Ao longo dos tempos, a cozinha esteve confinada ao espaço doméstico, associada à rotina, à repetição e à transmissão de saberes entre gerações. Era um lugar de intimidade, onde o gesto culinário se desenvolvia longe do olhar público. Hoje, esse espaço expandiu-se. Cozinhar ganhou palco, audiência e enquadramento mediático. Preparar um prato implica lidar com expectativas externas, comunicar através de escolhas e responder a um olhar que observa, avalia e interpreta. A prática culinária torna-se visível, sujeita a julgamento e integrada numa lógica de consumo cultural que ultrapassa o simples ato de comer.
Programas como o MasterChef ilustram de forma clara essa mudança. Mais do que um concurso culinário, o formato constrói-se a partir da articulação entre técnica, emoção e narrativa e transforma o ato de cozinhar numa experiência mediática envolvente. Como demonstram os investigadores brasileiros na área de estudos de comunicação e semiótica, Carlos Eduardo Marquioni e Fernando Andacht, o interesse não reside apenas no resultado, mas no percurso que conduz até ao final. Provas exigentes, pressão psicológica e histórias pessoais organizam cada episódio como uma sequência cuidadosamente estruturada para captar e manter a atenção do público. O prato deixa de ser um fim isolado e passa a integrar uma narrativa ampla, frequentemente associada à construção de uma identidade individual.
Este fenómeno insere-se numa transformação cultural mais vasta. Mario Vargas Llosa, na obra A Civilização do Espetáculo, descreve a contemporaneidade como marcada por uma crescente valorização do entretenimento e por uma cultura orientada para o imediato, o acessível e o visível. Neste contexto, emerge a ideia de uma cultura “light”, caracterizada por formas de consumo rápidas, centradas no impacto imediato e adaptadas a ritmos acelerados. A experiência tende a ser simplificada e privilegiar a perceção instantânea em detrimento da profundidade prolongada.
Neste enquadramento, práticas quotidianas passam a ser avaliadas pela sua capacidade de gerar atenção e produzir efeitos no público. Não se trata necessariamente de uma perda de conteúdo, mas de uma reorganização das prioridades. O tempo comprime-se, a perceção torna-se mais direta e a necessidade de distinção ganha centralidade. No caso da cozinha televisiva, esta lógica traduz-se numa exigência constante de diferenciação, em que a apresentação e a capacidade de surpreender assumem um papel determinante na forma como os pratos são concebidos e avaliados.

Joaquim Silva, vencedor da edição de 2026 do MasterChef Portugal, reconhece esta dinâmica no funcionamento do programa com exibição na RTP. Para o concorrente, a forma como o prato se apresenta assume um papel determinante na perceção inicial. “O primeiro impacto é visual”, afirma. Antes de qualquer avaliação degustativa, existe um momento de apelo estético que condiciona a interpretação do prato. Como aponta: “Cozinhar em televisão implica considerar não apenas o sabor, mas também a forma como esse resultado é recebido num primeiro contacto.”
A comida acompanha esta transformação. Para além da sua função básica, ganha uma dimensão simbólica evidente. Como observa Diganta Bhattacharya no artigo The MasterChef Journey to Brain through Stomach, cada prato pode ser entendido como um ponto de encontro entre cultura, identidade e mercado. Cozinhar passa a envolver uma dimensão performativa, em que o prato é concebido também como objeto de apresentação e interpretação. Cada preparação transporta uma narrativa sobre quem cozinha, de onde vem e que referências mobiliza.
Cozinha de autor
É aqui que a cozinha se aproxima de uma lógica de autor. Criar implica afirmar uma identidade e encontrar uma forma própria de se posicionar num espaço cada vez mais competitivo e exposto. A autoria não reside apenas na inovação, mas na capacidade de construir uma linguagem reconhecível, capaz de comunicar algo para além do prato em si.
O MasterChef não origina esta transformação, mas intensifica-a ao enquadrar a prática culinária dentro de uma lógica televisiva. A limitação do tempo, a avaliação contínua e a exposição pública criam um ambiente exigente, onde o destaque do indivíduo se torna central. A cozinha surge como um espaço simultaneamente competitivo e expressivo, no qual os participantes constroem e afirmam a sua identidade perante um público alargado.
Quem passa pelo programa reconhece essa dimensão. Rui Lemos, vencedor da edição de 2023, descreve a experiência como uma versão intensificada de si próprio, consciente de estar a ser observado. “Era eu próprio, mas um bocado mais”, descreve o chef, que além de cozinheiro se identifica como artista. O que surgiu por interesse pessoal ganhou outra dimensão, exigindo maior atenção à forma como o prato é pensado, executado e apresentado.

Cozinhar sob o olhar das câmaras
Ao tornar a cozinha mais visível, o programa contribui para a sua reconfiguração. O que chega ao público corresponde a uma prática mediada, organizada segundo códigos específicos da televisão. Tudo é integrado numa narrativa que privilegia impacto, ritmo e envolvimento emocional da ótica do espectador: dos gestos que são enquadrados aos pratos que adquirem um valor comunicativo que ultrapassa a dimensão material.
Esta transformação é reconhecida pelos participantes. Joaquim Silva descreve a experiência como algo que ultrapassa o saber e a execução técnica. “Cozinhar implica interpretar, adaptar e surpreender. Se pudermos fazer um prato tradicional português, mas inová-lo, então conseguimos fazer aí um ato perfeito.” O desafio não está em reproduzir o esperado, seja um prato de assinatura de um elemento do júri ou apenas um prato conhecido, mas em reinventar o que é familiar aos olhos da maioria, tornando-o relevante num contexto de forte exposição. Neste processo, a criatividade assume um papel central, permitindo construir uma assinatura própria dentro de um ambiente altamente competitivo.
Rui Lemos acrescenta uma perspetiva complementar. Para o chef, o espetáculo não é, por si só, problemático; a questão reside no conteúdo que o sustenta: “A televisão tem um pressuposto logo à partida que temos que perceber: tem de vender.” Quando bem articulado, o enquadramento televisivo pode revitalizar o interesse pela gastronomia e incentivar práticas fora do ecrã. A exposição não empobrece automaticamente, mas depende da forma como é utilizada e do equilíbrio entre forma e conteúdo.

A exposição altera, no entanto, a forma como os pratos são pensados. A apresentação ganha peso na perceção inicial, embora não substitua o critério fundamental do sabor. “Não contam tanto como o sabor, mas contam muito”, refere Rui Lemos. Um prato visualmente apelativo pode captar atenção, mas só se sustenta se corresponder em termos gustativos. Ainda assim, no contexto televisivo, a dimensão visual torna-se inevitável, funcionando como ponto de entrada para a experiência.
Tal como em qualquer formato televisivo, o MasterChef procura responder às expectativas do seu público-alvo e atingir as métricas desejadas. Como explica Joaquim Silva: “É preciso agarrar as pessoas ao sofá. As audiências ficam presas ao que é intenso.” A prestação dos concorrentes influencia a perceção de quem vê e, consequentemente, tem um impacto direto nas audiências. Existe uma componente de espetáculo necessária para manter o interesse e garantir a continuidade do formato.
Os próprios chefs contribuem para essa dimensão. Conscientes deste enredo, adotam um discurso intenso e emocional. O objetivo não é o drama em si, mas a forma como este se integra na narrativa do programa. Joaquim Silva recorda as palavras, que de amor ou ódio, ditas pelo júri aquando das avaliações dos seus pratos: “Por que é que acham que os chefs (o júri) falam assim? Falam daquela forma porque também estão a dar espetáculo.”

O vencedor do último Masterchef dá também o exemplo da “Pantera”, o peluche que, por ideia da filha, levou consigo, como amuleto da sorte. Um elemento aparentemente simples acabou por ganhar relevância, criando um ponto de ligação com o público e reforçando a dimensão narrativa da sua participação.
A necessidade de captar atenção influencia também o tipo de cozinha apresentado. No caso do MasterChef Portugal, a presença de pratos tradicionais não resulta apenas da intenção cultural de cada concorrente, mas também de escolhas editoriais orientadas para a construção narrativa. Existe uma narrativa ligada aos pratos que cada concorrente escolhe trazer para o programa, sobretudo no início de cada temporada: do norte ao sul do país, os mais variados tipos de gastronomia mostram-se no programa a propósito de contar a história de cada concorrente, com o objetivo de impactar e causar empatia em quem assiste. Como explica Joaquim Silva: “O MasterChef é um programa que tem que dar impacto para a sociedade, não só para dentro do país, mas também para fora do país.” A seleção da cozinha portuguesa surge enquadrada por essa lógica de enquadramento mediático. Ainda assim, o que chega ao ecrã corresponde a uma escolha e reorganização dessas referências, ajustadas às exigências do formato televisivo.
A cozinha deixa de ser apenas uma questão técnica e passa a integrar uma lógica de diferenciação. Destacar-se implica construir uma identidade reconhecível e assim abrir espaço à valorização da cozinha de autor.

A afirmação da identidade na cozinha
É neste ambiente que a cozinha de autor ganha importância. Num espaço onde os participantes partem de condições semelhantes, a diferença surge na capacidade de criar algo identificável como próprio, como uma imagem de marca. A noção de cozinha de autor surge, neste contexto, associada à responsabilidade criativa e à afirmação individual. Para Joaquim Silva, essa autoria traduz-se numa ligação direta entre quem cozinha e o que é apresentado no prato. “Fui eu que criei esta receita” e “eu sou o dono da receita” são expressões que sintetizam essa ideia de pertença e identidade. Mais do que executar técnicas ou seguir referências, cozinhar implica assumir decisões, construir um resultado próprio e reconhecê-lo como extensão de si enquanto cozinheiro.
Rui Lemos amplia esta perspetiva ao afastar a cozinha de autor de uma lógica de pertença rígida. Para o chef, não se trata de seguir tradições fixas, mas de construir combinações que façam sentido no prato. “Não faz parte de nenhuma gastronomia específica. São os sabores que acho que combinam.” A criação aproxima-se de uma lógica mais intuitiva e pessoal, em que a coerência resulta da articulação entre elementos diversos. Ainda assim, esse processo mantém um critério fundamental: “Precisa de saber bem”, sublinha o vencedor da edição de 2023.
Neste contexto, o MasterChef Portugal funciona como um impulsionador da cozinha de autor, ao permitir aos concorrentes alguma margem de expressão. Excetuando provas com critérios definidos, o programa incentiva a construção de uma abordagem própria. Como refere Rui Lemos: “O que eles procuram é que nos encontremos enquanto cozinheiros e que façamos aquilo que acreditamos ser o melhor.” O objetivo não é apenas demonstrar competência técnica, mas afirmar uma identidade enquanto cozinheiro num espaço altamente visível.
Criar implica risco e o erro é imediatamente avaliado. A criatividade é incentivada, mas enquadrada por regras, expectativas e restrições temporais, dada a natureza competitiva do programa. Como foi repetidamente afirmado no programa, “quando não sabes, não inventas”. Existe uma tensão constante entre expressão individual e controlo externo. Cada decisão é tomada considerando um contexto em que tudo é observado, editado e interpretado. A prática culinária transforma-se num processo simultaneamente criativo e estratégico, onde a intuição convive com a necessidade de adaptação. No entender de Joaquim Silva, o programa trouxe uma mudança importante: “uma relação mais consciente e respeitosa com os alimentos, marcada por maior atenção ao detalhe e ao processo.” Já Rui Lemos não identifica uma transformação tão evidente, considerando que a sua ligação à cozinha já era sólida antes do programa. “A experiência acrescentou contexto e projeção, mas não alterou a forma como me relaciono com a comida.”
A cozinha em horário nobre revela-se simultaneamente prática e construção mediática. A presença das câmaras não altera o gesto de cozinhar, mas transforma o modo como esse gesto é enquadrado e recebido, na lógica da audiência. Cozinhar deixa de ser apenas um ato funcional e passa a fazer parte de uma lógica em que o valor do prato não se esgota no que é servido, mas também no que comunica. No entanto, cozinhar em televisão não é menos real. É mais exposto, mais condicionado e sujeito a leituras e interpretações. É essa exposição que marca a mudança: o que antes acontecia no espaço privado passa agora a integrar um sistema público, mediado e competitivo.