Um terreno por plantar e dezenas de pessoas com um projeto em mente: uma mini-floresta. A URBEM é uma ONG ambientalista em Lisboa, que propõe reflorestar várias zonas da cidade através do método japonês Miyawaki. Da criação das bacias de retenção de água, à redução dos impactos das ondas de calor e até do ruído, as vantagens das mini-florestas numa capital urbana podem ter um impacto significativo não apenas na mitigação das alterações climáticas, mas também na reaproximação das comunidades.

António Alexandre, biólogo e membro da direção da URBEM, já esteve na Indonésia a estudar orangotangos, mas foi em Portugal que decidiu “juntar o útil ao agradável” e unir-se a projetos de reflorestação urbana. O especialista explica o método da URBEM
e os desafios logísticos por trás do projeto que “existe para as pessoas, mas também por causa das pessoas”.
A URBEM quer plantar “uma floresta em cada freguesia”. Partindo deste princípio, de onde surgiu a necessidade para que isto acontecesse? O que inspirou a criação da URBEM ?
A URBEM nasceu da intenção de reconectar as pessoas com a natureza nas cidades. Há cada vez mais pessoas nas cidades, há cada vez menos espaços verdes e há uma relação, agora a nível científico e mesmo prático, das pessoas estarem envolvidas com a natureza. A URBEM nasce um pouco dessa ideia de fazer isso e, como tal, utiliza como ferramenta as mini-florestas.
As mini-florestas começaram a acontecer em 2021, na Faculdade de Ciências, quando eu e outro colega desenvolvemos a FCULresta, que serviu como inspiração para várias associações, incluindo a URBEM. Foi nessa altura, depois de a Sasi ter criado a URBEM poucos meses antes, que eu depois comecei a colaborar com eles. A ideia de fazer mini-florestas nas juntas de freguesia parte do nosso entendimento de que esses tipos de espaços são úteis para se fazer em quase todos os contextos. Temos em escolas, em universidades, em hospitais, mas com as juntas de freguesia é interessante porque é um nível de complexidade aceitável, no sentido de, por exemplo, quando se trabalha com uma Câmara Municipal, torna-se muito complexo tomar as decisões, então é uma coisa mais local. As juntas de freguesia permitem criar espaços que são abertos ao público. A nossa intenção é simbólica quando dizemos que queremos fazer em várias juntas de freguesia. É uma forma de dizer que queremos fazer e espalhar o conceito por Lisboa.

E como é que funciona na prática? Qual é que é o primeiro passo para surgir uma mini-floresta?
Geralmente, o que é necessário primeiro é ter uma ideia de um espaço. Geralmente vem de uma junta de freguesia, uma universidade ou alguém que vem até nós e diz: “nós temos este local aqui, gostaríamos de fazer alguma coisa com isso’. Pode
vir, muitas vezes, de moradores numa certa zona de Lisboa ou de outra zona da cidade, que vêem um local que tem potencial e entram em contacto connosco. Muitas vezes o nosso trabalho é ser a ponte entre a comunidade e as instituições. Quando temos um local definido, começamos a fazer o trabalho de envolvimento comunitário, com algumas sessões com o público. A primeira sessão passa por falar sobre as mini-florestas, o método Miyawaki, que dá origem às mini-florestas.
Depois, vamos para o local onde vamos fazer a floresta e começamos a fazer o design do espaço com as pessoas. Damos muito valor a essa parte toda deste envolvimento antes de se plantar, porque se nós queremos que as pessoas cuidem e se mantenham e
que esse trabalho faça parte da vida delas, não podemos pedir que as pessoas vão lá só plantar e depois vão cuidar. As pessoas só sentem essa ligação quando sentem que estão envolvidas em todo o processo. Nós tendemos a discutir basicamente todos os
passos com a comunidade. Levamos as pessoas para o terreno para preparar o espaço, que geralmente tem a ver com marcar caminhos, eliminar espécies invasoras, criar valas de infiltração, trazer recursos como composto, cobertura de solos e fazemos a
plantação. Tendemos sempre a fazer entre novembro e janeiro, que é a altura que chove mais, porque queremos aproveitá-las ao máximo.
A ideia deste tipo de projetos é que, ao final de três anos, fiquem independentes de manutenção, diga-se de rega, então é importante ser plantada na altura certa. Depois de ser plantado, ficamos três anos com a comunidade, em regime ou semanal, ou
quinzenal ou mensal, onde vamos com a comunidade desenvolvendo atividades lá, que passam desde a manutenção do espaço, a remoção de ervas, a recolha de sementes, a fazer propagação, a fazer outras plantações, atividades como alguns workshops. A intenção é realmente conectar as pessoas com a natureza. Não é suficiente uma pessoa ir um sábado de manhã plantar uma planta e ir-se embora e nunca mais se lembrar. A forma que temos de fazer isto é muito mais exigente a nível de tempo e energia, porque seria muito mais fácil chamar as pessoas só para plantar e eu decidir tudo, mas isso perde o potencial que tem de colaboração.
E mantém de alguma forma as pessoas unidas…
Sim. Até porque, muitas vezes, o que acontece nas cidades é que há muita gente que vem de zonas rurais, especialmente malta mais velha. Quando tem este tipo de oportunidades, acaba por se querer envolver bastante, o que cria espaço muitas vezes para aquilo que se chama de uma interação intergeracional dos mais jovens com os mais velhos. É como a comunidade devia ser e que muitas vezes na cidade vai-se perdendo um pouco, com todas as ferramentas digitais e o isolamento que se sente nas cidades.
Muitas vezes o que acontece é que as juntas ou as câmaras querem envolver as pessoas e não sabem bem como, as comunidades querem fazer alguma coisa nos espaços que são públicos, mas não sabem bem como. Entramos aqui como uma peça no meio para tentar ligar os dois.
Em que é que consiste este método Miyawaki?
É um método de reflorestação. O foco disto é regenerar e criar uma floresta que fosse mais parecida ao que estaria naquele local há 200, 300 anos atrás ou 400 anos atrás. A ideia é tentar fazer este processo de reforçar, mas acelerando um pouco.
Por exemplo, se quisermos criar uma floresta mais paristina, fazer algo que parecesse com o que havia cá em Portugal há 500 ou 1000 anos atrás, se abandonarmos uma área, especialmente uma zona rural, este processo demora geralmente 200 a 300 anos
pelo menos, até que conseguimos ter alguma coisa mais parecida com isto. Ou seja, são processos muito longos.
O método Miyawaki sugere alguns passos que tentam reduzir isto para 30, 40 anos. Este método foi criado pelo professor Akira Miyawaki, um botânico na Universidade de Oklahoma, no Japão. Embora tenha vários passos, posso resumir em cinco coisas fundamentais. Perceber o solo que se tem e melhorá-lo, porque o solo é a parte fundamental para tudo o resto. Tudo o que vemos das plantas e depois do resto da biodiversidade animal e de fungos vem do solo. O segundo ponto tem a ver com o uso de plantas nativas. É o entendimento de que as plantas nativas são mais resilientes, portanto mais adaptadas ao nosso clima, à nossa época de chuvas, à nossa época de calor. Conseguimos, ao final de três, quatro anos, “abandoná-las”, e deixá-las crescer por si, sem a necessidade de irmos regar, porque nas cidades muito do que é usado de água para regar ou para limpar as estradas é água potável, e não podemos continuar, num contexto mediterrâneo que no futuro vai estar cada vez mais seco, a fazer isso.
Depois, entender que uma floresta é uma estrutura complexa, e que uma floresta não são só árvores. Plantamos árvores, arbustos, pequenos arbustos, herbáceos e trepadeiras. Plantamos estes cinco estratos, a imitar o que seria uma floresta no futuro,
mas numa fase inicial mais “bebé”. A parte que mais diferencia o método Miyawaki dos outros métodos de reflorestação é a densidade de plantação. Em cada metro quadrado estamos a plantar, por exemplo, um arbusto, uma herbácea e uma trepadeira, e noutro quadrado ao lado já podemos plantar uma árvore, um arbusto e uma herbácea. Basicamente vamos fazer um
mosaico de quadrados, de um metro por um metro, com esta densidade. Quando vamos a uma floresta e vemos aquelas árvores todas, a cada ano, cada uma daquelas árvores dá, vamos imaginar, cem sementes.
Das cem sementes, se calhar dez germinam, duas no final vão estar prontas para um dia esperar que a mãe caia e elas
consigam ocupar o seu lugar. Se multiplicarmos isto pelo número de plantas que há numa floresta, vemos que há uma abundância enorme de plantas e de diversidade.
O que é isso significa?
Quando estamos a plantar, por exemplo, mil plantas, não estamos à espera que as mil plantas sobrevivam, mas estamos à espera que, ao final de três ou quatro anos, 700/750 estão vivas e essas sim vão ser capazes de dar sementes e continuarem-se a propagar e a multiplicar-se pelo nosso cuidado.
Vimos agora nesta tempestade que muitas árvores que caem são em locais que não têm mais vegetação por baixo, ou têm pouca vegetação, então as árvores basicamente são a primeira parede que leva com esse vento. Não é algo que acontece tipicamente em florestas mais maduras. Por último, como o Miyawaki também sugeria, mas aqui reforçamos muito, há a parte da comunidade, do envolvimento comunitário, estar com as pessoas. Nestas cidades, os espaços são para a natureza, mas também são para as pessoas. Por isso é que fazemos florestas que têm caminhos para as pessoas andarem, têm clareiras para as pessoas estarem, fazerem workshops, para haver esse envolvimento. Não são retângulos de vegetação, são uma possibilidade de o ser humano interagir.
Quando tempo leva a construir uma mini floresta?
Nós demoramos mais ou menos seis a nove meses de preparação até se plantar, e depois de plantar ficamos mais ou menos três ou quatro anos.
E a evolução dessas mini florestas tem sido a que vocês esperam?
Sim. A florestação mediterrânea, em comparação com outros locais do mundo onde isto é feito, cresce muito lentamente. Portanto, muitas vezes, por muito que queiramos acelerar, o crescimento não é o mesmo que acontece, por exemplo, nas zonas tropicais.
Não depende de vocês…
Não. Há coisas que dependem, por exemplo, na parte do solo. O método sugere irmos a um sítio, retirarmos um metro de profundidade do solo e criarmos um solo novo. Um solo novo, que é mais, vou simplificar, fofinho, de mais qualidade, permite
quando plantarmos, que cresçam mais rapidamente. Muitas vezes isso, nas cidades, não é possível.
Em certas zonas de Lisboa, o solo é muito argiloso. É um tipo de solo, como temos ali na Bela Vista, que é o chamado verti-solo, que é um tipo de solo que, no verão, contrai e cria rachas, e no inverno se expande. Tem um comportamento que dificulta o
crescimento das raízes das árvores, por exemplo. Em certos contextos, a infestação está muito bem e as árvores demoram um pouco mais a desenvolver-se. A nossa floresta na Bela Vista já tem três anos e pouco, e já não estamos a regar. As árvores
agora, finalmente, ao final de três anos, conseguiram furar bem aquilo e estão a começar a ultrapassar tudo o resto e a fazer o formato de uma floresta.
A nível de crescimento e de sucesso, tem sido o que estamos à espera e tem estado de acordo com os números que estou a falar. Ao final de três anos, quatro anos, temos mais ou menos 70%, 75% de sobrevivência. Em comparação com o tipo de plantações
das câmaras, de um ano para o outro, às vezes 70%, 70% das plantas morrem. Acaba por ser um sucesso.

Projeto no Parque Casal Vistoso (junto ao Parque da Bela Vista)
Para além desta questão dos solos, quais são as maiores dificuldades em manter
um projeto sustentável destes em Lisboa?
Eu acho que o maior desafio para manter o espaço tem a ver com o investimento que se tem que dar a fazer este trabalho com a comunidade. Quando falamos de fazer trabalho com a comunidade, embora tenhamos eventos, por exemplo, todos os
sábados, em vários sítios de Lisboa com a comunidade, o trabalho não acaba aí. Durante a semana estamos a falar com as pessoas, a gerir grupos das várias comunidades, a responder a questões, a apoiar. Portanto, a nível de tempo e energia é muito exigente, mas acaba por ser muito mais resiliente, porque se começarmos a multiplicar o número de florestas e a ficar apenas dependentes, por exemplo, dos sete pessoas ou nove pessoas da URBEM, não se torna sustentável. A URBEM existe para
as pessoas, mas também existe por causa das pessoas.
Claro que também há desafios logísticos. Com câmara, juntas e tudo isso, porque, também os recursos humanos não são tão abundantes nas instituições, então há uma logística que é complexa, mas que se vai trabalhando e que se vai afinando à medida
que se vai trabalhando. À medida que o espaço se vai desenvolvendo, ficando cada vez menor o nível de manutenção e exigência e passa de uma fase de cuidado a nível físico de promoção de ervas ou regas, para uma fase de usufruir.
Vêem interesse por parte da população, não só em aderir, mas também de se manter ao
longo das semanas no projeto?
Sim. Nas florestas que temos, há voluntários que vão lá todos os sábados desde há alguns anos. Temos a direção da URBEM, e depois, temos sempre quatro ou cinco pessoas que vão todos os sábados a cada uma das florestas. Com essas quatro ou cinco pessoas, mais outros voluntários que aparecem, porque são pessoas que vieram e descobriram aquilo, ou são pessoas que já vieram uma vez, já não vinham há dois meses, as coisas vão-se fazendo. Há dias onde temos 50 ou 60 pessoas a trabalhar num
fim de semana, há outros dias temos 10 ou 20, depende um pouco. Também depende da altura do ano.
No geral, eu sinto que, cada vez mais, as pessoas, quando descobrem que aquilo existe, querem participar. E não é só ali, mas também nos projetos que eu também conheço e faço parte. Porque uma boa parte da população está ciente dos impactos das
alterações climáticas e vê, muitas vezes, nas cidades. Viram agora, com os tempestades, e, infelizmente, acho que vamos ver agora com os incêndios no verão, que há uma necessidade de fazer alguma coisa e que é um contributo que, já que está
ao pé da minha casa, e é um sítio que posso sair um pouco em vez de estar sempre fechado a trabalhar no computador, que, muitas vezes, acontece com as pessoas, e conseguirem conviver com outras pessoas, acaba por ser benéfico. Ainda assim, não se pode dar as pessoas como adquiridas e é importante cuidar delas ttambém, como elas cuidam do espaço.
Fazendo uma ponte para o impacto ambiental do projeto, em que medida é que reflorestar as áreas mais devolutas de Lisboa pode ter uma repercussão efetiva na sustentabilidade da cidade?
Uma das coisas mais óbvias tem a ver com a questão da água. O que acontece com as inundações é que temos muito solo que está impermeabilizado por estradas e passeios nas cidades. Quando chove torrencialmente, a água não se infiltra e escorre.
As florestas acabam por ser uma esponja de água nesse sentido. É aquela ideia das cidades-esponja, de criar várias bacias de retenção, vários espaços florestais para a água conseguir chegar lá. A água é uma coisa que eu acho que é
fundamental a nível da sustentabilidade da sociedade, económica e ambiental. Do ponto de vista da biodiversidade, criar pequenos focos de biodiversidade onde podíamos deixar crescer as plantas até ao ponto de elas darem flor e darem alimento
aos insetos e aos polinizadores e atrair outras partes animais, os fungos e as bactérias, é uma coisa que é importante.
Acabam também por dar um micro-contributo para o impacto nas ilhas de calor. Como está cimentado, o calor é cada vez maior nas cidades, e, então, a parte da vegetação está mais prestada, não é só mini-florestas, mas a vegetação no geral, pelas taxas de
evapotranspiração, pela sombra que fazem, diminuiem bastante a temperatura no local.
Pode ajudar bastante na redução do ruído. Eu, por exemplo, fiz uns testes que ainda não estão publicados na Faculdade de Ciências na FCULresta, e, ao final de cinco anos – porque na faculdade temos aviões a passar por cima por causa da rota do
aeroporto -, a floresta fez diminuir o ruído em dez decibeis. Não parece muito, mas faz bastante diferença quando estamos lá. A vegetação também acaba por atenuar isso. É especialmente útil numa cidade como Lisboa, que é das poucas da Europa que tem um aeroporto no seu centro.
Depois, a nível da melhoria do solo. Hoje em dia, a Lei Europeia do Solo, que foi passada em 2025, que exige aos Estados membros que melhorem a qualidade do seu solo, engloba também as zonas urbanas. Pôr vegetação, cuidar do solo, proteger a vida
que lá está, acaba também por melhorar o solo. Também a questão da melhoria da qualidade do ar. Sabemos que a vegetação, as
florestas, conseguem, basicamente, capturar e trazer para baixo, quase para o solo, as camadas de poluição, portanto, melhoram a qualidade do ar. E, depois, aquela parte toda da sustentabilidade humana, da parte do bem-estar das
pessoas, fisicamente e mental.
Há algum dado que mostre que essas mini-florestas têm um impacto positivo na
saúde das pessoas?
As mini-florestas em si, eu creio que não, porque a ideia de utilizá-las quase como uma coisa terapêutica, é feita, mas que eu saiba não é feita com esta visão há tanto tempo. Há pouca informação, mas talvez possa haver na Holanda, que já tem algum trabalho
mais antigo. É muito por observação e por saber também que há muitos artigos científicos que falam da relação das pessoas com a natureza. Portanto, se equipararmos aqui, de uma forma muito rápida, a palavra natureza com mini-florestas ou jardins ou hortas comunitárias, eu diria que existe evidência para isso. Há informação acerca do sucesso das plantações, da melhoria do solo, mas esta parte da componente humana é um pouco mais difícil, é mais complexa de medir do que fazer medições do solo e ter números. Mas é uma coisa que eu estou a trabalhar agora para o doutoramento também, por isso pode ser que daqui a dois anos
tenhamos alguma informação sobre isso.
O Governo tirou da gaveta o Programa de Ação para a Resiliência e Restauro da Natureza em Áreas Urbanas, que pretende criar mil hectares de espaços verdes nas cidades portuguesas num prazo de dez anos. A URBEM consegue de alguma forma ajudar a alcançar este objetivo?
Não temos nenhuma colaboração direta com o Governo. Temos parcerias conjuntas com a Câmara de Lisboa. O nosso contributo acaba por ser ir fazendo mini-florestas pelos vários espaços de Lisboa, porque muitas vezes a noção dos espaços verdes pode ser um pouco enganadora. Um relevado também é um espaço verde, mas a nível de biodiversidade e envolvimento comunitário, é muito mais fraco do que fazer mini florestas ou fazer jardas comunitárias, ou fazer prados de flores silvestres.
Eu diria que estamos atentos a isso. É uma coisa com que gostaríamos de colaborar. Às vezes há reticência das instituições portuguesas acerca de métodos que não são de cá, ou seja, há uma parte de ego que faz parte da população das pessoas e da cultura. Mas temos vindo a fazer o nosso trabalho um pouco mais em conjunto com escolas. Temos uns cinco ou seis projetos em que estamos à espera de respostas para multiplicar no próximo outono e inverno. Instrumentamos sete mini-florestas em
Lisboa e pode ser que, para o ano, tenhamos mais de dez.
Qual a vossa relação com a autarquia? Tem sido uma ajuda ou tem sido um entrave aos vossos projetos?
A Câmara Municipal de Lisboa foi a nossa primeira parceira, mas é uma estrutura muito hierarquizada e muito complexa. Temos relações mais próximas com as juntas, porque é mais local, mais fácil de falar com o presidente. Nunca na vida conseguiria falar com o presidente da Câmara de Lisboa, mas consigo falar com o presidente da Junta do Areeiro. São escalas diferentes de ação.
Acho que a Câmara tem vindo a inspirar-se nessa ideia das bacias de infiltração, foi o que eles fizeram na Praça de Espanha. Na altura o vereador Sá Fernandes, visitou lá a faculdade, ficou muito interessado e depois, passados uns anos, fizeram bacias de
infiltração como temos na faculdade. Acho que eles estão atentos ao que é que está a acontecer nessa ótica.
Sendo tu biólogo e, como referiste, já tendo criado vários projetos deste género, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, porque é que continuas interessado nestas alternativas e a trabalhar ativamente para a
reflorestação urbana?
Eu comecei na área da permacultura na Faculdade de Ciências com o projeto HortaFCUL em 2009 e sempre trabalhei muito com crianças e adultos na parte da questão ambiental e das hortas. Mas a minha paixão foi a parte do comportamento animal. Quando acabei o curso, fui para a Indonésia estudar orangotangos, que era o que eu queria fazer. Depois percebi que, na verdade, não conseguia fazer nada pelos animais porque os problemas lá são sociais e económicos que têm a ver com a resflorestação da floresta, coisa que eu não consegui controlar. Isso frustrou-me e quando voltei percebi que fazia sentido tentar criar bases a nível de cuidar de florestas e cuidar de espaços. Comecei a trabalhar com pessoas, e acho que é importante este trabalho com as pessoas. É um pouco por isso que mantenho a fazer isto que eu faço. Há realmente uma grande mais valia em criar espaços com as
pessoas, porque muitas vezes os conflitos que vemos, internacionais, de guerras, e é por falta de tolerância e de cooperação. Este tipo de espaços permitem a cooperação e a interação entre várias pessoas que são de culturas diferentes, têm ideias diferentes e
permite a uma micro escala resolver alguns destes conflitos que passam por aí enquanto estamos a criar espaços verdes.
Tenho um grande prazer porque já vi vários projetos, desde 2009, desde a plantinha bebé até plantas que estão muito maiores do que eu. Tenho muito prazer em ver esse processo de crescimento e desenvolvimento das coisas, e se puder ser feito com
pessoas, melhor ainda.
É juntar o útil ao agradável…
Até porque, na verdade, vivo numa cidade. Eu queria fazer uma coisa na Indonésia, na selva, mas vivo numa cidade, em Almada, em Lisboa. Faz sentido agir onde estou e agir com as coisas que eu sei, com a parte da biologia e a parte comunitária. Gosto de
estar com as pessoas e de fazer esse trabalho de desenvolvimento. Como dizes, juntar o útil ao agradável.