Angelina, uma jovem bielorrussa em Lisboa: “Voltar a casa não parece seguro”

Com apenas 20 anos, Angelina já viveu em quatro países diferentes e enfrentou desafios que muitas pessoas não conhecem ao longo de toda uma vida. A sua história revela não apenas uma jornada pessoal de resiliência e construção de identidade, mas também a realidade de um país onde muitos jovens procuram estudar no estrangeiro em busca de melhores oportunidades, enquanto o próprio sistema da Bielorrússia tenta impedir que partam

Nascida em Minsk, capital da Bielorrússia, Angelina passou a infância rodeada pelo calor de uma família numerosa. “Vivi lá até aos 15 anos. Morávamos todos juntos num pequeno apartamento: os meus pais, avós, tios, o meu primo e até os nossos animais de estimação. Havia sempre vida à nossa volta”, recorda.

Anos mais tarde, esse sentimento de pertença contrastaria violentamente com uma imagem que nunca esqueceu: estar numa fronteira às três da manhã, rodeada de malas, sem saber se a sua família conseguiria atravessar para o outro lado.

Os primeiros anos foram marcados por momentos comuns: encontrar-se com amigos em cafés, frequentar a escola e desfrutar da familiaridade do bairro onde cresceu. Embora a vida parecesse normal, havia sinais de que algo não estava bem. À medida que a família começou a viajar para o estrangeiro, as diferenças entre a Bielorrússia e outros países europeus tornaram-se cada vez mais evidentes. “Sempre que regressávamos de férias, já estávamos à espera da próxima viagem. Percebemos que a Bielorrússia não era o auge dos nossos sonhos”, diz.

Um país de contrastes

Angelina descreve a Bielorrússia como um lugar cheio de contradições. Cidades limpas e um sistema educativo sólido, por um lado; oportunidades limitadas e repressão política, por outro. O país é governado há mais de três décadas pelo Presidente Alexander Lukashenko, cujo regime tem sido amplamente criticado pela restrição da oposição política, pela limitação da liberdade de expressão e pela repressão dos meios de comunicação independentes.

A mãe de Angelina, que trabalhava como advogada, acabou por abandonar a profissão devido ao seu desacordo com o funcionamento do sistema. Mais tarde, a família abriu um pequeno café, mas encontrou inúmeros obstáculos burocráticos. “É muito difícil ter um negócio próprio na Bielorrússia. Muitas leis parecem ter sido feitas contra quem quer abrir uma pequena empresa.” Embora a família vivesse relativamente bem, persistia um sentimento de insatisfação. Os salários diminuíram, após uma crise económica, e as oportunidades para viajar ou evoluir profissionalmente tornaram-se cada vez mais limitadas.

Para muitos jovens, a pressão para permanecer no país começa cedo. “Os estudantes que manifestam vontade de estudar no estrangeiro são desencorajados pelo próprio sistema educativo e aqueles que acabam por partir são vistos de forma diferente quando regressam”, conta. Essas experiências moldaram gradualmente a convicção de Angelina de que o seu futuro talvez estivesse noutro lugar.

O ponto de viragem: protestos de 2020

O momento decisivo chegou em 2020, após as controversas eleições presidenciais que desencadearam manifestações em massa por toda a Bielorrússia. Como muitos cidadãos, Angelina e a sua família juntaram-se às manifestações. “Íamos aos protestos todos os domingos, durante cerca de quatro meses. Era como ir à igreja. Toda a gente acreditava que, se permanecêssemos unidos, conseguiríamos vencer”, recorda.

Os protestos foram marcados pela esperança e pela solidariedade, mas também pelo medo. Muitos participantes foram filmados, detidos ou presos por expressarem oposição ao governo. “A internet era desligada. Por isso, deixávamos os telemóveis em casa e só voltávamos a consultá-los ao final do dia.”

A incerteza aumentava à medida que circulavam histórias de pessoas detidas ou encarceradas devido às suas opiniões políticas. Apesar da dimensão das manifestações, o sistema político permaneceu inalterado. O aumento da repressão convenceu a família de Angelina de que permanecer na Bielorrússia já não era uma opção.

Fuga dramática

Deixar o país revelou-se um desafio emocional e logístico. Depois de solicitar um visto humanitário para a Polónia, a família vendeu os seus bens e preparou-se para começar uma nova vida no estrangeiro. Contudo, a primeira tentativa de atravessar a fronteira terminou em incerteza. “Eram três da manhã, fazia frio e estávamos ali com toda a nossa bagagem”, lembra. Os agentes fronteiriços informaram-nos de que, devido a uma alteração repentina dos regulamentos, a sua mãe não estava autorizada a abandonar o país. Sem explicações claras e sem ter para onde ir, a família foi obrigada a regressar a Minsk, transportando as malas de volta através da fronteira mergulhada na escuridão.

Determinados a não desistir, procuraram uma rota alternativa. A viagem levou-os através da Rússia e da Lituânia, antes de conseguirem, finalmente, entrar na Polónia a pé. O momento em que atravessaram a fronteira ficou gravado para sempre na memória de Angelina: “Foi como entrar numa nova dimensão. As pessoas sorriam e ajudavam-nos. Foi nesse momento que percebemos que estávamos finalmente em segurança.”

Descobrir a identidade no estrangeiro

A mudança para a Polónia representou muito mais do que uma simples deslocação geográfica; tornou-se um momento fundamental no processo de descoberta da própria identidade. Foi aí que Angelina começou a compreender a sua orientação sexual. “Só percebi que não era heterossexual depois de ter deixado a Bielorrússia. Não era que a homossexualidade fosse abertamente condenada; simplesmente não se falava do assunto. Muitas pessoas nem sequer percebiam que era uma possibilidade”, revela.

Rodeada por uma comunidade diversa e aberta, sentiu uma libertação profunda. Ver pessoas queer assumidas pela primeira vez foi simultaneamente surpreendente e inspirador. “Fiquei fascinada com a forma como as pessoas falavam abertamente sobre quem eram.” Viver no estrangeiro permitiu-lhe começar a construir a pessoa que realmente é, livre das expectativas sociais que antes a limitavam.

Medo de regressar a casa

Apesar de ter conseguido reconstruir a vida na Europa, a possibilidade de regressar à Bielorrússia continua ensombrada pelo medo. Os controlos fronteiriços tornaram-se mais rigorosos, incluindo sistemas de reconhecimento facial e inspeção de dispositivos eletrónicos. Como descreve: “Instalam uma aplicação que procura palavras-chave nas mensagens, como ‘protesto’ ou ‘eleição’.”

Para reduzir os riscos, os pais passaram a transportar “telemóveis falsos”, durante as viagens, para renovar os passaportes. Numa dessas visitas, a mãe foi levada para uma sala separada e interrogada pelas autoridades. “Ficou lá mais de uma hora enquanto verificavam tudo.  Foi extremamente assustador”, recorda.

O interrogatório incidiu sobre as opiniões políticas da família e as suas atividades no estrangeiro, ilustrando o carácter arbitrário do sistema. As histórias de pessoas detidas, presas ou privadas dos seus passaportes são frequentes, reforçando o medo vivido por muitos bielorrussos. Essa incerteza alterou profundamente a sua perceção de casa. “Talvez estejamos a sobrestimar aquilo que o governo é capaz de fazer. Mas, se nos sentimos inseguros, não vale a pena voltar”, reflete

Vida em Lisboa: um novo começo

Hoje, Angelina estuda em Lisboa, uma cidade que descreve como um lugar de liberdade e pertença. O ambiente multicultural e acolhedor permitiu-lhe reconstruir a vida. “Sinto-me muito menos julgada e muito menos stressada aqui. Viver no estrangeiro está a ajudar-me a descobrir quem realmente sou.”

A transição não foi isenta de dificuldades. Os obstáculos administrativos continuam a complicar o seu quotidiano. Enfrentou problemas para abrir uma conta bancária devido à sua nacionalidade bielorrussa e teve de lidar com processos longos e complexos para obter autorização de residência. Apesar disso, mantém-se determinada a construir um futuro estável.

Entre dois mundos

A história de Angelina reflete a experiência mais ampla de muitos jovens bielorrussos que abandonaram o seu país em busca de segurança e oportunidades. Durante uma breve visita a Minsk, reparou na ausência de muitos jovens – um sinal silencioso de uma geração que procura o seu futuro noutros lugares. “Se não fosse a política, recomendaria visitar o país”, admite.  E continua: “Mas não posso garantir a segurança das pessoas, e isso torna irresponsável fazê-lo.”

O seu futuro permanece em aberto, com possibilidades em Portugal, Espanha ou Itália. No entanto, independentemente do lugar para onde a vida a leve, estas experiências moldaram profundamente a sua identidade e a capacidade de resistência. Angelina continua a equilibrar as memórias da infância com a realidade de construir um novo sentimento de pertença longe da terra natal.

Para a jovem, o lar já não é um lugar fixo, mas um sentimento que continua a procurar. Depois de viver em vários países, encontra-se agora entre as memórias do passado e as possibilidades do futuro, representando a experiência de uma geração que constrói novas vidas para além das fronteiras do seu país. Ao refletir sobre como chegou aqui, as suas palavras resumem a essência da experiência e ecoam muito para além da sua história pessoal: “Voltar a casa não parece seguro.”