Como as redes sociais transformaram o consumo mediático

A forma como acedemos à informação mudou de forma irreversível. Se antes a rádio, a televisão e os jornais determinavam os temas do dia, hoje é o algoritmo que decide o que vemos e quando. Esta transformação não só alterou os hábitos de consumo da população, mas obrigou os media a reinventarem-se. Alguns especialistas em comunicação e psicologia explicam como é que o algoritmo está a moldar a sociedade

Ao longo das últimas décadas, o panorama de consumo de informação e media sofreu transformações profundas, impulsionadas por avanços tecnológicos, pela massificação da internet e pela ascensão das redes sociais. Entre 2010 e 2018, a circulação de publicações periódicas impressas (jornais e revistas) caiu de 62,1 exemplares por habitante para 22,6, como aponta Joaquim Fidalgo, investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), da Universidade do Minho, no artigo “Impoverished media struggling for survival”. Este decréscimo evidencia a erosão lenta, mas contínua do suporte em papel, em paralelo com o crescimento da oferta digital.

Na década de 2010, a televisão continuava a ocupar um lugar central. Em estudos da Universidade Lusófona, verificou-se que 88% da população portuguesa consultava notícias semanalmente online e 82% via televisão como fonte de notícia. Nesta altura, a evolução da internet e o acesso tecnológico sofreram uma forte aceleração e as redes sociais começaram a assumir um papel relevante como meios de acesso à informação ou como plataforma de difusão de conteúdos jornalísticos.

O relatório “Digital 2024 – Portugal” revela que, em janeiro desse ano, havia cerca de 7 milhões de pessoas ativas em redes sociais, em Portugal. Paralelamente, os media impressos apresentavam quedas acentuadas. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2022, a circulação total de jornais, revistas e outras publicações periódicas impressas diminuiu 12,3% e as vendas de exemplares em papel recuaram 10,5% apenas em dois anos.

Os números permitem perceber a queda abruta das tiragens em papel e a diminuição da audiência dos media tradicionais, o que obrigou à sua constante adaptação e reinvenção, quer no digital como na forte aposta em formatos multimédia.

Quem controla a informação?

Hoje, o que cada utilizador vê no ecrã já não é definido por redações ou editores, mas por algoritmos que selecionam conteúdos com base nos cliques, gostos e padrões de navegação. Como resume Sophia Cardim de Melo, diretora de comunicação da agência Strawberry, “as redes sociais trazem a informação de forma curta e provocativa, com o intuito de chamar o utilizador”.  O resultado é a criação de bolhas informativas, onde cada pessoa vê apenas versões filtradas da realidade. “O algoritmo é entediante. A pessoa sente que está sempre a ver o mesmo”, comenta, apontando para “a falta de diversidade nos feeds“.

Em paralelo, a produção de conteúdos deixou de ser exclusiva dos meios tradicionais. “As redes sociais democratizaram a informação.” Com um telemóvel, qualquer pessoa pode criar vídeos, opiniões ou análises. Esta possibilidade abriu portas para novas vozes, mas também para um espaço onde entretenimento e informação se confundem: “Há uma nova produção de conteúdos de influencers, em que começaram a criar uma realidade de informação e entretenimento ao mesmo tempo.” Essa democratização trouxe também riscos, sobretudo, no campo da desinformação. Sophia Cardim de Melo considera que “tudo o que for de política e factos é um problema”. E pior: “as fake news espalham-se e as pessoas tomam posições ideológicas com base nisso”. Durante a pandemia, o impacto foi evidente: “Na Covid, houve muita desinformação. Inventaram coisas só para criar o caos.”

Perante este cenário, os meios tradicionais são obrigados a alguma plasticidade. “Se não se adaptarem, vão morrer. A maior parte tem conseguido fazer a transição”, indica. Exemplos como o The New York Times, nos Estados Unidos,  mostram que é possível modernizar sem perder rigor: “Adaptaram-se à nova realidade, mas não deixaram de criar conteúdo fiável.” No entanto, a profundidade continua a depender do utilizador. “Uma pessoa sensata deve ter o interesse de ver os dois lados da informação”, defende. E acrescenta: “Com acesso a tudo facilmente, tem de haver uma vontade intrínseca para saber mais.”

Num ambiente dominado por métricas, likes e algoritmos, um conselho permanece relevante para criadores e consumidores: “Postar conteúdo que não agrega valor não faz sentido. A qualidade deve vir antes da quantidade.”

A face oculta das redes sociais

As redes sociais tornaram a informação mais rápida e acessível, mas essa velocidade tem custos. “O lado bom é a rapidez com que temos informação, mas em excesso torna-se prejudicial”, explica a psicóloga Celeste Simões. Para os mais jovens, essa rapidez significa também superficialidade: “Já não têm curiosidade de ir procurar as notícias a fundo.” O impacto emocional é evidente. “A dopamina é o principal fator de desequilíbrio”, afirma a especialista, alertando que “o estímulo constante cria dependência”. E essa dependência atinge todos: “O vício não tem idade. Os adultos têm os mesmos problemas que os mais novos.”

A comparação social agrava o problema. “A maioria das pessoas usa as redes como termo de comparação, e quando algo não corresponde aos padrões entra em colapso.” Ansiedade, baixa autoestima e até comportamentos autodestrutivos surgem com frequência em consulta. Como sintetiza a psicóloga: “Nunca tivemos tantas imagens de felicidade nas redes sociais e tantas pessoas infelizes no consultório.”

A pressão para corresponder a padrões irreais fragiliza cada vez mais a autoestima. “Hoje, a felicidade mede-se em validação digital”, explica a terapeuta, lembrando que a comparação constante com vidas idealizadas alimenta ansiedade e frustração. “As pessoas estão altamente dependentes de likes e comentários para serem felizes.”

A psicóloga mostra-se pessimista em relação ao futuro: “Não se perspectivam melhorias.” Para Celeste Simões, a solução começa em casa e na família: “As crianças já nascem formatadas para a tecnologia. Os pais têm de ser os primeiros a educar.”

Meios tradicionais vs. redes sociais: conflito ou coexistência?

A ascensão das redes sociais transformou a circulação da informação e obrigou os meios tradicionais a ajustarem a linguagem, ritmo e presença digital. Hoje, jornais, rádios e televisões disputam atenção com conteúdos rápidos e altamente segmentados – realidade designada por “economia da atenção”.

A adaptação é inevitável e exige uma leitura constante das tendências. Como refere Sophia Cardim de Melo, “as estratégias de redes mudam consoante o propósito e target da audiência. Nunca vai haver uma solução que funcione para todos”. A flexibilidade tornou-se parte da sobrevivência dos media.

As redes também abriram novas oportunidades de ligação ao público, sobretudo, através da proximidade. A partilha de bastidores tem sido uma das estratégias mais eficazes para humanizar marcas e redações. Não surpreende que a especialista em comunicação sublinhe que “a estratégia de dar o Behind the Scenes cria o engajamento com o meio em causa”.

Ainda assim, a convivência entre digital e tradicional tem limites. A rapidez das redes contrasta com a profundidade jornalística e muitos leitores continuam a procurar contexto fora dos feeds. Como admite a diretora da Strawberry: “Sinto-me muito mais informada a ler as notícias na íntegra.” Entre complementaridade e competição, redes sociais e meios tradicionais coexistem numa disputa contínua por relevância e credibilidade, dois valores cada vez mais difíceis de equilibrar no ecossistema digital.

Duas gerações em contraste  

A forma como se consome informação varia significativamente entre gerações, embora a distância entre elas esteja a diminuir. A geração dos 40–55 anos cresceu com jornais, rádio e televisão, mas hoje combina esses meios com o digital. Como explica Eunice Costa, 52 anos: “Uso muito o digital para ler artigos atuais sobre o meu trabalho.” Ainda que não tenha abandonado o papel, admite: “Gosto muito de comprar jornais quando os temas me interessam.” Apesar disso, assume que a rapidez das redes sociais mudou tudo: “Temos o telemóvel na mão e dão as notícias ao segundo.”

Já os jovens dos 18–25 anos vivem quase totalmente no universo online. Tiago Estêvão, 20 anos, estudante universitário, resume: “Uso mais redes sociais. Dou primazia à rapidez da informação.” Meios tradicionais ficam em segundo plano: “A televisão exige um tempo e atenção que não tenho e o hábito de comprar jornais praticamente desapareceu.” Quando quer saber mais sobre um tema, recorre a mecanismos rápidos: “Se a notícia me interessar, vou aprofundá-la noutro meio.”

As duas gerações também reconhecem o impacto da superficialidade. Eunice Costa é da opinião que “os jovens, hoje em dia, sabem muito, mas num nível muito superficial.” Tiago Estêvão admite essa tendência, alertando para o risco: “Tiramos opiniões através de um vídeo de 30 segundos. Abolimos assim a capacidade de pensar por nós próprios.”

Ainda assim, existe convergência. “A geração dos meus pais e tios tem tendência para a dependência da informação das redes sociais, como os jovens”, nota Tiago Estêvão. Ao contrário, Eunice Costa admite que o digital é inevitável: “As gerações mais velhas já consomem muito o digital, imposto pelo ritmo de vida.”

Ambos mostram preocupação com os efeitos sociais. Eunice Costa aponta a pressão constante: “Somos obrigados a ter a vida perfeita.” Tiago Estêvão reforça que o impacto é ainda maior nos mais novos: “Nos adolescentes, o problema é mental. As redes podem induzir baixa autoestima e distorção daquilo que é a vida.”

No final, apesar das diferenças, os dois grupos acreditam que o jornalismo tradicional mantém um papel essencial. Tiago Estevão sublinha que “os jornais têm o dever de manter os princípios do jornalismo”, enquanto Eunice Costa entende que a coexistência é possível: “Os meios podem coexistir, não devem é tentar ser todos iguais.” No fim, redes sociais e meios tradicionais continuam a disputar atenção, mas também a complementar-se. Entre gerações, ritmos e formas distintas de consumir informação, existe, segundo Celeste Simões, uma certeza: “Cabe ao utilizador escolher com consciência aquilo que lê, acredita e partilha num mundo onde tudo chega mais depressa do que nunca.”

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