A luta pelo reconhecimento do catalão foi muito além da linguística. Na Catalunha, a língua representa identidade, cultura e expressão política, mas também ações constantes de defesa pela legitimidade, tanto em Espanha como na União Europeia. Silenciado na ditadura de Franco, entre 1939 e 1975, o catalão foi condenando e resistiu na clandestinidade. Hoje, os desafios são outros, mas ter de mudar constantemente para o castelhano em contextos de diálogo e conversação é uma das situações que se perpetuam e que mais aborrecem os falantes de catalão. Elena Jiménez-Botías é comissária do Conselho de Assuntos Internacionais e Jurídicos da associação Òmnium Cultural, uma entidade criada em 1961 para promover a língua e a cultura catalã, assim como a educação, a coesão social e a defesa dos direitos desta região autónoma de Espanha. Ligada ao associativismo há mais de 25 anos, a especialista em ciência política partilha o enquadramento dessa luta que classifica de “exaustiva”: “A Constituição espanhola refere-se ao dever e ao direito de saber espanhol. No entanto, apenas menciona o direito de conhecer outras línguas oficiais. Os direitos que não têm obrigações como ponto de partida são difíceis de garantir”. E acrescenta: “É realmente exaustivo ter de lutar por isto todos os dias.”
Embora a União Europeia se apresente frequentemente como defensora da diversidade cultural e linguística, o catalão continua a não ter estatuto oficial nas instituições europeias. Elena Jiménez-Botías esclarece que “é uma língua minoritária que requer proteção especial para prosperar. É falada por dez milhões de pessoas, mas, como não é a língua oficial de um Estado, enfrenta uma vulnerabilidade que outras línguas da UE não têm”.
Nas ruas de Barcelona, o catalão coexiste constantemente com o castelhano, o turismo e a mobilidade internacional. Para alguns, este universo multilinguístico reflete uma lenta erosão da língua na vida quotidiana. Muitos catalães continuam a mudar automaticamente para o castelhano quando falam com estrangeiros ou mesmo com outros espanhóis. “Acredito que existe discriminação e, acima de tudo, uma violação dos direitos linguísticos dos falantes de catalão, uma vez que são forçados a mudar de língua em muitas situações. Por exemplo, isto pode acontecer no médico, no tribunal, com a polícia ou no cinema. Há muitas situações em que é difícil evitar mudar de idioma e é necessária muita determinação para não o fazer”, confirma.
Elena Jiménez-Botías salienta que “o compromisso do governo espanhol de promover o catalão como língua oficial da União Europeia ainda não produziu quaisquer progressos concretos”, o que interpreta como “falta de vontade ou de capacidade de negociação”. A representante da associação cívica de promoção da cultura e língua catalã sublinha que “se trata de uma decisão política, uma questão de poder e de Estado”, reforçando que “o obstáculo é puramente político”.
Os receios do governo espanhol e da União Europeia de que tornar o catalão uma língua oficial da União Europeia promoveria a independência é completamente descartada pela comissária: “Esse reconhecimento não facilita, de forma alguma, que haja mais ou menos apoiantes da independência. Pelo contrário, uma melhor integração do multilinguismo poderia até reduzir as tensões.” Este argumento dissipa um dos receios políticos expressos em Bruxelas de que o reconhecimento do catalão criasse um precedente separatista. “Se existe diversidade linguística, todas as línguas deveriam poder ser oficiais. O catalão na é diferente”, salienta.
Apesar de todos os obstáculos e dificuldades, a representante do Òmnium não perde a esperança: “Temos de ser otimistas. Podemos inverter as tendências com vontade e determinação. O catalão é uma ferramenta para a coesão social e a nossa associação continua o caminho em sua defesa.”
Promover a língua para preservar a cultura
Èric López, docente de História, nasceu em Reus, Tarragona, a quase 90 quilómetros de Barcelona. Sempre falou catalão com a família do pai e nem sempre com o lado materno. O castelhano só apareceu na sua vida quando tinha quatro anos, altura em que a mãe lhe ensinou a falar o idioma oficial de Espanha. “A família da minha mãe é o que se designa coloquialmente por ‘txarnega’, ou seja, alguém que se mudou de outra região de Espanha para a Catalunha”, conta. Para o jovem, o debate em torno do reconhecimento oficial da língua catalã na União Europeia está profundamente interligado a questões de identidade cultural e preservação, mais do que a uma ideologia puramente política. “Sempre fiz uma distinção clara entre política e cultura. Falar catalão não significa necessariamente apoiar a independência.”
Quando fala, Èric Lopez mistura, muitas vezes, os dois idiomas de forma inconsciente: “Às vezes, alterno entre as línguas sem me aperceber. Contudo, dada a situação atual na Catalunha, tento sempre manter o catalão. Isso raramente causa problemas ou conflitos. De qualquer forma, quando alguém não passa para o catalão, fico nervoso; fico em alerta máximo. Tenho a sensação de que sou eu quem está a falar uma língua estrangeira.”
O jovem historiador recorda algumas experiências em que falar catalão em público suscitou olhares desconfortáveis ou reações negativas. Segundo Èric Lopez, algumas pessoas consideram o catalão “ofensivo” ou associam-no automaticamente ao separatismo político. “No auge do movimento de independência , lembro-me de viajar para Valência e de falar com os meus pais em catalão num bar e de ser mal visto.”
Hoje em dia, apoiar o catalão é, no seu entender, uma forma de evitar que a língua e a cultura possam ser gradualmente enfraquecidas. “O que me interessa é que a minha cultura e a minha língua sobrevivam”, afirma, descrevendo o que considera ser uma “opressão cultural gradual” proveniente de fora da Catalunha. “É impensável que, na Comunidade Valenciana e nas Ilhas Baleares, o número de aulas de catalão esteja a ser reduzido e que haja uma tentativa de minar a língua. Como profissional da área da educação, estou atualmente a viver uma verdadeira guerra ideológica. Estava a dar uma aula quando uma rapariga me perguntou: ‘Desculpe, fala espanhol? Porque não consigo compreendê-lo.”‘
No seu entender, assumir o catalão como língua oficial seria uma forma de preservação do património cultural: “As pessoas compreenderiam que aqui falamos outra língua e que temos a nossa própria cultura. Por isso, penso que seria algo positivo. Seria como uma espécie de marketing, abrirmo-nos ao mundo exterior e dizer: ‘Olhem, somos diferentes do resto de Espanha’, ‘existem muitas culturas diferentes’, ‘e nós somos uma delas, e estamos aqui, não é?.” Èric Lopez acredita que o reconhecimento da UE funcionaria como uma forma de reconhecimento cultural, ajudando quem está de fora a compreender que a Catalunha representa uma comunidade linguística distinta no seio da Europa. Perder uma língua é perder uma cultura. A literatura, a música e a arte perdem-se. Uma batalha que durou séculos está perdida.”



Idioma vulnerável
Tanto Laia Pozos Gil como Ibone Fernandez, ambas com 23 anos, mudaram-se para Barcelona vindas de outras regiões de Espanha para estudar ao nível de mestrado, na Universidade de Barcelona (UB). Em vez de verem a língua como uma barreira, as duas jovens assumem o respeito pelo idioma e vontade de o aprender. Natural de Madrid, Laia Pozos Gil chegou mesmo a frequentar um curso: “Queria aprender catalão. Conhecia alguns catalães que se queixavam um pouco porque sentiam que a língua se estava a perder e, por isso, queria mesmo aprender quando viesse para cá.” Como revela, nem todos os membros da sua família partilham da mesma opinião e o mesmo respeito pelo catalão: “É verdade que tenho familiares que são mais politicamente da direita e a opinião que têm dos catalães não é muito boa, ou dizem coisas como: ‘Vais para a Catalunha, mas nem penses em aprender catalão.”
Laia Pozos Gil salienta que, na Universidade de Barcelona, a maioria dos professores que sabe catalão fala a língua, bem como os estudantes. “Acho que estão, de facto, a tentar garantir que o catalão se mantenha vivo, transmitindo assim a ideia de que existe um esforço genuíno para manter a língua viva.” Ao mesmo tempo, assinala a pressão do turismo e do castelhano na vida quotidiana. “Por exemplo, uma vez, ia fazer uma reserva num sítio qualquer. Liguei-lhes, falei em catalão e responderam-me em castelhano. Por isso, não foi porque eu não sabia completamente falar catalão, mas sim porque a outra pessoa não sabia.” Episódios do quotidiano como este resumem bem a fragilidade do uso social da língua fora dos espaços mais protegidos.
Natural de Bilbau, no País Basco, Ibone Fernandez partilha como decidiu aprender o idioma: “A razão pela qual me inscrevi em catalão é porque também cá existe uma língua regional. E quando as pessoas vão ao País Basco e não fazem o esforço de aprender a língua é algo que não acho correto. Logo, nunca poderia fazer o mesmo. Não poderia ir à Catalunha, onde se fala uma língua regional e não a aprender.” A jovem associa a sua experiência basca à defesa do euskera e do catalão como património a proteger: “Em geral, todos temos apreço pela língua e a intenção ou o desejo de a preservar.”
A jovem basca também é muito clara quanto ao estatuto oficial da língua catalã na União Europeia: “Não é justo que uma pessoa tenha de utilizar uma língua que não é a sua língua materna para ler documentos relacionados com a UE. Alguém cuja língua materna seja o castelhano consegue lê-los sem qualquer problema, mas os catalães, bascos e galegos, que podem não ter o castelhano como primeira língua, têm um pouco mais de dificuldade.” A terminar, Ibone Fernandez lembra uma condicionante pouco abordada, defendendo que o debate sobre o catalão na zona euro é um conflito entre custos e política: “É verdade que existe a questão de que custaria muito dinheiro porque teríamos de pagar tradutores e assim por diante. No fim de contas, é algo que seria mais justo para certas pessoas”, reforçando assim a necessidade de uma comunidade ter o direito de ver a sua língua reconhecida em pé de igualdade.