Há sempre qualquer coisa de especial nos aeroportos. Pessoas que vão e pessoas que vêm, pessoas tristes e pessoas alegres, pessoas relaxadas e pessoas ansiosas, pessoas com pressa e outras vagarosas. Pessoas e pessoas. Pessoas.
Como se o mundo não fosse mais do que um imenso terminal aeroporto de chegadas e partidas, de estadas mais ou menos longas e de corridas em passadeiras rolantes ou corpos caídos sobre sofás, quase sempre desconfortáveis. Como se a vida não fosse mais do que a corrida incessante pelo próximo voo ou pela aterragem aguardada, no regresso às nossas raízes ou a outro vaso de terra qualquer.
Um terminal de aeroporto é um mundo de possibilidades. E como todos os mundos de possibilidades, está quase sempre por cumprir. Porque a possibilidade é isso mesmo. Uma coisa possível ou a ausência de coisa possível. Raramente a decisão é entre duas coisas possíveis. Normalmente é entre uma coisa possível e o contrário disso: permanecermos deitados no sofá desconfortável, feito para que ninguém se deite, mas onde, insistentemente, moldamos os nossos corpos até caberem, independentemente do desconforto com ou da terapia fisiátrica que sabemos que teremos de fazer quando sairmos dessa relação.
Os empregados dos terminais de aeroportos não passam de adereços, quase sem vida, como se fossem sombras tridimensionais da luz branca dos corredores, desenhada para nos sentirmos tão desconfortáveis como nos sofás. Entram e saem num turno contínuo porque num terminal de aeroporto não há noite nem dia. Há um devir constante de luz branca artificial que nos faz sentir etéreos, planando sobre o tempo e o espaço.
Nunca se soube de um psicopata nos terminais de aeroportos. Com tanta gente que passa, desligada uma da outra, é curioso que nunca tenha havido homicídios nos aeroportos. Talvez porque ali já não estamos vivos, de facto. Estamos entre vidas. E entre vidas não é possível morrer. Não sei, há sempre qualquer coisa de especial nos aeroportos.

