O cartoon está a conquistar cada vez mais apreciadores. E a tendência não será imune ao facto de existir um aumento de festivais e iniciativas no país para mostrar o melhor da crítica e humor através do desenho gráfico. A 27ªedição do Cartoon Xira, que terminou a 31 de maio, em Vila Franca de Xira, é a prova que o cartoon tem lugar em Portugal e veio para ficar. No discreto Celeiro da Patriacal, as cores vivas e as obras que preencheram cada parede convidaram a um mergulho nos diferentes estilos e abordagens dos criadores nacionais, com destaque ainda para a obra da cartoonista catalã Maria Picassó.
A primeira imagem da ampla sala do edifício a atrair a atenção dos visitantes é a caricatura de Donald Trump. Os traços exagerados e a expressão facilmente reconhecível tornam a figura quase imediata ao olhar. Ao longo da exposição, a sua presença repete-se em vários outros espaços.

À primeira vista, trata-se de uma exposição de cartoon com um propósito claro: fazer rir. No entanto, à medida que avançamos, percebemos que nem todas as obras provocam a mesma reação. Algumas arrancam um riso imediato; outras exigiam mais tempo, contexto e interpretação. Há momentos em que ficamos presos a uma imagem, à procura de uma referência que escapa. À volta, o processo repete-se: observar, tentar compreender, reagir ou simplesmente seguir para a próxima. Ainda assim, o riso acaba por surgir, mesmo que de formas diferentes.
Grande parte das obras remete para temas políticos e sociais, transformando acontecimentos e figuras mediáticas em caricaturas que não só provocam humor, mas também convidam à reflexão. Uma reflexão que é, muitas vezes, evitada no quotidiano.

Apesar da diversidade de estilos e abordagens, há um elemento comum que atravessa toda a exposição: a dependência do contexto. Em muitas das obras é quase obrigatório que o observador tenha um conhecimento prévio, seja sobre política internacional, figuras mediáticas ou acontecimentos recentes. Sem esse enquadramento, o humor perde-se ou transforma-se apenas numa imagem curiosa.
Esta necessidade de interpretação levanta uma questão importante: Será que este humor é universal? Ou dependerá da cultura de quem observa? Afinal, rimo-nos todos da mesma forma? Basta pensar na história da imprensa francesa e no atentado ao jornal satírico Charlie Hebdo, a 7 de janeiro de 2015, para perceber o poder desta linguagem do jornalismo.



António: “O cartoon é sempre excessivo”
No meio da exposição, entre rostos distorcidos e referências políticas que saltam das paredes, surge António Antunes, o mais conhecido e polémico cartoonista português, nascido em Vila Franca de Xira e fundador do World Press Cartoon. A conversa começa de forma simples, quase casual, mas rapidamente se torna mais densa. O tema já não é apenas o que está exposto, mas aquilo que está por trás: o lugar do cartoon hoje e aquilo que o condiciona. “Os jornais evitam contratar cartoonistas. Ou então pagam-lhes tão mal que, de facto, afastam a hipótese de novos autores se interessarem pela imprensa.” A frase surge direta, sem rodeios. Para António Antunes ou só António, como assina no Expresso, “a crise do humor gráfico não é uma questão de falta de talento ou criatividade. É estrutural. Está ligada à forma como a imprensa tem vindo a perder espaço e relevância, sobretudo no papel”.
À medida que a conversa avança, torna-se evidente que o cartoon não funciona isoladamente. Depende do meio onde circula, do público que o lê e da forma como é construído. “Num jornal de características mais populares, eu defenderia os mesmos pontos de vista, mas de uma forma diferente porque eu quero ser eficaz”, explica. A palavra eficácia ganha peso. O cartoon, mais do que expressão, é comunicação. Mas essa comunicação tem características próprias.

“O cartoon é sempre excessivo.” É nesse excesso que, segundo António, encontra a sua força. “Através do exagero, do absurdo e da distorção, consegue tornar visível aquilo que, muitas vezes, passa despercebido. Não procura reproduzir a realidade, mas expor aquilo que nela é mais contraditório, mais incómodo, mais ridículo.”
Ao olhar novamente para as obras à volta, essa ideia torna-se evidente. As caricaturas não pedem apenas contemplação. Exigem reação. Algumas provocam riso imediato, outras obrigam a parar. E há ainda aquelas que ficam suspensas, à espera de um contexto que nem sempre chega.
Quando a conversa se desloca para fora da sala, para uma comparação mais ampla, a diferença entre contextos torna-se inevitável. “A França foi muito marcada pela Revolução Francesa, pelo anticlericalismo, para ter uma liberdade muito grande em relação às religiões”, aponta António Antunes. Mais do que uma questão de estilo, trata-se de uma questão histórica. “Nós aqui partimos de uma base muito complicada porque vínhamos de uma ditadura com uma ligação muito forte à Igreja.” Em Portugal, continua, “a relação com o humor, especialmente quando toca em temas sensíveis, construiu-se de forma mais lenta, mais cautelosa. Essa diferença continua, considera o cartoonista, “a refletir-se na forma como o cartoon é produzido e recebido”.

O próprio autor já sentiu esse contraste. “Tive problemas com a história do preservativo no nariz do Papa, foi discutido no Parlamento.” Um episódio que ilustra como determinadas imagens podem ultrapassar o espaço do humor e entrar diretamente no debate político e social. Ainda assim, António Antunes não fala de limites de forma rígida. Prefere outro termo: “adequação”. E explica: “Mais do que definir o que pode ou não ser dito, importa perceber como se diz e para quem. O cartoon, nesse sentido, não é apenas uma forma de expressão artística, mas uma ferramenta de comunicação que depende do contexto para funcionar.”
E se, no contexto português, o cartoon tem tendência a surgir como uma forma de comentário mais subtil e, muitas vezes, dependente do contexto imediato, em território francês, o assunto já é outro. “França já assume, historicamente, uma posição mais central e de confronto no espaço público. A tradição da caricatura política francesa não é recente e está profundamente ligada à forma como o país construiu a sua identidade política e cultural ao longo dos séculos”, distingue António.
Jornais com Charlie Hebdo, o Le Canard Enchaîné ou o respeitado Le Monde usam o traço para condensar debates políticos e sociais com ironia e inteligência. O cartoon é reconhecido como uma forma de reflexão crítica, o esplendor da liberdade de expressão, que pede ao leitor atenção e conhecimento sobre a atualidade para compreender plenamente o seu sentido.

Portugal: a liberdade depois da censura
Em Portugal, o cartoon e a caricatura seguiram um caminho próprio, moldado por circunstâncias históricas, políticas e culturais que influenciaram a forma como o humor gráfico se aproxima do público e do poder. Ao contrário da tradição francesa, marcada por confronto e ousadia, o cartoon português caracteriza-se por uma expressão mais contida e dependente do contexto. Durante grande parte do século XX, sobretudo no Estado Novo, o espaço para a sátira foi reduzido e muitos autores usaram a metáfora e a ironia como forma de escapar à censura. O desenho tornava-se, nessa altura, um ato de resistência discreta, em que a crítica se escondia sob a aparência do humor. Esta herança ainda se nota hoje na maneira como vários cartoonistas portugueses constroem o seu comentário visual.
Com o 25 de Abril e a chegada da liberdade, o cartoon ganhou outro papel na imprensa. A partir dos anos 80 e 90, jornais como o Expresso, o Diário de Notícias e o Público passaram a incluir cartoons com regularidade e o desenho humorístico tornou-se uma forma de opinião jornalística. Autores como Augusto Cid, João Abel Manta e António foram figuras marcantes nesse processo, usando o traço para condensar debates políticos e sociais com ironia e inteligência. O cartoon passou a ser reconhecido como uma forma de reflexão crítica que pede ao leitor atenção e conhecimento sobre a atualidade para compreender plenamente o seu sentido.

No presente, o cartoon português enfrenta novos desafios devido às mudanças no modo como a informação circula. A fragmentação dos meios de comunicação e a rapidez das redes sociais obrigaram os autores a repensar a relação entre imagem, tempo e público. Os cartoonistas Vasco Gargalo, Cristina Sampaio ou André Carrilho já tiveram também as suas histórias e foram alvo de críticas que tentaram coartar o direito à liberdade de expressão. Mesmo assim, o humor gráfico mantém um papel importante no jornalismo nacional. Mais do que um simples complemento da notícia, reforça António Antunes, “continua a ser uma forma de comentário independente, capaz de mostrar contradições e evidenciar o absurdo que, muitas vezes, marca a vida política”. O cartoon português preserva uma crítica ativa, mas feita com subtileza, equilíbrio e consciência do seu poder simbólico.
Ao longo da exposição, percebe-se que o humor gráfico tanto pode aproximar como distanciar, dependendo das referências, da história e dos limites de cada sociedade. Mais do que universal, o riso revela-se construído e é precisamente nessa diferença que o cartoon continua a afirmar-se como uma forma de crítica capaz de expor, questionar e dar a ver a realidade para além do imediato.