No Terreiro do Paço, encostado ao Tejo, avistam-se esculturas de areia. Algumas coloridas, outras sem cor, mas em todas as criações é visível a perfeição de quem se dedica a este ofício há onze anos. Jonas Cardoso é o autor dos amontoados de areia que se pintam em arte. É ele que mantém a manutenção do espaço, junto ao Cais das Colunas, um dos pontos turísticos mais visitados da capital. “Faço a limpeza todos os dias”, afirma o artista, revelando que é reconhecido pela autarquia de Lisboa e pela Marinha.
Se para ser considerado artista profissional basta que a sua obra seja a principal fonte de rendimento, será o caso de Jonas, que acredita que “o artista não tem que pedir.” O escultor de areia vive daquilo que as pessoas colocam na sua manta, presa por pedras. “Vivo das doações”, confessa o escultor. O escultor assume que também há um lado menos positivo de trabalhar na rua: o vandalismo. “Não faz sentido chegar numa manhã para fazer o seu trabalho e encontrar tudo destruído”, lamenta.



Com a música no ADN
Também no Cais das Colunas, outro artista encontrou a sua verdadeira vocação, ou melhor, encontrou-se novamente. Numa tarde calma, António Risques avistou o Alex a tocar. A energia do amigo cativou-o e, nesse momento, decidiu que faria o mesmo. Assim nasceu o artista António Risques, conhecido por todos aqueles que se cruzam com ele graças ao estilo inato com que toca as melodias pop entre os acordes da guitarra e sopros na harmónica.
“Tocar tornou-se o escape. Quando estou na rua, a ansiedade transforma-se em tranquilidade.”
António Risques, guitarrista
A sua jornada teve um início complicado. Apesar de ter começado a tocar em 2012, só obteve a licença em 2015, ano em que começou a atuar em Belém. Mesmo assim, considera-se afortunado por ter conseguido adquirir o título que lhe permite dar asas ao seu sonho: “É um processo demorado, já não emitem licenças com tanta facilidade.” No seu entender, “esta questão é um forte entrave aos novos artistas que não conseguem revelar a sua arte ao mundo. Há espaço para todos.”

Os versos e acordes partilhados por quem passa serviram-lhe de refúgio contra os infortúnios da vida: “Tocar tornou-se o escape. Quando estou na rua, a ansiedade transforma-se em tranquilidade.” Inicialmente, tratava-se de procurar uma nova oportunidade de trabalho: “Estava desempregado e quis experimentar atuar.” Estava longe de imaginar que o que aprendera aos 14 anos – tocar e atuar – acabaria por se transformar numa ocupação e, talvez, no trabalho dos seus sonhos.
O músico demonstra um profundo apreço pela cultura, mas sente que é um setor pouco valorizado em Portugal. “Outras manifestações artísticas tipicamente associadas à cultura portuguesa são mais reconhecidas e estimadas, enquanto que as artes performativas de rua ficam em segundo plano”, defende. António Risques teve também uma experiência no estrangeiro que o ajudou a ter a perceção da diferença. “Na Irlanda, há espaços próprios destinados aos músicos de rua.”

“Todo piso será palco”
A consciência desta situação não o desencoraja. Antes pelo contrário: motiva-o a inovar e a procurar mostrar o valor da sua arte. Recentemente aceitou participar em diversos projetos independentes, desde atuar em sunsets no Yellow Boat, durante dois anos de coração cheio, até tocar num concerto com outros músicos de rua em Lisboa.
O artista idealiza um país que saiba aproveitar novos talentos e que dê oportunidade às pessoas para mostrarem o seu potencial: “Deveria existir um espaço reservado para os artistas de rua em Lisboa, que é uma capital de cultura.” O facto de uma iniciativa a este nível exigir – afirma – “esforço e trabalho pelas juntas de freguesia e pela Câmara Municipal de Lisboa acaba por não sair do plano da imaginação”.
“A minha arte é reconhecida. Sinto o feedback das pessoas, tanto pessoalmente quanto nas redes sociais.”
António Risques
António Risques revela-se um artista multifacetado. Embora cante músicas pop em inglês, continua a valorizar a língua e a cultura portuguesas. Nas composições originais, canta melodias na língua materna explorando temas universais como o amor, as relações, a esperança, a tristeza e a introspecção. No entanto, mesmo tendo enviado as faixas originais e inovadoras do seu álbum “Cara Metade” para a livre-submissão do Festival da Canção, nunca foi selecionado para participar. Ao mesmo tempo, avança ainda que, após ter participado no programa “Rising Star”, em Portugal, nunca recebeu feedback: “Fiquei nos 50 melhores, mas nunca mais me disseram nada…”
Mesmo com os desafios sentidos, António Risques expressa que se sente valorizado por quem passa. “A minha arte é reconhecida. Sinto o feedback das pessoas, tanto pessoalmente quanto nas redes sociais”, partilha enquanto mostra um trabalho realizado sobre músicos de rua, no qual é um dos protagonistas. O artista afirma que a frase utilizada no final do vídeo deve ser compartilhada: “Todo piso será palco, toda parede, mural e a cidade inteira poesia.”

Sons que atravessam fronteiras
Na Torre de Belém, ouve-se o som de um violino. Entre as notas e o dedilhar das cordas, encontra-se o músico Moisés Barreto. A sua fama entre os visitantes vizinhos e estrangeiros tem uma razão de ser: o músico destaca-se por adaptar temas pop ao violino, criando versões instrumentais que misturam o som clássico do instrumento com os sucessos da atualidade.
A paixão pela música começou na tenra idade. Com apenas 14 anos, começou a aprender a tocar, mas o seu foco passou a ser especializar-se na arte da doçaria. Aos 25 anos, tomou uma decisão que iria mudar o rumo da sua vida e recuperar um antigo sonho. “Simplesmente aconteceu. Estava a terminar a escola de cozinha e pastelaria e quis ter a experiência de tocar na rua”, afirma Moisés Barreto.
“Os estrangeiros valorizam mais o meu trabalho.”
Moisés Barreto, violonista
Nas ruas, a interação com o público varia. Há quem acompanhe o seu trabalho e lhe atribui o devido valor, mas nem sempre o que recebe do público é animador. “Muita gente reconhece, mas também muita gente não reconhece. Depende dos dias.” O violinista revela que se sente muito valorizado pelos lojistas com quem compartilha o espaço alvo de atração turística. “Acabei por desenvolver uma amizade com a Íris e outros vendedores, o que me motiva a continuar o meu trabalho.”

Nos onze anos que tem passado a mostrar a sua arte ao mundo, notou num padrão notório entre os ouvintes: “Os estrangeiros valorizam mais o meu trabalho.” O violinista sente que são os forasteiros que vibram com a sua música e que, consequentemente, a valorizam mais, contribuindo de forma significativa para os seus ganhos. A amiga Íris relata um fenómeno incomum: “Os turistas asiáticos divertem-se imenso com a sua música, dançam ao seu lado de forma alegre.”
Os lojistas que trabalham em zonas que contam com a presença destes artistas podem, muitas vezes, ver os clientes incomodados com algumas performances, quer pelo volume da música, como pela invasão do espaço pessoal. Gislaine, funcionária do café A Brasileira, no Chiado, relata: “A arte traz vida e é positivo para as nossas vendas, mas alguns artistas são inconvenientes porque invadem o espaço do cliente.” Os comentários da funcionária coincidem com o momento em que um rapaz com uma coluna de som se estabelece junto da esplanada do célebre café. “Isto, por exemplo, incomoda o cliente… O barulho está muito perto”, comenta.
A mesma opinião não têm dois jovens japoneses, que se encontram no local. Entre risos, confessam: “Nós até gostamos do barulho”. A opinião dos turistas é unânime: “As pessoas deviam ter mais liberdade para atuar.”

Licenças para tocar
É também uma questão apontada por António Risques e Moisés Barreto, que contam que “conseguir licença para ser artista de rua é muito difícil atualmente.” Para Moisés Barreto, o processo burocrático até foi relativamente rápido, cuja duração se estendeu apenas por cerca de quatro meses. O violinista da Torre de Belém reconhece que “um artista de rua tem mais facilidade para conseguir a licença em Belém”, e reitera que “a obtenção da autorização para atuar depende muito das juntas de freguesia, das câmaras municipais”, enquanto defende que “as condições deveriam ser mais claras”. António Risques revela que já presenciou episódios onde polícias “levam o material, se o artista não tiver licença”, fazendo as atuações depender também de agentes de autoridade.
De acordo com informações fornecidas pela Junta de Freguesia de Belém, o processo de atribuição de licenças está atualmente em reavaliação. Como esclarece Daniela Cardiga Menano, técnica responsável pelo Serviço de Licenciamentos: “Anteriormente, era permitida a atribuição de licenças pela Câmara Municipal de Lisboa, mas, com a nova presidência, está a ser desenvolvido um novo método, ainda sem funcionamento definido.”
Já na freguesia de Santa Maria Maior, uma zona também marcada pela forte presença de artistas de rua, o processo é mais estruturado, mas exigente. Hugo Oliveira, técnico da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, dá conta desse processo: “Os artistas devem submeter um formulário, acompanhado de uma descrição detalhada da atuação e do espaço, com pelo menos 20 dias úteis de antecedência. Em algumas zonas, é ainda necessário o parecer da Câmara Municipal de Lisboa, sendo proibido o uso de amplificação sonora.”
Se, por um lado, as licenças acarretam dificuldades de obtenção, por outro, esse esforço acaba por ser recompensado pelo reconhecimento que estes artistas recebem, seja por turistas, locais ou vendedores. “As pessoas que trabalham aqui e veem diariamente gostam do nosso trabalho”, acredita Moisés Barreto.