez mais curta dos leitores alteraram profundamente a forma de fazer jornalismo.
Com as redes sociais e a circulação instantânea de conteúdos, surgem novos protagonistas: os produtores de conteúdos digitais que exploram o universo virtual para construir plataformas de informação e fidelizar públicos que trocaram a televisão pelo telemóvel. De acordo com um estudo da UNESCO, as motivações desses criadores vão além da simples partilha de notícias, incluindo fatores como a procura de reconhecimento, a construção de comunidades e a vontade de influenciar debates sociais. Como esclarece o especialista Paulo Couraceiro: “A pessoa sem licenciatura, sem formação consegue ter milhões de seguidores porque faz um trabalho que tem alguma essência jornalística, mas não serve exatamente os mesmos padrões e consegue facilmente ir ao encontro das características que potenciam a virilidade de uma publicação.”
Paulo Couceiro é investigador desde 2017. Atualmente, pertence Obercom (Observatório de Comunicação), um centro que se foca na investigação das dinâmicas comunicacionais contemporâneas, do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE). Para o académico, não há dúvida que há fatores que têm alterado o panorama do jornalismo, nomeadamente as métricas. No artigo “Os números que guiam o jornalismo: o lugar das métricas nas redações”, publicado em setembro de 2021, o coautor afirma que o “bom-jornalismo” está em transformação. “Há uma grande facilidade, independentemente da formação que a pessoa tenha tido, de passar o seu posicionamento face a qualquer notícia, como acontece com os influencers”, explica.
O êxito de @v.daily.journal no Tik ToK
Muitos são os que têm entrado nas redes sociais à procura de se tornarem virais, mas nem todos têm o mesmo propósito. Como indica Paulo Couraceiro, considera-se “influencer” quando são profissionais que têm mais de 10 mil seguidores”.
Vinicius tem 27 anos e vive em Brasília. É formado em Ciências Sociais, pela Universidade de São Paulo e especializou-se em Tecnologia. Há quatro meses, criou um perfil no TikTok (@v.daily.journal), onde todos coloca diariamente um vídeo de um minuto para divulgar as notícias mais importantes do dia. Apesar de não ter um diploma na área da informação, todos os dias entra na vida das pessoas e, em 60 segundos, fornece as notícias mais importantes.
Em menos de 120 dias, tornou-se uma referência nas plataformas que detém. Atualmente, gere outros dois perfis – um sobre economia e outro sobre e-sports ( @n.daily.journal, @m.daily.journal) – e é um dos tiktokers com maior audiência do Brasil. Ao todo, soma mais de 200 mil seguidores. “Estudei o comportamento de 20 criadores de conteúdos e questionei-me sobre qual seria aquele que conseguiria reproduzir minimamente igual e, a partir daí, peguei no telemóvel e comecei. Copiei o enquadramento, a altura do telefone, a gesticulação que faziam e passei tudo aos meus colegas que gerem as páginas @n.daily.journal, @m.daily.journal : como colocar as mãos, como olhar bem para a câmara, como captar a atenção das pessoas. Fazia os meus vídeos e, como deu certo, ensinei-os para aumentar o nicho da audiência. Em apenas cinco dias, o Daily Journal contava com mais de 10 mil seguidores”, descreve.
Vinicius encara esta faceta da sua vida como “um compromisso e não uma questão de pressão”. O objetivo do jovem é crescer, utilizando a informação como meio para atingir um maior alcance nos perfis que detém. Para além de gravar e editar os vídeos, o jovem brasileiro divulga-os num canal de WhatsApp para que as pessoas possam ter acesso às fontes que utiliza para contar as notícias do dia. “É uma forma dos meus seguidores, mesmo que não me acompanhem todos os dias, possam ter o link à distância de um click e saibam onde é que eu fui buscar a informação”, refere.
Atualmente, este é um full time job, uma vez que há marcas a querer aparecer e, com isso, surge o financiamento do seu trabalho. Para o investigador da Obercom, “há uma competição pela atenção e dispersão daquilo que é o valor do jornalismo”.

Jornalista por acaso
As redes sociais têm-se apoderado da circulação de notícias. Ligar a televisão de manhã foi substituído pelo desbloqueio do telemóvel, após o despertador tocar. Para uns, as redes sociais servem como continuidade do trabalho, mas, para outros, estas não vieram alterar nada, nem serviam de porta de entrada ao mundo noticioso.
António Pereira Gonçalves é o correspondente com mais anos de casa na TVI. Antes desta nova era digital, o jornalista especializado em assuntos de religião já percorria os caminhos da informação. O repórter assume que a pior nota que teve ao longo da sua vida estudantil foi a de jornalismo, mas os fracos resultados académicos na área não o demoveram de prosseguir a carreira. “Sou do tempo da cassete e a minha primeira opção não era a comunicação”, observa.
A verdade é que o jornalismo nem sequer era o seu plano inicial. Na realidade, António Gonçalves começou o seu trajeto noutro caminho – o da fé e do sacerdócio – e foi precisamente aí que, de forma inesperada, nasceu a porta de entrada para a informação. O repórter ingressou no seminário e ali permaneceu no curso de filosofia, obrigatório à época. No entanto, havia um curso opcional que o cativou: o curso de Jornalismo. “Na minha época, as condições para entrar nesta área não eram tão restritas, bastava ter algum jeito. Pensava e acreditava que queria ser padre, mas ao abandonar essa vocação continuei ligado à religião e aí sim abriu-se a janela da informação.”
Manteve-se ligado ao universo religioso e, durante três meses, fez visitas guiadas ao Santuário de Fátima. O jornalista recorda que foi no último dia de trabalho como guia que lhe apareceu a oportunidade de fazer a ligação entre as notícias que saíam do Santuário para a Rádio Renascença. Tudo o que acontecia em Fátima, António Gonçalves gravava e passava para a estação católica. Assim se manteve desde 1986 a 1991.
Numa altura em que o melhor amigo destes profissionais era o telex e as redes sociais estavam longe de aparecer, o recém profissional começava a dar os primeiros passos. António Pereira Gonçalves somente tem Facebook e utiliza-o para contexto social: “A minha linguagem é tipicamente televisiva, não é adaptada para redes. Não preciso nem quero fazer essa transição, pois diverte-me mais utilizar as redes para contexto familiar do que para continuação do meu trabalho.”
O correspondente com mais de 40 anos de carreira é conhecido nas redações por ser dos profissionais com mais audiências nos diretos que realiza. “Através do auricular, dizem-me se querem que termine ou não o direto. Chego a estar cinco minutos no ar a falar. As audiências continuam a subir e eu sei isso, porque não me pedem para parar o direto.”
António Pereira Gonçalves afirma que não sente pressão pelos editores do Jornal da TVI. Garante ser jornalista para informar a população portuguesa do que está a acontecer e sem pensar se está ou não a ter audiências. “Temos muitas ferramentas ao nosso dispor, mas se não nos ajudarem a pensar, não nos vale de nada. Contar uma notícia no TikTok é fácil, mas ir ao local, falar com as pessoas, testemunhar o acontecimento isso não se faz sentado em casa a gravar para um telefone”, considera. Num mundo onde o processo de ingressar no jornalismo é difícil, o correspondente da TVI reconhece que “os jovens se têm de agarrar a tudo para serem vistos”.

Constante adaptação
Atualmente, o jornalismo vive entre o imperativo do algoritmo e a necessidade de se reinventar. Paulo Couraceiro refere que “as métricas e a lógica das redes sociais transformaram a atenção em moeda de valor, o que obriga os profissionais a repensar na sua função”.
Enquanto Vinicius comunica a informação em segundos e conquista audiências globais sem formação jornalística, António Gonçalves recorda a essência de um tempo em que o rigor e a experiência eram o centro da profissão. Entre estes dois mundos, o futuro do jornalismo depende da capacidade de unir a ética e o compromisso com a verdade, à agilidade e à linguagem digital, ferramentas que hoje moldam a informação.
Paulo Couraceiro afirma que “a imprensa se está a adaptar rapidamente à nova realidade e que, inclusive, há métodos que contabilizam o quanto uma notícia é vista, gostada e comentada. Métricas que avaliam o tempo que passamos a ler a informação para melhorar o conteúdo que produzem”.
No fim, este confronto de perspetivas revela que o jornalismo coexiste num campo informativo que se tornou mais amplo, mais híbrido e, inevitavelmente, mais competitivo. A verdade não circula apenas pela mão de quem estudou para a narrar, mas também por quem aprendeu a decifrar o algoritmo e a captar a atenção de milhões, em segundos.
Como sublinha o investigador do Obercom, “vivemos numa era em que o valor de uma notícia é medido em cliques, métricas e permanência no ecrã”. Porém, esta aparente ameaça pode, como conclui o especialista, ser também uma oportunidade. “Se o jornalismo conseguir transformar a velocidade digital em aliada, sem abdicar do rigor que o sustenta, conseguirá continuar a ser indispensável.”