Cartoons: Transformar a indignação em desenho

Um lápis afiado pode ser mais poderoso do que muitos discursos políticos. Em tempos de instabilidade mundial, os cartoonistas portugueses assumem o papel de críticos visuais da democracia

Numa época em que a política se discute ao ritmo das redes sociais, há uma forma de expressão que se mantém firme: o cartoon político. Em Portugal, esta tradição não é de agora. Pelo contrário, tem raízes profundas e continua a reinventar-se com as ferramentas do presente. Inspirados por Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905), figura central do cartoon político e pioneiro da caricatura moderna no país, os cartoonistas continuam a mostrar que são imprescindíveis para despertar o sentido crítico e combater o conformismo social.

Durante a Primeira República, os cartoons tomaram conta das páginas dos jornais, acompanhando a instabilidade política com um olhar sarcástico e oportuno. Mas foi com a chegada da ditadura do Estado Novo que o cartoon enfrentou o maior dos seus inimigos: a censura. Publicações como O Século, A Paródia e O António Maria, que eram repletas de imagens que desnudavam os políticos da época, viram-se obrigadas a trocar a denúncia direta pela sugestão subtil dos cartoonistas. Mestres da criatividade ardilosa, encontraram formas engenhosas de contornar os limites impostos através da metáfora e do simbolismo. Com muita subtileza, comentavam os acontecimentos do país, sem correr riscos diretos. Numa altura em que se dizia pouco, os cartoons insinuavam muito.

De acordo com a dissertação O Cartoon como Crítica Social, de Hélder Santos (2015), muitos artistas optaram pelo humor simbólico ou focado em temas sociais menos “sensíveis” para escaparem às garras da censura. Era uma arte de entrelinhas, em que o que não se desenhava pesava tanto quanto o que se publicava. O cartoon mantinha-se vivo, mas domesticado, sendo muitas vezes decifrável apenas por quem lia nas entrelinhas do traço.

Hoje, os cartoonistas continuam a apontar o lápis aos mesmos alvos: corrupção, desigualdade, extremismo. Segundo Adão Silva, cartoonista do Diário do Minho, a política é o palco mais fértil de acontecimentos que inspiram o traço dos artistas. “Felizmente ou infelizmente, acho que é mais rico em temas políticos. Devido a isso, nos últimos tempos, trabalho não tem faltado”, afirma.

De acordo com o Dicionário de Jornalismo, de Fernando Cascais, o cartoon é um “desenho que ilustra e comenta humoristicamente ou satiricamente acontecimentos/questões políticas, sociais, desportivas e outras publicado na imprensa”. A atual crise política portuguesa tem sido um manancial inesgotável para os cartunistas nacionais. Desde as polémicas demissões no Governo até aos casos de alegada corrupção que têm abalado as instituições, estes artistas transformam diariamente a complexidade política em imagens de fácil leitura. Para Adão Silva, a “novela política” que gerou a queda do Governo de Luís Montenegro, a 11 de março de 2025, pareceu um “circo, um clube privado em que os meninos brincavam lá de dentro e o povo assistia”. Era, por isso, necessário explicar aos portugueses o que se estava a passar e foi através do seu estilo, satírico e não muito ofensivo que o autor o fez.

O cartoon acompanhou a infância de Adão Silva. Desde cedo que colecionava páginas de banda desenhada e cartoons que vinham nos jornais, na época da Revolução de Abril. “Para um miúdo, para aí com os seus três ou quatro anos, o exagero era um bocadinho estranho e fascinante ao mesmo tempo, além de que tinha um tom de comédia”, conta. Os textos que acompanhavam as ilustrações passavam despercebidos, por um lado porque não os percebia, por outro porque o contexto lhe era distante.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Com o passar dos anos, a tecnologia foi evoluindo e o cartoon ganhou uma nova vida. As redes sociais, por exemplo, tornaram-se um novo palco para a exibição e crítica. Permitem também uma difusão mais rápida e ampla, sem deixar nada por dizer. Com estas plataformas, os cartoonistas têm um espaço privilegiado para exporem o trabalho, que, atualmente, combina técnicas tradicionais com as ferramentas digitais. Adão Silva é o exemplo desta tendência. A curiosidade de juntar o traço e a cor que lhe são característicos com algo gerado por IA está cada vez mais presente: “Tenho curiosidade de, um dia, experimentar algumas coisas. Não será um trabalho 100% feito no ChatGPT, mas tentar uma adaptação. Como, no meu trabalho, o traço também é todo feito à mão e só depois é que ‘scaneio’ o desenho no computador e a cor é dada no Photoshop, aí já está um equilíbrio entre o manual e o digital.”

O cartoon político português, ontem feito com lápis e caneta e hoje construído por pixels, mantém a sua essência: provocar, incomodar e fazer pensar. Num mundo em constante mudança, talvez o mais português dos desenhos continue a ser aquele que, com humor e sátira, diz o que ninguém ousa dizer.

Osvaldo de Sousa, especialista português em humor gráfico, afirmou na obra “História da Arte da Caricatura na Imprensa em Portugal”, em papel ou em digital, o cartoon é “uma forma de comunicar onde a estética se alia a um grão divino de inteligência”. 

“Não podemos agradar nem a gregos nem a troianos ao mesmo tempo.”

Adão Silva, cartoonista

Nem sempre o cartoon político é bem recebido por todos. Nos últimos anos, vários cartoonistas portugueses enfrentaram processos judiciais ou pressões editoriais devido ao conteúdo dos seus trabalhos. Exemplo disso é a criação “Carreira de Tiro”, de Cristina Sampaio para o programa da RTP Spam Cartoon. Nesta obra, vê-se um polícia a treinar tiro em alvos de diferentes cores, algo que não agradou às forças de segurança, que, em comunicado, consideram o trabalho “ofensivo” e “profundamente injusto”.

Além de uma queixa na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), o Sindicato Nacional da Carreira de Chefes da Polícia de Segurança Pública avançou ainda com uma queixa-crime contra o coletivo de autores responsável pelo Spam Cartoon. De acordo com o sindicato da PSP, houve por parte da equipa responsável pelo espaço de arte humorística da RTP “uma intenção de vilipendiar todos os polícias, retratando-os como xenófobos e racistas” e alegou que, além de difamar as forças policiais, o cartoon visava incitar o ódio e o ataque à ordem pública.

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), por sua vez, ficou do lado da RTP e do coletivo de autores do Spam Cartoon, considerando que a ética de antena e os limites da liberdade de programação não foram colocados em causa. Por esta ocasião, a ERC recordou na sua deliberação final que o “os cartoons integram um género que é, por natureza, transgressor de limites, que recorre à caricatura, ao exagero e ao humor para transmitir uma opinião sobre determinado assunto”.

Polémicas à parte, facto é que o cartoon em causa nem sequer se referia às forças de segurança portuguesas, mas sim às de França. “Tem a ver com a ocorrência em França, da morte de um jovem francês às mãos da polícia que depois deu origem a vários tumultos pelo país inteiro”, explicou André Carrilho, um dos artistas que assina a rubrica da RTP, à Agência Lusa.

Também Adão Silva enfrentou caminhos apertados por causa das suas ilustrações. Não foi a nível nacional, como Cristina Sampaio, mas foi uma experiência que guardará para o resto da vida. Era militar, tudo era muito sensível, havia uma espécie de “cinzentismo”.

Na sua carreira, o cartoonista também chegou a ser foi repreendido. “Estive a satirizar uns comportamentos que que não devia haver”, confessa. Contudo, apesar deste momento conturbado, Adão Silva considera que “as pessoas estão cada vez mais intolerantes e que é difícil, nos dias de hoje, não ferir alguma suscetibilidade”. 

Traduzir uma ideia complexa

Os ilustradores têm de andar sempre preparados para qualquer acontecimento. “Uma pessoa não pode estar à espera da inspiração, tem de andar sempre preparado para qualquer tema”, afirma Adão Silva. 

No entender do criador, “o tempo é o pior inimigo de um ilustrador. O mundo não para e, consequentemente, as notícias também não. Há notícias que têm mesmo de sair no próprio dia, dois dias depois já perderam a atualidade, o timing está ultrapassado”. Assim sendo, para Adão Silva, seja através de imagens ou pequenos textos, “o artista tem de tomar notas para depois saber o que transformar numa imagem”. 

Para além da crítica, os cartoons ganham cada vez mais espaço na educação. De acordo a dissertação “Uma Caricatura de País”, apresentada na Universidade Nova, em 2013, estas imagens são poderosas ferramentas pedagógicas ao promoverem o pensamento crítico entre os alunos e a análise de contextos complexos através de imagens aparentemente simples.

Crítica que provoca riso

Segundo a mesma investigação, “o cartoon político estimula a literacia visual e política dos cidadãos, tornando-se uma ferramenta de reflexão quase instantânea”. Para além da crítica, desempenha também uma função catártica. Num país que enfrenta desafios económicos e sociais significativos, o humor funciona como válvula de escape. “Quero acreditar que pode ajudar a fazer rir sobre algumas situações”, declara Adão Silva. Como esclarece: “Através do cartoon processamos coletivamente situações que, de outra forma, seriam apenas fonte de frustração e impotência. O humor, mesmo quando mordaz, funciona como catalisador do pensamento crítico.”

A capacidade de provocar reflexão e aliviar tensões revelou-se particularmente relevante em momentos de crise política e social. Ao longo da história portuguesa, vários cartoons marcaram momentos de viragem, funcionando como retratos visuais da inquietação coletiva. Criada por Bordalo Pinheiro em 1875, a personagem Zé Povinho tornou-se uma das maiores figuras que ilustram o povo português. Atualmente, nos livros de história das escolas básicas, o ‘Zé’ preencheu inicialmente várias vinhetas publicadas pelo autor com o propósito de crítica “ao sistema político e aos seus protagonistas”.

Décadas depois, já no século XX, João Abel Manta viria a dar continuidade a esta tradição crítica, durante o período conturbado que se seguiu à Revolução dos Cravos. Repletos em simbolismo e ironia, os seus cartoons ofereceram uma leitura penetrante dos dilemas do Portugal pós-25 de Abril. “Portugal, Amigos Novos” é um dos exemplos. 

“Portugal, Amigos Novos”, de João Abel Manta, foi publicado n’O Jornal, em 1975

O futuro do cartoon político português

Num país onde o poder criativo foi, durante décadas, vigiado pela censura, preservar o cartoon político é mais do que uma questão de memória. É um ato de resistência democrática. Como destaca Hélder Santos, “esta forma de expressão visual tem a capacidade única de expor injustiças e despertar consciências, funcionando como um documento crítico do seu tempo”. Entre o traço e a sátira, o cartoon não apenas diverte; fiscaliza, desafia e dá voz ao inconformismo. 

O avanço da tecnologia é algo que preocupa os criativos. Os benefícios são muitos, mas os desafios a enfrentar não são poucos. Há o receio que os “outros” já não saibam distinguir o feito à mão e o produzido pela máquina; há o medo de uma descrédito no trabalho artístico e de um desemprego certo.

Enquanto se multiplicam debates sobre crescimento económico, défices orçamentais e reformas estruturais, a cultura continua, em muitos casos, com o papel de figurante no palco da governação. “Falta, no Parlamento português, cultura com C maiúsculo. É um bocado o último recurso a que se vai dar atenção”, acredita Adão Silva.

Apesar dos desafios a imprensa tradicional enfrenta, o cartoon político parece ter assegurado o seu lugar no ecossistema mediático português. A combinação de tradição e inovação tem permitido a adaptação a novos formatos, como, por exemplo, o vídeo. 

Num momento em que o mundo atravessa diversos ventos e tempestades, os cartoonistas continuam a desempenhar o seu papel histórico: transformar a indignação em desenho, a complexidade em clareza e, muitas vezes, a tragédia em comédia.