Da América para as ilhas: milhares de emigrantes regressam em cada verão

O verão açoriano enche-se de vida com o reencontro de muitas famílias separadas pela emigração, de Massachusetts a Vancouver. E em cada regresso, são estas coisas simples que os ajudam a sentirem-se de novo em casa

De maio a agosto, há um outro ritmo nas nove ilhas dos Açores. É a época em que os aviões chegam cheios e a vida recupera a jovialidade de outros tempos, bem diferente da azáfama que algum turismo trouxe ao arquipélago. Nos Aeroportos de Ponta Delgada, em São Miguel, da Horta, no Faial, da Graciosa ou das Lajes, na Terceira, cruzam-se abraços, malas de mão e sotaques das ilhas tingidos por palavras americanizadas. Uns vêm dos Estados Unidos, outros do Canadá. Todos regressam com o corpo cansado da distância, mas com a alma pousada neste chão que nunca deixaram de sentir como seu.

Em Ponta Delgada, a mais procurada ilha dos Açores pelos turistas, as filas nos serviços de rent-a-cars denunciam quem chega de fora. Nos cafés, ouvem-se sotaques cruzados: português com entoações americanas, palavras inglesas coladas a expressões micaelenses. Nas freguesias, há sempre uma casa com mais movimento, um churrasco no quintal, toalhas penduradas na varanda e vozes que se prolongam noite dentro. Muitos vêm carregados com malas grandes, outras pequenas só para trazer “candilhos” – rebuçados que se oferecem às crianças, numa tradição que viaja no tempo e na memória. O verão é sinónimo de reencontro, de presença e de excesso. É o momento em que a ilha parece crescer não só em gente, mas em afeto.

Para quem vive longe, regressar no verão é mais do que vir de férias. É reafirmar uma ligação que nunca se quebrou. Mesmo os que partiram há décadas falam da ilha no presente, como se nunca tivessem deixado de a viver. E os que cá chegam com filhos ou netos, trazem também o desejo de passar esse sentimento adiante: mostrar-lhes que o lugar onde se nasceu não é só geografia, é memória, cheiro, som e pertença. E que há ilhas que nunca se deixam para trás, mesmo quando se deixa tudo o resto.

Viver longe, pertencer à ilha

O lugar onde se cresceu nunca desaparece. Permanece guardado na pele, na voz, no olhar. Ana Maria Almeida, 63 anos, ainda sente todas estas sensações sempre que volta à Fajã de Baixo, a freguesia onde passou os primeiros anos de vida, rodeada de vizinhos que se conheciam pelo nome, ruas tranquilas e conversas trocadas de janela para janela. Foi ali que viveu com o marido, Duarte Almeida, também natural da ilha, e onde criaram os filhos, Miguel e Mariana, até que, há pouco mais de 18 anos, tomaram a decisão de emigrar para New Bedford, Massachusetts. Na altura, os filhos ainda eram menores e a escolha aconteceu com um objetivo claro: dar-lhes uma vida com mais oportunidades do que aquelas que sentiam estar ao seu alcance na ilha.

Apesar de viverem hoje de renda nos Estados Unidos, a casa na Fajã continua a ser sua propriedade. Mesmo à distância, a moradia está cuidada e ganha vida durante os verões. É ali que dormem quando regressam, que fazem os almoços de família e onde os netos, ainda muito pequenos, começam aos poucos a reconhecer como “a casa dos Açores”. Com o passar do tempo e com os filhos a formarem as suas próprias famílias, o regresso à ilha tornou-se menos garantido, mas nunca deixou de ser essencial para o casal Ana Maria e Duarte Almeida. “Tentamos vir todos os anos. Só não conseguimos mesmo no tempo do Covid”, conta. “A América é onde moramos. Aqui é onde pertencemos.”

O filho mais velho, Miguel Almeida, tem 35 anos. Cresceu em São Miguel até à adolescência. Hoje, regressa com a mulher, Amber, e com a filha pequena. Recorda-se bem dos dias passados a andar de bicicleta por trilhos improvisados no meio das árvores, como se fossem pistas de BTT, ou das tardes em que fazia parkour pelos muros e caminhos da freguesia. “A ilha era o nosso recreio. Estava sempre com amigos, a inventar coisas, a explorar. Não havia internet, mas havia liberdade.” Atualmente, é ele quem mostra esses mesmos lugares à filha. “Quero que ela saiba de onde vimos. Que veja o que eu vi, que sinta o que senti. Mesmo que não viva aqui, quero que a minha filha saiba que isto também é dela.”

As raízes também se ensinam

Para Miguel Almeida, regressar a São Miguel, no verão, não é só voltar a casa. É mostrar à descendência onde tudo começou. Nascida nos Estados Unidos, a filha fala inglês em casa e chama “grandma” à avó. Este ano voltou com a mulher, Amber, e a filha com um propósito claro: mostrar-lhes as Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, que acontece na 5ªsemana a seguir à Páscoa, ou seja, entre os dias 8 e 11 de maio. Para o emigrante açoriano, é muito importante transmitir à família a devoção e a energia do evento, mas também o que significa pertencer a este lugar.

“A ilha era o nosso recreio. Estava sempre com amigos, a inventar coisas, a explorar. Não havia internet, mas havia liberdade.”

Nos Açores, não é o lugar que muda, mas sim a calmaria como se vive. Os sons são outros, o ar é mais húmido e a paisagem fala baixo. Luna sorri quando o automóvel entra na Rua Direita da Fajã de Baixo, onde outrora o pai fazia trilhos de bicicleta. Fica em silêncio ao ver as vacas na berma das estradas que percorrem, como se estivesse a tentar compreender um mundo que sempre esteve à sua espera.

Nos primeiros dias, tudo é novidade: o som dos sinos das igrejas, os cumprimentos de estranhos na rua, a chuva que vem e vai sem aviso, como só acontece nos Açores. Mas há pequenos gestos que começam a enraizar-se sem esforço. Luna quer saber o nome de tudo, repete palavras com sotaque estranho, segura as nêsperas com as duas mãos como se fossem preciosas. Ouve com atenção quando alguém lhe diz que é parecida com o pai em pequeno e franze o nariz com curiosidade, quando sente o cheiro dos chicharros fritos a sair da cozinha.

Luna entra e sai da casa da avó como se fosse dela. Senta-se no sofá como quem já o conhece, pede bolo lêvedo ao lanche e corre no quintal como se já o tivesse decorado. Nesse momento, é impossível não lembrar as gerações anteriores que também por ali correram: os pais, os tios e os primos que cresceram entre aquelas paredes e entre aquelas árvores, a brincar até ao fim da tarde. Há algo de circular naquele gesto, como se a infância estivesse a ser devolvida à casa, noutro corpo, noutro tempo. “Ela não percebe tudo, mas sente que isto é dela. E isso basta para ficar”, diz Miguel Almeida.

Entre o som das festas e o cheiro da terra

Nem todos os regressos são compostos de silêncio e emoção contida. Alguns são mais barulhentos, como os de Luís Cardoso, que vive em Vancouver, no Canadá. Não recorda ao certo há quantos anos está emigrado, mas sabe de cor há quantos verões volta aos Açores: “todos”. “Sou o terceiro a chegar às Sanjoaninas. Às vezes, até antes dos de cá”, afirma, com um sorriso de satisfação. Não é da Terceira, mas não perde as festas por nada. Entre 19 e 28 de junho, Luís Cardoso mantém-se pela cidade de Angra do Heroísmo. E mesmo em São Miguel, onde passa grande parte do verão com a família, ninguém o trata como forasteiro.

“Lá é tudo muito certinho. Aqui, é tudo mais solto. Mais nosso”, resume, com um sotaque atravessado e os olhos a brilhar.

Para este emigrante, voltar corresponde a reencontrar o cheiro da comida, os amigos de infância, as vozes que não se ouvem lá fora. É um verão vivido mais alto, mais junto, mais ruidoso. E é isso mesmo que procura: a confusão boa da família, o barulho das festas, a liberdade de ser como se é. “Lá é tudo muito certinho. Aqui, é tudo mais solto. Mais nosso”, resume, com um sotaque atravessado e os olhos a brilhar.

Nos Açores, o verão não é só uma estação. É um regresso coletivo. Um tempo que junta o que ficou com o que partiu, o que é lembrança e o que é presente. Cada voo que chega traz uma história e um reencontro com o passado no presente. Uns regressam pelo cheiro, muitos pelas pessoas e outros pelas festas. Mas todos regressam por dentro.

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