Alexandre Bento Lda: 40 gavetas de história que se irão fechar em 2027

Em fevereiro de 2026, Lisboa entrou para o Top 10 dos melhores destinos europeus e a especulação imobiliária não para de aumentar. Nem a classificação de Lojas com História atribuída pela autarquia consegue travar o encerramento de espaços comerciais que fazem parte do ADN da cidade. A próxima vítima é a retrosaria Alexandre Bento Lda, que entra no último ano de vida

Lisboa, 1954. Um rapaz de 13 anos corre para apanhar o elétrico duplo. Sem dinheiro para pagar o bilhete, agarra-se fortemente à lateral do transporte e vai à pendura até à Escola Patrício Prazeres, enquanto goza com o guarda-freios, que ameaça dar-lhe com um alicate nas unhas. Sempre vestido apropriadamente, usa calças, camisa e casaco. Não gosta de calções.

O menino que, em tempos, varria afincadamente o chão da mesma loja que agora se encontra vazia chama-se Alfredo. “A esta hora, há 30 anos, não se podia estar aqui a conversar porque a loja estava completamente cheia. Éramos cinco empregados ao balcão e todos tínhamos o que fazer. Agora, ninguém faz nada. É a história da loja, não tem mais história.”

A história marca, a história lembra, mas, na Rua da Conceição, a história agora é outra. A azáfama do quotidiano de Lisboa, de gente que entrava e saía das lojas para tratar da vida, foi substituída pelo frenesim dos turistas e por hotéis em construção ou lojas de souvenirs. Os passeios estão lotados de pessoas, mas o português é a língua que menos se ouve. “Isto daqui à Rua Augusta está tudo vendido para apartamentos e hotéis, e acabam-se com as lojas”, lamenta Alfredo.

Perto do cruzamento com a Rua da Prata encontra-se uma das poucas lojas com história sobreviventes. Por fora, veem-se duas entradas com portas de madeira e uma pequena janela entre ambas. Uma placa por cima diz: Alexandre Bento Lda. Ao lado da porta da esquerda, está um poster com a imagem de uma costureira. Pode ler-se: “Desde 1898, a tua retrosaria de sempre”.

A entrada na loja é como uma viagem no tempo ao passado. Os detalhes em madeira no exterior prolongam-se até ao interior do estabelecimento. São 40 as gavetas de madeira que preenchem as paredes, botões e linhas de todos os tamanhos e feitios saltam à vista. “Não há nenhuma loja destas, que eu conheça, com este estilo em madeira. Gastámos um dinheirão há 40 anos, mas valeu a pena”, orgulha-se a voz vinda do balcão. É lá que se encontra Alfredo Ricardo, o proprietário, que aponta algumas notas num caderno de pequenas dimensões, outrora o mesmo menino que corria atrás dos elétricos. Hoje com cabelos grisalhos, óculos retangulares e a pele um pouco engelhada, está a tratar das contas, enquanto a loja está vazia. “Não conheci o fundador. Só trabalhei com a mulher e os filhos. Foram eles que quiseram que eu ficasse com isto. Era uma loja que tinha muita clientela e agora tem pouca”, lamenta.

A Rua da Conceição foi, em tempos, conhecida como Rua Dos Retroseiros devido ao elevado número de retrosarias. Onde existem apenas três espaços do género abertos já chegaram a ser a 17, e clientes nunca faltavam. “A gente chegava aqui às 9 da manhã e já tinha uma fila de pessoas à espera para serem atendidas. Era espetacular”, recorda o proprietário com um sorriso.

Foto do projeto Lojas com História

O trabalho de marçano

Na Rua dos Retroseiros, a afluência sentia-se desde cedo e o jovem Alfredo não tinha mãos a medir. Varria o chão, limpava os vidros, fazia e entregava as amostras aos modistas, tratava do correio… O tempo não chegava para tudo e, embora corresse para apanhar o elétrico com o objetivo de chegar a horas às aulas, poucas vezes era suficiente. “Às vezes, às 7 horas da manhã, mandavam-me ir varrer a casa e limpar os vidros. Tinha de ir a correr para a escola e depois uma pessoa chumbava por faltas”, lembra.

O trabalho de marçano não era fácil. Começava cedo, acabava tarde e a faltavam de leis laborais para proteger as crianças do trabalho infantil, que para além de estudarem ainda trabalham horas a fio.

Agora com 85 anos, Alfredo Ricardo recorda estes tempos difíceis: “Na altura, era uma escravidão, éramos escravizados. Não havia leis como agora. Chegava às vezes à meia-noite a casa e ainda não tinha jantado. Era muito complicado.”

Foto Lojas com História: Fernando Ricardo começou a trabalhar como marçano e é hoje proprietário. Setenta e dois anos da sua vida passam por esta loja

A morte das retrosarias

Se antigamente havia trabalho a mais, atualmente há a menos. O negócio das retrosarias tem enfrentado vários desafios ao longo dos anos. A industrialização da moda, a expansão da fast fashion no início dos anos 2000 e, mais recentemente, a explosão do comércio online são apenas alguns adversários que foram, e ainda são, precisos de enfrentar. “Há cerca de 20 anos para cá, isto deu uma grande volta. Primeiro apareceu a alta moda, a fabricada em fábrica. Acabaram-se com as modistas e os alfaiates. Eles é que vinham aqui aos botões, às linhas, aos fechos… Depois, apareceram estas inovações das compras online. Hoje, as pessoas compram pela internet e, às vezes, nem sabem o que vão receber”, refere.

Com a evolução destes novos meios, tornou-se muito mais barato e rápido comprar uma nova peça de roupa nestas grandes superfícies ou em lojas online, onde o custo de fabrico e mão de obra é muito inferior, do que recorrer a retrosarias ou costureiras e alfaiates para arranjar peças antigas. A cultura da reparação deu lugar à cultura do descarte e os preços praticados nestas lojas antigas ainda assustam muita gente. “Há pouco tempo, uma senhora comprou uns suspensórios na loja dos chineses. Chegou a casa, experimentou-os e as molas partiram. Veio cá para renovar as molas e eu vendi-lhas a 2,50 euros. Os suspensórios tinham custado 5”, conta.

Num negócio comandado maioritariamente por pessoas de idade, a falta de capacidade de adaptação surge também como um problema. “Em 2013, quando nos obrigaram a pôr os computadores nas lojas, este tipo de tecnologia fazia muito confusão às pessoas, a maior parte já com alguma idade. Muitas não conseguiram adaptar-se àquilo e acabaram por fechar.” O lojista refere-se ao decreto-lei n.º 198/2012, cujos principais efeitos só se fizeram sentir no início de 2013. Esta legislação estabeleceu a criação do sistema ‘e-fatura’ em Portugal e obrigou os negócios a modernizarem-se tecnologicamente. Embora a lei tivesse como principal objetivo o combate à fraude e evasão fiscal, acabou por ter um efeito colateral profundo na demografia comercial do coração da cidade.

A Baixa lisboeta que cedeu ao turismo e à fast fashion é hoje irreconhecível para o homem que aqui chegou há 73 anos vindo da província. Na altura, ainda um menino.

Um monstro de cidade

Guarda, Vale Flor, 1951. Na aldeia, reinava a natureza e a liberdade. Verde por todo o lado. As temperaturas eram baixas, fazia um frio de rachar. Aos dez anos, Alfredo concluiu a quarta classe. Dona Augusta, vizinha que não pertencia à família, mas que gostava muito dele, ofereceu-se para o levar para Lisboa. A sua professora achava que ele tem potencial e sugeriu à mãe que continuasse os estudos, mas a família não tinha possibilidades. A professora insistiu e levantou a hipótese de um seminário. “A minha mãe começou a pensar nisso e eu disse: No seminário não! Vou para Lisboa com a Dona Augusta. E vim para Lisboa”, lembra, agora mais velho. Com alguma mágoa, confessa: “Foi o mal que eu fiz.”

Com 12 anos, a chegada à cidade foi um choque: “Durante muito tempo, chorei muito. Olhava para isto e, para mim, era um monstro.” A liberdade da província desapareceu e foi substituída pelas multidões de pessoas, o barulho dos elétricos e o trânsito da cidade. Ficou a morar num 3º andar com acesso direto ao telhado. Como a dona Augusta era empregada num escritório da Associação dos Produtores de Trigo e passava os dias a trabalhar, nos primeiros tempos, o jovem Alfredo ficava muitas horas sozinho. Para passar o tempo, subia ao telhado e ficava a ver os pássaros a passar enquanto se recordava da vida naquela pequena aldeia da Guarda.

Apesar de tudo, os tempos eram outros e arranjar emprego era fácil e rápido, mesmo para uma criança. Já com os 13 anos feitos, candidatou-se e começou a trabalhar no local em que permanece há 72 anos. “Na altura, havia facilidade em arranjar emprego. Quando vim da província, bastou-me responder a um anúncio e fiquei logo com o trabalho”, afirma o atual proprietário.

Um rótulo que não paga as contas

A retrosaria ostenta uma distinção do projeto que pretende preservar e divulgar o legado das lojas emblemáticas da cidade. O espaço está inserido na classificação de Lojas com História, título que foi criado pela Câmara Municipal de Lisboa, em fevereiro de 2015. No entanto, para Alfredo Ricardo, o estatuto atribuído está longe de ser a salvação que a Retrosaria Alexandre Bento tanto necessita. Com a pressão imobiliária, os senhorios do edifício ditaram a sentença: “Não querem renovar o contrato e, infelizmente, já não há volta a dar.”

Por mais que o projeto procure promover as lojas mais tradicionais, o apoio prático não chega tão cedo. “Ajudas da câmara? Nunca tivemos.” Alfredo Ricardo admite que a falta de apoios destas ações e a escassez de clientes leva-o a repensar a vida: “Arrependo-me de ter ficado com o negócio. Temos muitas despesas e muitas delas são pagas do meu próprio bolso. Se hoje me dessem o negócio para a mão, eu não aceitaria.”

O rótulo não paga mesmo as contas. Pela Baixa de Lisboa fora vemos estas lojas vazias, sem as filas expressivas de outrora. Alfredo Ricardo acredita que “tudo irá ficar resumido a souvenirs. As drogarias, as mercearias, as manteigarias… todas elas fecharam”.

A retrosaria Alexandre Bento Lda vai encerrar em setembro de 2027. “Eles vão vender isto e depois? Depois. vão construir hotéis ou outra coisa qualquer. Infelizmente, já não há mais nada a fazer, querem isto tudo limpo”, lamenta.

E assim, entre o peso da idade, a ausência de apoios e uma cidade que se transforma a um ritmo alucinante numa homenagem ao turismo e à especulação imobiliária, as poucas retrosarias e lojas com história sobreviventes vão desaparecendo uma de cada vez. No fim, com 85 anos de vida e 72 de trabalho naquele local, Alfredo Ricardo vai mesmo ver as 40 gavetas de história fecharem-se para sempre.