Em Anticlericalismo e Feminismo na Imprensa Oitocentista, Cláudia Pazos Alonso abre caminho para uma reflexão mais ampla sobre autoridade, pensamento crítico e as múltiplas formas de silenciamento feminino. Nesta obra, a investigadora estabelece paralelos entre a crítica à obrigação doméstica feminina e fenómenos contemporâneos como o das trad wives. A professora da Universidade de Oxford responde ainda a questões que atravessam o passado e o presente, chamando a atenção para o reaparecimento de discursos que voltam a valorizar a submissão feminina, disfarçados por uma retórica religiosa e a sua difusão nas redes sociais.
Redatora do primeiro título de imprensa feminista redigido inteiramente por mulheres em Portugal e na Europa, A Voz Feminina (1868-1869), e depois O Progresso (1869), o legado de Francisca Wood foi silenciado, mas Cláudia Pazos Alonso está decidida a retirar a feminista do obscurantismo a quem foi votada pela história. A importância de Francisca de Assis Martins Wood e do seu discurso é essencial como lente para observar o presente. Nas respostas finais, Cláudia Pazos Alonso dá atenção a que muitas das dinâmicas enfrentadas pela escritora existem até hoje, ainda que disfarçadas de novas formas, em especial, no espaço digital. A leitura de Francisca Wood não oferece respostas fechadas, mas mostra uma continuidade incómoda: a de um sistema que, ontem como hoje, insiste em tentar limitar a voz pública das mulheres e em fazê-lo, frequentemente, sob a aparência da normalidade ou da escolha. Para conhecer melhor esta figura ímpar, nascida a 4 de outubro de 1802 e falecida a 27 de novembro de 1900, nada melhor do que descobri-la com quem tem dedicado anos da sua vida à investigação.
No seu livro, Francisca Wood surge como uma figura profundamente crítica das estruturas que confirmavam as mulheres ao espaço doméstico. Que paralelos identifica entre estas estruturas do século XIX e os discursos atuais nas chamadas “trad wives”?
No século XIX, a norma era a mulher pertencer à esfera doméstica. Depois, 150 anos mais tarde, já estava normalizado as mulheres trabalharem fora de casa e conciliarem uma vida profissional com uma vida familiar. Portanto, o momento das trad wives é preocupante, porque se trata de uma regressão a parâmetros vigentes no século XIX.
Agora, não sei se esse movimento das trad wives vai vingar porque estamos a falar de um movimento de classe média e alta e, tal como no século XIX, a questão da domesticidade era para as senhoras. Irene de Quinhas faz um contraste entre senhoras e mulheres: as mulheres do povo sempre trabalharam na agricultura e por aí fora. Hoje em dia, as trad wives têm um estatuto económico privilegiado que não se aplica à maioria das mulheres.
No seu trabalho destaca o papel do anticlaricalismo na crítica feminista de Francisca Wood. Como vê o reaparecimento de discursos femininos que valorizam a submissão à maternidade compulsória e à autoridade masculina, muitas vezes, associados a valores religiosos?
Vejo com alguma preocupação, porque sempre houve uma ala, inclusive aqui em Portugal, da Igreja Católica, que tentou valorizar as mulheres e várias intelectuais. Mas uma coisa é ter uma postura crítica dentro da própria Igreja, outra é deixar-se arrebanhar por um discurso que, afinal de contas, é misógino. A palavra aqui é “misógino”, porque só vê uma dimensão das mulheres: as mulheres como parideiras.
E isso é muito preocupante, porque aí as mulheres ficam ao serviço do homem; não há igualdade de género. Isso era um problema no século XIX e a Francisca Wood tinha plena noção disso, porque tinha vivido em Inglaterra, onde a religião dominante era a protestante, e as mulheres já tinham conseguido outra postura. A questão fundamental é quem é que tem direito à autoridade e, portanto, ser voz de uma mulher não vale tanto como ser a voz de um homem na esfera pública. Isso era um problema no século XIX e é um problema hoje em dia.
No caso de Francisca Wood escrever e publicar, era já um gesto de resistência. Como distinguir hoje entre a agência real e a adesão a modelos normativos que se apresentam como escolha?
A forma como temos caminhado no sentido de uma igualdade de género está inscrita em várias constituições no mundo ocidental e pode dar a ilusão de que a trad wife é uma escolha como outra qualquer. É importante fazer aí uma distinção, porque qualquer mulher tem direito a dedicar-se à esfera familiar; isso não pode ser contestado. Ninguém obriga a mulher a trabalhar fora de casa, é um direito. O que é preocupante, sobretudo no mundo atual, é quando vemos estas imagens que circulam no Instagram e em vários outros sítios, apresentarem isso como um ideal. De repente, nos últimos anos, este ideal tem vindo a permanecer e isso é problemático, porque muitos direitos, que levaram tanto tempo e várias gerações feministas para serem conquistados, há uma espécie de ilusão de garantia desses direitos.
O seu livro insiste em ler Francisca Wood como intelectual e não apenas como militante. O que define essa dimensão intelectual no seu entender?
Os homens de letras no século XIX eram jornalistas, escritores e eram considerados intelectuais. E isso vê-se muito bem no título de um livro, já antigo, da década de 80: Os Intelectuais Portugueses da Primeira Metade do Século. Eram todos homens, o que é óbvio.
O facto de eu insistir em situar Wood como intelectual prende-se ao facto de – creio – ela teve uma formação possivelmente autodidata, mas ela pensou em muitos conceitos filosóficos, e uma das palavras que ela repete ao longo dos seus artigos é a “mulher que pensa”. Francisca Wood insiste muito na faculdade do pensamento crítico, que contrapõe à opinião pública, e tenta valorizar a ideia de que todos os seres humanos, sejam de que sexo forem, têm a capacidade de pensar criticamente. E é por isso que eu acho importante situá-la como intelectual, porque não vejo que outras mulheres da época tivessem dito isso da mesma forma.
O silêncio em torno de Francisca Wood é apenas o resultado do tempo ou também de escolhas ideológicas?
Não tenho nenhuma dúvida de que se trata de escolhas ideológicas. E o que é mais penoso para mim é que, por um lado, há uma escolha em silenciá-la por parte dos homens e da cultura dominante. Isso vê-se muito bem nas manobras do Marquês de Valada e também no facto de Francisca Wood nunca ser citada diretamente por Eça de Queiroz, sendo que ele obviamente sabia quem ela era. Em Os Maias, fala da sociedade protetora dos animais e goza com esse conceito; é uma forma de desvalorizar a atuação de Wood. Mas ele não faz isso às claras; tudo isso são indiretas, porque conceder a uma pessoa o direito de dialogar em pé de igualdade iria causar problemas a esta geração.
A segunda coisa, que é importante que seja reconhecida, é que, num contexto em que as mulheres tinham tão pouca autoridade, as outras mulheres, no sentido de poderem sobreviver, tiveram de deixar cair Francisca Wood. Não poderiam defendê-la, não tinham como. Porque senão iriam ser naufragadas e silenciadas e arrasadas como ela foi. Portanto, em contextos em que as mulheres possuem pouca autoridade cultural, têm de fazer escolhas estratégicas, mas, de certa forma, não podem mostrar-se minorias femininas.
O que é que a leitura de Francisca Wood pode oferecer às novas gerações?
Gostava que ela fosse mais lida. Hoje em dia, temos a internet e temos ataques, que são anónimos. A misoginia de que Francisca Wood foi vítima volta a ressurgir com muita força nos dias de hoje. E essas estratégias continuam as mesmas. Pode já não ser no jornal, pode ser na internet. Mas é a mesma coisa, as estratégias são idênticas. A postura dela foi extremamente corajosa em servir e tentar desmascarar e dialogar com os seus opositores. O problema é que ninguém se apresenta. Porque dar-lhe essa legitimidade seria o princípio do fim. Mas nós continuamos a ver isso, de outra forma, na internet. Que é muito difícil, as mulheres são deitadas abaixo e de várias formas, mas não há diálogo.
