O Clube Futebol Os Belenenses foi, durante largos anos, considerado a quarta maior equipa de Portugal, estando apenas atrás dos dois gigantes de Lisboa, Benfica e Sporting, e do maior clube do Norte, o Futebol Clube do Porto. Foi um dos únicos cinco clubes a vencer o escalão mais alto do futebol nacional, alcançando esta proeza na década de 40. Além do campeonato nacional, conta também com três Taças de Portugal no palmarés: 1941/42, 1959/60 e 1988/89.
Como qualquer coletivo com esta dimensão, os “Azuis do Restelo”, alcunha pela qual são conhecidos, tiveram jogadores de renome na História, chegando alguns deles ao estatuto de glória. Matateu, Juanico e o malogrado Pepe são três das maiores figuras que o CFB teve no mítico Estádio do Restelo.
Nas décadas de 20 e 30, o Belenenses era uma das potências do desporto rei em Portugal. O nome que se encontrava em principal destaque era o de Pepe, um jogador muito preponderante, quer na Seleção Portuguesa, onde foi o protagonista dos jogos olímpicos de 1928, quer no conjunto azul e branco. Mas, aos 23 anos, vítima de envenenamento involuntário por parte da mãe, o futebol português viu partir uma grande estrela. A morte de Pepe foi de tal modo marcante que, desde esse dia, o Futebol Clube do Porto deposita um ramo de flores no relvado do Estádio do Restelo, sempre que se desloca ao campo do CF Os Belenenses.
Matateu, ou o “Eusébio do Belenenses”, como era chamado devido ao facto de ter nascido em Moçambique, tal como o astro do Benfica, é o melhor marcador da história dos azuis e brancos, com 220 golos e uma larga margem para o segundo jogador com mais tentos apontados ao serviço d‘Os Belenenses. Chegou ao clube em 1951 e só saiu na fase descendente da carreira em 1964, já com 37 anos.
Por fim, Juanico, o “Herói da Taça de Portugal” conhecido pelo forte pontapé, foi o craque do clube na década de 80, protagonizando o momento mais icónico da história recente da equipa do Restelo. O médio português marcou o golo da vitória na final da taça de 1989 contra o poderosíssimo Benfica, de Toni, que havia sido, no ano anterior, finalista vencido da Taça dos Clubes Campeões Europeus.
Separação do clube da SAD
Em 2018, a Sociedade Anónima Desportiva (SAD) desassociou-se do clube e formou-se uma nova equipa, que ficou com a licença do Belenenses e passou a atuar na primeira liga, com o nome de B SAD. Nesta altura, o CF Os Belenenses, em tempos das melhores equipas do país, passou a disputar o escalão mais baixo de futebol nacional, a última divisão distrital de Lisboa. Apesar de tudo, os adeptos do Belenenses continuaram a apoiar o clube do coração, não permitindo que os jogos contra equipas mais “pequenas” em estádios com menos condições fossem suficientes para deixar de mostrar o amor à camisola.
No entender da atual vice-presidente do CFB, Ana Ferreira, que na altura era apenas adepta, a separação da SAD foi necessária, embora difícil: “No momento, votei favoravelmente à separação, na assembleia geral de 3 de fevereiro 2018, e mantenho-me completamente consciente de que essa foi a melhor solução. Quem nos representava, na verdade, não o fazia, e a história, ao fim destes anos todos, e apesar das dificuldades, deu-nos razão. O nosso património ficou protegido com esta decisão. Portanto, os sócios estiveram muito bem quando decidiram avançar para a separação.”
O clube está na Liga 3 à procura de um regresso ao segundo patamar mais alto do futebol luso. As dificuldades financeiras são um fator muito condicionante para as adversidades que a equipa está a sentir em regressar à competição da qual já saiu vitorioso, a Primeira Liga.
José Pedro foi um jogador fundamental para a equipa “azul e branca” na primeira década deste século, marcando o golo que levou o Belenenses à final da Taça de Portugal, em 2007, onde perderam com o Sporting. Na altura da separação do clube e da SAD, era o treinador adjunto do conjunto do Restelo. Continuámos lá enquanto equipa técnica e, se calhar, não podiam haver dois treinadores e ex-jogadores tão marcantes para o Belenenses como eu e o Silas (atleta do clube entre 2005 e 2009 e treinador principal no momento da separação), que tínhamos sido os jogadores da primeira década deste século. Passámos a treinar em condições que não tinham nada a ver com as do restelo. No momento foi tudo muito complicado por causa do nosso trajeto no Belenenses”, recorda.
Ecletismo e diversidade
Não é só no futebol masculino que o Belenenses é histórico. O clube é bastante eclético e inclusivo, promovendo o desporto para diversas modalidades, nomeadamente futsal, basquetebol, triatlo, atletismo, natação, andebol, rugby e voleibol, sendo que, nas cinco primeiras, é a casa de atletas tanto do género masculino como feminino. Na maioria dos desportos, o Belenenses já venceu o respetivo Campeonato Nacional por diversas vezes. O andebol e o rugby são as modalidades mais consagradas no Estádio do Restelo e no mítico Pavilhão Acácio Rosa. A aposta na diversidade desportiva é uma das prioridades de Ana Ferreira. “Uma das minhas lutas é mostrar que o desporto em Portugal não é só futebol”, defende. Além disso, José Pedro acrescenta que “as modalidades são uma marca histórica neste clube”. E exemplifica: “Lembro-me, por exemplo, do râguebi, que era fortíssimo quando eu jogava no Belenenses.”
Massa associativa
Para Gonçalo Maria, atual lateral esquerdo do conjunto “azul e branco”, o amor pelo clube vem de relações familiares: “O Belenenses é um clube que me diz muito. É o clube do meu pai, do meu padrinho e eu, desde pequeno, que ia ao estádio ver o Belenenses.” O jogador do CFB sublinha a importância das pessoas que seguem o clube desde sempre: “Os adeptos são um símbolo do Belenenses e percebo o porquê de eles terem ficado desiludidos com a descida de divisão no ano passado. No entanto, temos conseguido reunir novamente a massa associativa. Temos tido boas casas e queremos cada vez mais adeptos e que eles tragam a família toda e os amigos também, porque o Belenenses é mesmo um clube especial.” A vice-presidente do clube também apela ao suporte à equipa por parte de todos os adeptos: “Os adeptos são essenciais, os sócios são essenciais, o apoio à equipa é essencial. Num estádio tão grande como o nosso, é importante que a equipa se sinta acompanhada por aqueles que, desde 30 de setembro de 2018, têm estado lá sempre, fora aqueles que se vão juntando.”
De jogadores a adeptos, a confiança no clube parece permanecer inalterada. “Não tenho dúvidas nenhumas de que o Belenenses vai regressar à Primeira Liga. Não posso dizer se será daqui a um, dois, três ou quatro anos, mas sei que voltará, sem dúvida”, acredita Gonçalo Maria, que não resiste a recordar os episódios mais inesquecíveis que viveu com a camisola do Belenenses:“O momento mais feliz da minha carreira foi a subida à Segunda Liga, pelo Belenenses. Foi muito especial e incrível o facto de estar toda a gente no relvado, desde os mais velhos aos mais novos.”