Catarina Marinho, presidente da Juventude Popular: “É preciso dar aos jovens condições para viver, trabalhar e criar família”

Habitação, natalidade, saúde mental, educação e participação política são os temas principais da entrevista à presidente da JP. Numa conversa que decorreu na sede nacional do CDS-PP, Catarina Marinho defendeu a necessidade de respostas estruturais para garantir a emancipação dos jovens e o futuro demográfico do País

Eleita presidente no XXVI Congresso da Juventude Popular, a 23 de fevereiro deste ano, Catarina Marinho tornou-se, aos 27 anos, a primeira mulher a assumir este cargo dentro do partido. Em entrevista, a nova líder garante estar empenhada em contribuir para lutar pelos jovens portugueses no acesso à habitação e outros desafios do presente, como a baixa natalidade e a desilusão com a política. Com um discurso assertivo, mas ponderado, a responsável pela JP sublinha a importância de políticas públicas que devolvam confiança às novas gerações e reforcem o papel da comunidade e da família na construção do país.

Qual é o papel da Juventude Popular neste momento de maior polarização política? Hoje, ser líder de uma juventude partidária é um desafio maior do que seria anteriormente?

Não sei se é mais difícil agora ou se o era nos mandatos anteriores dos ex-presidentes da Juventude Popular. Aquilo que sinto – e que a minha equipa também sente – é que, atualmente, talvez seja um pouco mais difícil sensibilizar os jovens para a política. Muitas vezes, eles gostam de política e estão envolvidos, mas não têm consciência de que isso é política.

Depois, acabam por se afastar dos partidos devido às ideias pré-definidas que têm. Portanto, não diria que é difícil; é, de certeza, desafiador. Há muita coisa que temos de mudar. Estes 50 anos de liberdade acabam também por trazer algumas ideias pré-concebidas e formas de pensar e de agir que não são questionadas nem alteradas. Existe a noção de que, por vivermos em liberdade, tudo está resolvido, quando isso não é verdade. É importante estarmos sempre à procura de coisas novas e de formas diferentes de olhar para os problemas.

Nesse sentido, existe claramente um desafio. Quanto ao papel da Juventude Popular, somos uma juventude partidária de direita, de direita moderada. Moderada não quer dizer que sejamos “fofinhos”; quer dizer que temos cabeça, que sabemos o que é preciso fazer e que pensamos as políticas de forma lógica, com impacto real na sociedade. Temos valores muito específicos, nomeadamente em torno da família, e acreditamos que somos a única juventude partidária e, por extensão, também o único partido em Portugal que defende esses valores de forma consistente.

Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indicava que os níveis de abstenção, após a eleição de 2022, eram mais elevados nos eleitores de direita. O Chega conseguiu “colocar” muitos jovens a votar e a saírem da abstenção. E como é que a Juventude Popular pode captar eleitorado jovem que se sente desligado da política tradicional?

Antes de comentar o estudo, gostaria de dizer que não conheço em detalhe a metodologia utilizada nem os dados que lhe estão subjacentes, pelo que não consigo pronunciar-me com total segurança sobre os valores apresentados.

Aquilo que considero que aconteceu e que continua a acontecer é que o Chega conseguiu mobilizar muitos jovens para o voto e trazer para as urnas pessoas que anteriormente se abstinham. No entanto, não concordo que esse eleitorado seja, maioritariamente, de direita. É verdade que existem hoje dois partidos mais recentes nesse espectro político, o Chega e a Iniciativa Liberal, e é natural que haja eleitores que anteriormente votavam no CDS e que agora se revejam mais nesses partidos. Ainda assim, na minha opinião, grande parte da abstenção que o Chega consegue captar e também algum eleitorado que conquista vem da esquerda e não propriamente da direita.

Na minha análise dos resultados eleitorais, quer nas últimas autárquicas, quer nas legislativas, observo que o eleitorado de centro e de direita continua a votar no CDS e no PSD. Podemos ter agora muitos casos da AD espalhados pelo país, mas não vejo uma ligação direta tão clara como, às vezes, se sugere.

Quanto à forma como podemos responder a este desafio, é um processo difícil. No caso específico dos jovens, quando existem partidos com um modelo de comunicação que considero mais populista, torna-se mais fácil captar a atenção através de um discurso mais simplista ou emocional. A tentativa da Juventude Popular, indo ao encontro da pergunta, passa por mostrar que é possível ter uma conversa séria sobre temas que são verdadeiramente importantes e convidar os jovens a fazer parte dessa discussão.

Não se trata apenas de se juntarem à Juventude Popular e de existirem, depois, estruturas distantes que tomam decisões de forma isolada. Existem, naturalmente, órgãos que decidem, mas essas decisões são tomadas com base no diálogo e na escuta das opiniões de quem participa. Muitas vezes, recebemos também pessoas que não são militantes da Juventude Popular, mas que participam nos nossos eventos, formações e debates, e que partilham connosco a sua visão.

Para nós, é igualmente importante ouvir quem não faz parte da nossa estrutura, quem pode até partilhar alguns dos nossos valores, mas sente que há aspetos que poderiam estar melhor alinhados. Esse contributo é essencial.

Assim, considero que o nosso papel passa por promover uma discussão séria, calma e racional e por conseguir, através da comunicação, chegar aos jovens, convidando-os a juntar-se a nós. Fazemo-lo com os nossos valores bem definidos, mesmo reconhecendo que, em termos de vocabulário, palavras como democracia-cristã, conservadorismo ou liberalismo podem não ser as mais apelativas à primeira vista. O nosso trabalho passa por desconstruir esses conceitos, explicar o que realmente significam e permitir que os jovens decidam se se reveem ou não na Juventude Popular. Acredito que há muitos jovens que ainda estão à procura desse espaço e que não sabem, exatamente, se pertencem ou não à JP.

No caso da Juventude Popular, é possível falar a linguagem dos jovens e fazer uso das redes sociais sem cair no populismo e na desinformação?

Temos sempre de fazer esse trabalho recorrendo às ferramentas que hoje existem, nomeadamente as redes sociais. Existem duas vias principais. A primeira, que temos vindo a implementar desde que sou presidente, passa por simplificar a nossa linguagem. Procuramos não utilizar termos que os jovens possam não conhecer ou que estejam muito afastados da sua realidade e, ao mesmo tempo, apostar numa comunicação curta, porque sabemos que o tempo de atenção é reduzido.

Trata-se de informação breve, mas com conteúdo verídico e com aquilo que é mais relevante para transmitir aos jovens. Depois, para os que quiserem aprofundar os temas, existem momentos de formação, conferências e espaços de debate, aos quais se podem juntar.

Ainda assim, é um processo difícil. Muitas vezes, quando comparamos com outros grupos e outras juventudes, percebemos que é mais fácil cativar os jovens através de temas mediáticos e de uma linguagem mais agressiva ou mais expansiva. O desafio que enfrentamos, neste momento, é encontrar um equilíbrio entre aquilo que funciona ao nível da comunicação e os valores em que acreditamos, trabalhando sempre em defesa da democracia que temos.

Repensar a Educação

O ano letivo de 2025/26 trouxe novidades, nomeadamente em relação ao uso de telemóveis. Considera que a proibição até ao 6º ano e recomendação de utilização restritiva no 3º ciclo são medidas positivas?

Na minha opinião, é uma medida positiva. Admito, no entanto, que, numa fase inicial, não concordava com esta decisão. Considerava que deveria caber aos pais e às famílias definir o que os filhos fazem ou deixam de fazer, nomeadamente se têm telemóvel, se o utilizam ou não.

Contudo, no contexto escolar, aquilo que se verificou foi que o uso do telemóvel não corresponde aos objetivos da escola. A escola deve ser um espaço onde as crianças interagem entre si e aprendem a relacionar-se. É também a partir dessas experiências que se constrói a nossa forma de estar em sociedade quando chegamos à idade adulta.

Comecei com uma posição diferente, mas mudei ligeiramente de opinião e passei a concordar com esta medida. Ainda assim, considero que o essencial passa por a sociedade, no seu conjunto, e a comunidade se recentrarem na vivência em comum. Falo de aspetos simples, como saber quem são os nossos vizinhos, estar disponível para ajudar, ter uma vida social que não se limite a um ecrã e a pessoas do outro lado do telemóvel.

Acredito que esta é, sobretudo, uma questão cultural. Ao longo do tempo, fomos alterando hábitos e perdendo algumas dinâmicas que ainda se mantêm, por exemplo, em meios mais pequenos, onde as associações e a convivência comunitária continuam presentes, mas que se foram esbatendo nos grandes centros urbanos. É para esse caminho que devemos voltar, ou pelo menos lembrar as pessoas da importância dessas experiências, que muitos já esqueceram.

Há também muitos jovens que nunca chegaram a vivenciar esse tipo de relação comunitária. Para mim, esse é o ponto central: mudar mentalidades e recordar o quão positivo é viver em comunidade. A partir do momento em que isso acontecer, acredito que deixará de ser necessário impor regras nas escolas, porque as crianças vão querer brincar e conviver naturalmente com os colegas.

Como é que se pode resolver o problema da colocação e falta de professores em cada ano letivo e que começa a ser estrutural?

Claro que esta é uma prioridade. Atualmente, enfrentamos uma falta evidente de professores, mas a verdade é que o nosso sistema educativo também não é o melhor. O Ministério da Educação, a par do Ministério da Saúde, é dos mais difíceis de gerir, porque estes não são problemas recentes. São questões acumuladas ao longo de muitos anos e que não resultam apenas da alternância de partidos no Governo. Trata-se de um problema estrutural do País que tem de ser resolvido.

Olhamos para a educação e para a falta de professores de uma forma semelhante àquela com que encaramos, por exemplo, a carreira militar. É necessário encontrar formas de promover esta carreira junto dos jovens, de modo a despertar o seu interesse. Naturalmente, nem todos têm vocação para ser professores, mas alguns têm esse dom, essa missão e essa vontade, e é importante que consigam identificá-lo.

Depois, é fundamental garantir condições. Não podemos continuar a ter professores que, a um mês do início das aulas, ficam a saber que vão dar aulas em Braga, outros no Algarve, sendo obrigados a mudar constantemente de vida. É essencial garantir estabilidade porque só assim os jovens conseguem projetar o seu futuro e criar uma família. Se alguém vive com a ideia de que todos os anos pode estar longe de casa, dificilmente tomará essa decisão. São vários temas interligados.

É evidente que mudar o sistema não é simples. Trata-se de um trabalho que tem de ser feito a longo prazo, de forma gradual. Mudanças bruscas implicam negociações com sindicatos e com vários intervenientes, sendo necessário perceber quais os impactos reais na vida dos professores. Ainda assim, passa muito por garantir estabilidade, incentivar a profissão e mostrar que a carreira docente tem um enorme mérito.

Provavelmente, todos nós guardamos na memória um professor que nos marcou. Essa dimensão vocacional e de missão é algo que também acontece noutras profissões, como a medicina. É preciso valorizar essa dimensão, promover a carreira e, naturalmente, olhar para a questão financeira, que é essencial. É fundamental existir uma carreira estruturada, com progressão e estabilidade financeira, para que os professores se sintam valorizados e reconhecidos.

Como vê a alteração dos conteúdos programáticos da disciplina de Cidadania? Considera importante a alteração do currículo e a entrada, por exemplo, de assuntos como a literacia financeira?

Sem dúvida. Mas, antes de mais, importa esclarecer aquilo que foi, na minha opinião, uma leitura enviesada por parte da esquerda. Foi amplamente noticiado que a AD, o CDS e o PSD estariam a retirar temas considerados relevantes para as crianças, nomeadamente os relacionados com o conhecimento do corpo humano. Ora, esses conteúdos são lecionados na disciplina de Ciências e é importante que isso fique claro.

Aquilo a que assistimos foi, muitas vezes, a uma distorção da notícia, apresentada de uma forma completamente desajustada à realidade. Quanto à inclusão de novos temas, como a literacia financeira, somos totalmente favoráveis. Aliás, essa proposta constava da moção que levámos ao Congresso da Juventude Popular. Vivemos num contexto de escassez e acredito, até, que poderiam ser incluídos conteúdos de literacia financeira desde idades mais precoces.

Uma das propostas que também enviámos ao Governo e ao Grupo Parlamentar na Assembleia da República prende-se com a inclusão de noções de suporte básico de vida nesta disciplina. É fundamental que as crianças saibam como agir numa situação grave, por exemplo, se um colega precisar de ajuda e não houver um adulto presente. Em determinados contextos, esse conhecimento pode mesmo salvar vidas.

Somos totalmente favoráveis à inclusão de temas, tópicos e matérias que tenham um impacto direto na vida dos jovens e que os ajudem a tornar-se melhores cidadãos e melhores membros da sua comunidade. No caso da literacia financeira, os benefícios são evidentes: desde aprender a gerir o próprio dinheiro até estar mais preparado, no futuro, para a entrada no mundo do trabalho e para compreender melhor o funcionamento da economia do dia a dia.

Do mesmo modo, faz sentido trabalhar competências como a comunicação oral, a capacidade de apresentação, ou até o funcionamento das instituições democráticas. Por exemplo, perceber o papel da Assembleia da República ou dos partidos políticos. Estes são temas que influenciam diretamente a vida das crianças e que terão ainda maior impacto no futuro.

Tudo isto pode ser aprendido de forma gradual, adequada à idade, permitindo que os jovens levem essas reflexões para casa, conversem com os pais e cresçam mais conscientes, mais participativos e, consequentemente, melhores cidadãos e adultos.

Apostar em habitação

No início do ano letivo que agora terminou, houve menos 5300 alunos a entrar no ensino superior, redução que poderá ser justificada, entre outros fatores, pelas propinas e pelo elevado preço da habitação. Que propostas tem a Juventude Popular para enfrentar este problema?

A Juventude Popular defende uma posição diferente da adotada por muitos partidos de esquerda: o que realmente impede um jovem de ingressar na universidade é o custo da habitação, da alimentação, da mobilidade e da vida diária longe da casa dos pais. Esse é o verdadeiro peso financeiro que os estudantes enfrentam.

Outro ponto importante é que nem todos os jovens precisam obrigatoriamente de ir para o ensino superior. Alguns podem optar por cursos profissionais e ingressar no mercado de trabalho de forma mais direta, o que também é válido. Nem todos têm de seguir o mesmo percurso académico – uma visão que a esquerda defende e com a qual discordo.

Quanto a soluções, o problema da habitação não se limita aos jovens. Há falta de casas, os preços são elevados e existem barreiras financeiras à aquisição ou arrendamento. Para os jovens, é essencial garantir-lhes acesso a residências universitárias ou a apartamentos partilhados, mesmo que não possam ter uma casa própria. Uma ideia que já propusemos envolve a partilha de habitação com idosos que vivem sozinhos e têm quartos disponíveis. Este modelo, já praticado em Lisboa, permite a troca de experiências entre gerações, promove companhia para os idosos e integra os jovens na comunidade.

Uma medida concreta que defendemos é a isenção de IVA na água, luz e gás para jovens até aos 30 anos que vivam em residências partilhadas por estudantes do ensino superior. Além disso, é necessário aumentar a oferta pública de habitação e canalizar parte das receitas provenientes de mais-valias do Estado para investimento nesta área. É também fundamental que as câmaras municipais colaborem com as universidades para expandir o número de residências disponíveis.

No que diz respeito à mobilidade, já avançámos com iniciativas como o cartão de ferrovia mensal, que permite aos estudantes deslocarem-se de forma mais económica.

Apesar destes avanços, o problema da habitação continua a ser um grande desafio. É um caminho longo até encontrarmos soluções ótimas para os jovens universitários, mas estamos a dar passos importantes para melhorar a situação.

O Governo tem apresentado um conjunto de propostas para a habitação. Quais as propostas da JP neste domínio?

Uma questão importante é que a construção está hoje muito cara, em grande parte devido aos PPRs, que só terminam no final do próximo ano. Esses PPRs impactam diretamente o trabalho das empresas de construção, que, ao anteciparem custos e burocracias, acabam por aumentar os preços. Por isso, é natural que os custos de construção estejam elevados atualmente.

Na minha visão, é previsível que, a partir de 2027, os valores da construção regressem a níveis mais normais, mais próximos do que eram antes. Isto representa um ponto de inflexão importante, permitindo que o setor ganhe um “balão de oxigénio” para impulsionar a construção no país.

As medidas do Governo são bem-vindas, mas não são suficientes para resolver o problema da habitação. É necessário ir mais além. O Conselho Nacional da Juventude (CNJ), do qual fazem parte jovens de diversas áreas partidárias, discute intensamente estas questões. É fundamental que os jovens estejam envolvidos nas decisões, apresentem propostas concretas e desafiantes, que possam ser implementadas na prática e que não fiquem apenas no plano das ideias.

O Governo tem feito avanços e apresentado iniciativas, mas o problema da habitação em Portugal é estrutural e de longo prazo. Não será resolvido nos próximos dois anos. Acredito que, a partir de 2027, com algumas medidas e investimentos previstos, será possível dar um passo em frente. É crucial que os jovens participem ativamente destas discussões, propondo soluções viáveis e desafiantes, capazes de pressionar o Governo a agir de forma concreta na área da habitação.

Apoios à parentalidade

Em 2026, ainda existem mulheres que são prejudicadas profissionalmente em virtude da gravidez. A Juventude Popular defende o aumento da licença de parentalidade?

O aumento da licença parental é uma medida importante. Outra questão absolutamente central é o acesso a creches. Esta é, talvez, uma das maiores preocupações dos jovens que pensam constituir família: saber se vão ter vaga para os filhos. Se não houver lugar numa creche, alguém terá de ficar em casa ou recorrer aos avós, mas muitos avós continuam a trabalhar e nem sempre têm disponibilidade para apoiar. Tudo isto torna a decisão muito mais complexa.

Na Juventude Popular, e falo agora claramente na primeira pessoa do plural, não concordamos totalmente com a lógica de resolver estes problemas apenas através de apoios financeiros ou benefícios fiscais. Muitas vezes, falamos de valores como 30 ou 40 euros por mês, e isso, por si só, não é determinante para alguém decidir ter um filho. O que está em causa é a qualidade de vida e a confiança no sistema.

Existe também o problema no acesso às maternidades…

No último ano, assistimos, infelizmente, a vários casos de grávidas que perderam bebés ou que tiveram partos em condições extremamente difíceis, nomeadamente em ambulâncias, por falta de resposta adequada dos serviços de saúde. Houve situações em que os hospitais não tinham serviços abertos ou não havia médicos disponíveis no momento necessário. Isto gera uma enorme insegurança.

Para nós, a questão central passa por garantir que mães e pais saibam que têm uma rede de apoio efetiva: saber que existe vaga na creche, que o hospital estará aberto e a funcionar, que o centro de saúde responde, que existe uma linha de apoio disponível para situações de ansiedade ou de emergência após o nascimento do bebé. Essa confiança nos serviços é, para nós, muito mais determinante do que o apoio financeiro isolado.

Claro que há também medidas diretamente relacionadas com a carreira profissional, como o aumento da licença parental, não apenas para a mãe, mas também para o pai. Defendemos que ambos devem ter mais tempo nos primeiros meses de vida da criança. Temos, inclusivamente, uma proposta concreta que prevê maior flexibilidade: permitir que a mãe escolha se quer usufruir da licença de forma contínua ou repartida, podendo, por exemplo, tirar alguns meses iniciais, regressar ao trabalho e depois o pai assumir a licença durante esse período.

Esta flexibilidade, aliada ao acesso e à confiança nos serviços públicos, é o que pode verdadeiramente influenciar a decisão das famílias avançarem para a parentalidade. É isso que dá segurança às mães e aos pais para construírem uma família com qualidade de vida.

Educação, mobilidade e descentralização

Quais são os temas prioritários da agenda da Juventude Popular?

Na Juventude Popular, focamo-nos atualmente em três pilares estratégicos, especialmente durante este primeiro mandato. O primeiro é a educação. Queremos garantir que os jovens tenham acesso à educação que realmente necessitam para os seus projetos de vida, não apenas uma educação genérica. O objetivo é que possam encontrar trabalho nas condições de que necessitam, de forma a poderem constituir a sua família e permanecer em Portugal. Esse é, na nossa visão, o cenário ideal.

Outro ponto importante é a mobilidade e a descentralização. Devemos começar a retirar as pessoas da pressão dos centros urbanos, criando alternativas em outras regiões do país. Um exemplo a seguir é Londres, onde muitas pessoas vivem a meia hora do centro graças a um transporte eficiente. Em Portugal, é essencial pensar em soluções de mobilidade que liguem os centros urbanos a outras cidades e regiões, de forma a tornar a habitação mais acessível e menos sobrelotada. Isto não se aplica apenas a Lisboa ou Porto, mas também a cidades como Coimbra ou Aveiro, que são grandes centros urbanos, embora menos populosos.

Paralelamente, é importante garantir que nestas regiões haja oferta de trabalho, indústria e serviços, permitindo que o teletrabalho ou o trabalho local sejam viáveis e atraentes.

Por fim, outro objetivo é criar condições para que os jovens portugueses que vivem no estrangeiro regressem a Portugal, constituam família e se integrem no país. Queremos que os jovens gostem de Portugal e vejam aqui um futuro estável, tanto a nível profissional como familiar.

Como se pode convencer um jovem que nasceu em Lisboa, por exemplo, a mudar-se para uma zona do interior do País?
Se houver oportunidade, o jovem quer ir para lá. Claro que existe o peso da família e dos amigos, mas se existir uma oportunidade real, isso pesa mais. Atualmente, muitos jovens saem do país em busca de melhores condições; mudar para o interior seria mais próximo, mais acessível.

O essencial é criar condições e oportunidades nesses locais. Portugal oferece qualidade de vida, sol, boa comida e pessoas simpáticas. Mudar para o interior não é um problema. O que realmente importa é que haja emprego e, idealmente, incentivos. Por exemplo, na Guarda existe um benefício de isenção de IMI para jovens que se mudam para a região. Se houver trabalho e ainda benefícios como este, os jovens vão querer aproveitar.

Outro ponto determinante é a mobilidade. Se um jovem de Lisboa se muda para a Guarda e demora quatro horas a chegar à cidade, isso torna-se um obstáculo. É necessário ter meios de transporte eficientes e rápidos para que a deslocação seja viável.

Dou o meu exemplo pessoal: nasci em Lisboa, a minha família vive em Torres Vedras, mas atualmente resido em Alcobaça. De lá a Lisboa levo cerca de uma hora e meia de autocarro direto. Posso trabalhar, estudar ou deslocar-me sem grandes dificuldades. Sem este transporte, e com o custo de um carro ou o tempo gasto a conduzir, provavelmente não teria escolhido viver em Alcobaça. Isto mostra como o acesso e a mobilidade são fatores essenciais para incentivar os jovens a mudar-se para o interior.

Saúde mental dos jovens

Bullying, ansiedade, depressão e uso excessivo das redes sociais estão a aumentar os casos relacionados com a saúde mental nos jovens. Como é que a Juventude Popular olha para este tema?

Hoje em dia, os jovens vivem sob uma pressão enorme. Muitos sentem que têm de ser os melhores, obter as melhores notas, entrar na universidade e, depois, garantir um bom emprego. Esta pressão constante não parece saudável.

Ao mesmo tempo, o sistema escolar mantém, em grande parte, um modelo que existe há cerca de 70 anos, sem grandes alterações. Acredito que já deveríamos ter aprendido a melhorar este sistema.

Na Juventude Popular, ainda não lançámos medidas formais e concretas sobre esta temática, mas deveríamos reduzir o tempo de permanência em sala de aula e promover atividades mais práticas, que permitam aos alunos relacionar-se melhor entre si, desde o ensino básico até ao superior. É fundamental aliviar a pressão académica.

Este é, aliás, um dos motivos pelos quais defendemos os cursos profissionais. Ao pressionar todos os alunos a seguir para a universidade, estamos a criar frustração. Um jovem que prefere seguir um curso profissional, por exemplo de mecânica, mas é forçado a pensar que a única via válida é a universidade, pode desenvolver sintomas de ansiedade e desmotivação.

Portanto, como comunidade, precisamos de repensar a cultura e a mentalidade que transmitimos aos jovens. O foco deve estar na diversidade de percursos e no apoio ao desenvolvimento saudável, em vez de impor um modelo único de sucesso académico.

É preocupante o aumento dos casos de violência no namoro nos últimos anos em Portugal? Como se pode combater este flagelo?

A escola pode e deve ter um papel importante, mas a educação começa em casa. A disciplina de Cidadania pode abordar estes temas, mas não resolve a questão por si só. Um dos problemas atuais é que a informação chega aos jovens de forma muito rápida e descontextualizada, sobretudo através das redes sociais, onde muitas mensagens passam sem qualquer filtro. Por exemplo, vi recentemente uma tendência em que um grupo de raparigas ironizava sobre namoros possessivos, criticando de forma humorística o comportamento de parceiros que vigiam as mensagens do telemóvel. Apesar de ser irónico, este tipo de conteúdo é consumido pelos jovens de forma superficial, podendo transmitir mensagens erradas sobre relacionamentos e respeito.

Por isso, a família continua a ser o primeiro espaço de educação e prevenção. Os pais precisam de ter conversas claras e apropriadas à idade dos filhos, explicando que certos comportamentos não são aceitáveis e ensinando-os a relacionar-se de forma saudável e respeitosa. A escola complementa, mas é dentro de casa que se criam os alicerces para a prevenção da violência e para a formação de jovens conscientes e responsáveis.

Pode fazer sentido criar uma rede de psicólogos no ensino público?
Na verdade, já existem psicólogos nas escolas públicas. O problema não é a falta de profissionais, mas sim que muitos jovens não reconhecem que estão a sofrer. Só percebem quando chegam a situações extremas e insuportáveis.

Os professores e auxiliares podem e devem estar atentos, mas muitos sinais passam despercebidos porque acontecem em momentos isolados ou quando os jovens estão sozinhos. Muitas vezes, estes comportamentos são normalizados dentro do grupo de amigos, dificultando a deteção precoce.

A escola tem um papel importante em identificar situações de risco e em sensibilizar os alunos, mas a responsabilidade principal continua a ser da família. Quando a escola percebe um problema, deve comunicar à família, pois é nesse grupo mais próximo que se consegue ter uma conversa efetiva e apoio real.

Não acredito que campanhas digitais ou vídeos curtos nas redes sociais sejam eficazes por si só. Mesmo que cheguem a alguns jovens, não atingem o público em geral. O verdadeiro impacto surge no contacto próximo, com os adultos que rodeiam os jovens – pais, professores, auxiliares e outros responsáveis – que podem intervir de forma direta e significativa.

JP empenhada em recuperar o partido

Falou-se muito da crise do CDS e até se ouviu a ideia de uma possível morte anunciada do partido. No entanto, obteve bons resultados nas últimas eleições autárquicas. Quer comentar?

A ideia de morte do CDS foi, para muitos, esperada e até desejada, mas não aconteceu. E isso deve-se, em grande parte, à renovação e à solidez dos nossos valores, que continuam únicos em Portugal. Por muitos partidos que surjam, não existe, até hoje, nenhum alinhado com aquilo que o CDS defende.

A renovação é sempre importante e no caso da Juventude Popular, o nosso papel tem sido crucial. Como presidente da JP, trabalho para integrar os jovens no partido, permitindo que contribuam com energia e ideias, mas mantendo sempre a ligação aos valores centrais. A Juventude Popular é uma estrutura autónoma do CDS, mas trabalha em conjunto com o partido, promovendo as nossas bandeiras e medidas de forma a fortalecer a sua ação política.

A comunicação também teve um impacto relevante na recuperação do partido. Foi necessário recentrar a imagem do CDS, corrigindo perceções erradas e destacando os valores que defendemos.

No entanto, é importante esclarecer que renovação não significa mudança de valores. Mantivemos a essência do CDS, fiéis aos nossos princípios. Entraram pessoas novas, com ideias frescas, o que é positivo, mas sem comprometer os valores do partido. A JP, neste processo, tem assumido um papel crescente dentro do CDS, ocupando posições relevantes e contribuindo para a renovação geracional e para a recuperação da força do partido, algo que considero muito satisfatório.

Como reter os jovens portugueses em Portugal?

O objetivo é simples: criar condições para que os jovens permaneçam em Portugal e, se estiverem no estrangeiro, incentivá-los a regressar. Temos jovens muito talentosos, desde doutoramentos e mestrados, até outros sem formação académica superior, mas que desempenham funções essenciais para o país. Todos eles são importantes para o futuro de Portugal.

Independentemente do perfil, da formação, da capacidade ou da ambição dos jovens, é fundamental que se mantenham em território nacional. E, para aqueles que já estão fora, é necessário mostrar-lhes as vantagens de regressar, de forma a recuperar talento e garantir que Portugal beneficia das suas competências e contribuições.

Como é que a Juventude Popular olha para a questão da imigração?

Não é a AD, nem o CDS, nem o PSD que se aproximaram do discurso do Chega. O Chega é que trouxe uma abordagem própria, enquanto nós defendemos posições semelhantes, mas de forma moderada. Os partidos de esquerda têm tentado dizer que a AD está a “aproximar-se” do Chega, mas isso não corresponde à realidade.

O problema real começou durante os governos do Partido Socialista, que agravaram a situação da imigração em Portugal. Por isso, a AD tem de atuar para resolver uma questão concreta e real. Isso não significa que nos estejamos a aproximar do Chega, mas apenas que estamos a lidar com um problema existente e que precisa de soluções.

A tentativa de associar a AD ao Chega é uma estratégia de populismo político, destinada a gerar perceções erradas e confusão junto do eleitorado. Durante a campanha, e também no mandato anterior das legislativas, esclarecemos consistentemente a nossa posição. As pessoas estão a começar a perceber, nas urnas, que estas tentativas de comunicação da extrema-esquerda não correspondem à realidade.

Numa eleição que contava com duas candidatas, acredita que é um passo para diminuir a resistência às mulheres na política?

Não considero que exista resistência à liderança feminina. O que acontece é que, muitas vezes, as mulheres não se disponibilizam para assumir esses cargos e isso está perfeitamente bem. O meu facto de ser presidente da Juventude Popular, assim como a Sofia Pereira, no Partido Socialista, ou outras mulheres em diferentes contextos, pode servir de incentivo para que mais mulheres participem na política.

Durante os meus 14 anos na JP, passaram muitos presidentes antes de mim, todos homens, e nunca senti que houvesse resistência a uma mulher assumir a liderança. O que sempre imperou foi o mérito: os candidatos com mais mérito são aqueles que avançam e se propõem a votos. A minha eleição mostra que a política está aberta às mulheres e que elas podem ocupar cargos de liderança.

Mas ainda existe um caminho a percorrer, nas últimas eleições autárquicas com apenas 16% de eleitas femininas para liderar autarquias, apesar do crescimento em 2021 era 9%?

Nas últimas eleições autárquicas, a percentagem de mulheres eleitas aumentou de 9% para 16%, o que é um sinal positivo. Este tipo de participação permite que os cidadãos se habituem a ver mulheres em cargos de decisão e liderança, e também demonstra que as mulheres conseguem desempenhar estas funções com competência e proximidade às comunidades.

Embora este aumento seja positivo, não acredito que seja suficiente para gerar automaticamente uma subida massiva na participação feminina. É essencial que as mulheres queiram assumir responsabilidades e que mostrem a sua visão. Ainda vivemos num mundo político maioritariamente masculino, mas é importante que a perspetiva feminina seja valorizada e integrada nas decisões políticas.

Que mensagem deixa aos jovens portugueses como presidente da Juventude Popular?

O meu principal apelo é que participem ativamente na política e na comunidade, independentemente do partido a que pertençam. Podem ser de outros partidos, o importante é que discutam, envolvam-se e façam parte das soluções.

No contexto da Juventude Popular, convido os jovens que partilham os nossos valores – democracia cristã, liberalismo económico e conservadorismo nos costumes – e que queiram promover a família, abrir oportunidades de carreira e ampliar a liberdade na educação, a juntarem-se a nós. A participação ativa é fundamental para construir soluções concretas para o país e para fortalecer os valores que defendemos.