A obra Os Engenheiros do Caos, de Giuliano da Empoli, analisa a ascensão do populismo contemporâneo e a forma como as novas ferramentas tecnológicas estão a transformar profundamente a política. O autor mostra que o crescimento de figuras como Donald Trump, Matteo Salvini, Viktor Orbán ou Jair Bolsonaro não pode ser explicado apenas por crises económicas ou por descontentamento social. Por trás desses líderes, há estratégias e uma nova forma de entender o poder político.
Os verdadeiros protagonistas desta era raramente aparecem nos palcos ou nos debates televisivos. Segundo Giuliano da Empoli, trabalham nos bastidores e são analistas de dados, consultores digitais, especialistas em marketing político e gestores de plataformas. São os chamados “engenheiros do caos”. Mais do que criar líderes carismáticos, ajudam a produzir as condições para que estes prosperem. Utilizam algoritmos, segmentação de públicos, campanhas personalizadas e narrativas polarizadoras para influenciar perceções e reorganizar o debate público.
O populismo como linguagem mediática
Uma das ideias centrais do livro é que o populismo contemporâneo não deve ser entendido apenas como uma posição ideológica, mas também como uma forma de comunicar. Para o explicar, o autor recorre à metáfora do Carnaval, uma festividade que representa a suspensão temporária das hierarquias, a inversão das normas e a celebração da transgressão. De forma semelhante, o populismo cria um espaço político em que as figuras que desafiam convenções atacam adversários e rompem com regras institucionais passam a ser percecionadas como mais genuínas e mais próximas do povo do que os políticos tradicionais.
Como explica Giuliano da Empoli: “Os defeitos e vícios dos líderes populistas transformam-se, aos olhos dos eleitores, em qualidades. A sua inexperiência é a prova de que não pertencem ao círculo corrompido das elites e a sua incompetência é vista como garantia de autenticidade.” É precisamente por esta razão que líderes polémicos conseguem mobilizar apoio mesmo quando acumulam escândalos, incoerências ou declarações falsas. O seu valor político já não reside na coerência programática, mas na capacidade de representar a revolta contra o sistema.
Neste contexto, o populismo afirma-se como uma linguagem mediática assente na provocação, no choque e na visibilidade. O líder destaca-se não pela solidez das propostas, mas pela aptidão para captar a atenção, mobilizar emoções e impor presença constante no espaço público. Assim, a política passa a disputar-se menos no terreno da argumentação e mais no da performance.
A centralidade da emoção na política digital
A força dessa linguagem está intimamente ligada ao modo como hoje consumimos informação. Como refere o investigador e perito internacional Vitor Tomé: “A nossa forma de interagir com os media é muito mais emocional do que racional.” O sucesso do populismo não depende apenas dos líderes, mas também da própria estrutura dos ambientes mediáticos contemporâneos.
As redes sociais recompensam conteúdos que geram reação imediata, seja de indignação, medo, entusiasmo ou raiva. Num espaço regulado por cliques, partilhas, comentários e métricas de engagement, a emoção torna-se frequentemente mais eficaz do que a argumentação racional. A este propósito, o ensaísta ítalo-suíco recorda o lema da Breitbart News, plataforma mediática de extrema-direita que Steve Bannon dirigiu durante vários anos: “Facts get shares; opinions get shrugs”, isto é, “factos ganham cliques; opiniões ganham desdém”. A formulação mostra como a informação passa a ser tratada segundo critérios de impacto e circulação.
Os exemplos mais conhecidos confirmam esta dinâmica. Donald Trump utilizou o X, antigo Twitter, como palco permanente de conflito, dominando ciclos noticiosos com mensagens provocatórias. Matteo Salvini explorou vídeos curtos e transmissões em direto para construir uma imagem de proximidade popular e presença constante. Jair Bolsonaro mobilizou comunidades digitais através de mensagens simples, polarizadoras e altamente emocionais. Em todos estes casos, a eficácia política resultou da adaptação da liderança às lógicas mediáticas da atenção.
Giuliano da Empoli ilustra esta transformação recorrendo à personagem Waldo, da série Black Mirror. Sem um programa consistente nem uma ideologia estruturada, Waldo conquista popularidade através do sarcasmo e do ataque permanente às elites. O autor observa que “o Waldo, de Black Mirror, não é nada mais do que a tradução política das redes sociais: uma máquina temível que se nutre de raiva e tem como único princípio o engajamento dos seus partidários”. A referência é esclarecedora porque mostra como nas plataformas digitais o conteúdo mais valioso não é necessariamente o mais verdadeiro ou o mais útil, mas o que gera mais interação. A raiva, o medo e a indignação tornam-se, assim, recursos politicamente rentáveis.
O autor italo-suíco acrescenta ainda que essa raiva não nasce apenas de fatores económicos. Resulta também do encontro entre duas tendências: o enfraquecimento das instituições que tradicionalmente canalizavam o descontentamento popular, como os partidos de massa, os sindicatos ou a Igreja, “e a irrupção de novos media que parecem ter sido concebidos de propósito – e foram, de facto – para exacerbar as paixões mais extremas”. A este propósito, Vitor Tomé é claro: “Os políticos sabendo que nós agimos sobretudo emocionalmente, tentam partilhar connosco conteúdos que nos façam reagir emocionalmente.”
Fragmentação da esfera pública
Se durante décadas a seleção do que chegava ao público dependia sobretudo de jornalistas, editores ou diretores de informação, hoje esse papel pertence em grande parte aos algoritmos. Estes sistemas automáticos analisam dados sobre o comportamento dos utilizadores – como cliques, gostos, tempo de visualização, partilhas ou pesquisas anteriores – para decidir que conteúdos aparecem primeiro, quais ganham maior alcance e quais permanecem praticamente invisíveis. Desta forma, organizam uma parte significativa do debate público digital. Ao contrário dos antigos gatekeepers, estas escolhas acontecem de forma invisível, contínua e à escala global.
No livro lançado em maio de 2023 em Portugal, o autor mostra como o Movimento 5 Estrelas, partido populista fundado em Itália, percebeu desde cedo esta mudança. Ao recolher dados sobre preferências dos utilizadores, testar mensagens e adaptar continuamente a comunicação às reações do público, o estratega digital Gianroberto Casaleggio antecipou uma nova forma de fazer campanha e conquistar apoio. A política transforma-se, assim, num sistema de feedback permanente, semelhante aos modelos usados por plataformas como a Netflix. “A força e a resiliência do futuro Movimento 5 Estrelas virão desta combinação inédita: o populismo tradicional que se casa com o algoritmo e dá à luz uma temível máquina política” (p. 40), destaca o autor.
Uma das consequências mais visíveis deste poder algorítmico é o microtargeting, que corresponde à possibilidade de enviar mensagens políticas diferentes a públicos altamente segmentados. Em vez de campanhas dirigidas ao eleitorado em geral, surgem comunicações ajustadas a perfis específicos, definidas a partir de dados comportamentais recolhidos online, como gostos, interações, localização, hábitos de consumo e padrões de navegação.
Segundo Vítor Tomé, “uma empresa especializada em microtargeting consegue os dados de milhões de pessoas no Facebook e, a partir dos dados delas, estrutura um conjunto de mensagens que vai fazer essas pessoas pensarem e agirem de determinada maneira.” O caso mais conhecido foi o da empresa Cambridge Analytica, associada às eleições norte-americanas de 2016 e ao referendo do Brexit. Em vez de tentar convencer toda a população com um argumento comum, procurava influenciar segmentos específicos, como eleitores indecisos, abstencionistas ou grupos mais vulneráveis à desinformação.
Este tipo de estratégia revela uma mudança na comunicação política, cada vez mais dependente de competências técnicas e análise de dados. Nesse contexto, Da Empoli cita Dominic Cummings, diretor da campanha do Brexit: “Se quer fazer progressos na política, não contrate experts ou comunicadores. É melhor utilizar os físicos.”
Esta lógica de personalização ajuda também a compreender o fenómeno das bolhas de informação. Quando os conteúdos são selecionados com base nos hábitos e preferências de cada utilizador, tendem a diminuir o contacto com perspetivas divergentes e a reforçar a exposição a mensagens semelhantes às que já despertaram interesse. “Vivemos todos em bolhas de informação. A ideia de que só os outros é que vivem, é errada. Mas o problema não é nós vivermos em bolhas, o problema é não termos consciência disso”, garante Vítor Tomé. No fundo, todos os utilizadores recebem conteúdos filtrados por sistemas que respondem aos seus padrões de comportamento. O resultado não é apenas diversidade de opiniões, algo normal em democracia. O problema está na fragmentação do espaço público. Cidadãos diferentes passam a viver em ambientes informativos separados, com agendas distintas, factos diferentes e perceções incompatíveis da realidade comum.
Protagonismo político das plataformas digitais
Esta reorganização do debate público alterou também a natureza do poder. “Quem domina a tecnologia tem mais poder do que os políticos”, sublinha o investigador. O poder político já não depende apenas de eleições ou de instituições representativas. Depende também do controlo das infraestruturas digitais onde circula a informação pública.
Plataformas como o Facebook, TikTok, Instagram ou X são empresas privadas, com interesses económicos próprios, que influenciam o espaço público global sem terem legitimidade democrática direta. Decidem regras de moderação, critérios de visibilidade e modelos de monetização que afetam campanhas eleitorais e debates públicos. Isso significa que uma parte crescente da vida democrática decorre em espaços regulados por lógicas comerciais e não por critérios de interesse público.
O TikTok tornou-se particularmente relevante em disputas políticas recentes devido à sua capacidade de recomendar conteúdos com enorme rapidez e precisão. O caso mais expressivo, no contexto europeu, foi o das eleições presidenciais da Roménia de 2024. O candidato ultranacionalista Călin Georgescu alcançou um resultado surpreendente, apesar da reduzida presença nos media tradicionais e de resultados pouco expressivos nas sondagens anteriores. Grande parte da sua notoriedade pública foi construída no TikTok, onde vídeos curtos com mensagens nacionalistas, linguagem simples e forte carga emocional obtiveram milhões de visualizações.
Seguiram-se investigações sobre campanhas coordenadas, contas falsas e falhas na identificação de conteúdos patrocinados. A Comissão Europeia abriu procedimentos ao abrigo do Digital Services Act, regulamento europeu que exige maior transparência e responsabilidade às grandes plataformas digitais. Já o Tribunal Constitucional romeno acabou por anular o processo eleitoral. Ainda que não se possa atribuir o resultado apenas ao TikTok, Vitor Tomé afirma que o caso “deu para perceber como estas novas plataformas podem influenciar as opiniões e alterar rapidamente preferências eleitorais”. E acrescenta: “O TikTok já não é apenas entretenimento, pode ser também um ator político”.
Desinformação no debate democrático
Neste ambiente, a desinformação tornou-se uma das ferramentas mais eficazes da política digital. Notícias falsas, vídeos descontextualizados, imagens manipuladas ou rumores difundidos por redes de contas falsas circulam rapidamente e alcançam grande visibilidade. Muitas vezes, não se trata de inventar totalmente um facto, mas de distorcer elementos reais, retirar do contexto ou explorar interpretações enganosas.
Vítor Tomé salienta uma perspetiva decisiva: “Todos nós caímos em desinformação. Todos nós somos enganados.” O problema, portanto, é transversal e explora fragilidades cognitivas comuns. A manipulação é eficaz precisamente porque se apoia em emoções, automatismos e predisposições que fazem parte da experiência humana normal.
O investigador distingue ainda comunicação estratégica de manipulação deliberada. Interpretar dados segundo interesses partidários faz parte do debate democrático, já que toda a comunicação política procura enquadrar os acontecimentos de forma favorável aos seus objetivos. Inventar factos, difundir informação falsa ou ocultar elementos relevantes já constitui manipulação. Mesmo assim, reconhece que “hoje em dia é muito difícil estabelecer a fronteira entre a comunicação política e a manipulação porque muitas vezes as mensagens já são construídas para influenciar”. Essa dificuldade é um dos grandes problemas atuais. Numa democracia pluralista, a disputa de interpretações é legítima. O problema surge quando a persuasão deixa de assentar em argumentos e passa a recorrer ao engano sistemático, à exploração emocional e à desinformação.
O inimigo permanente e a democracia iliberal
A manipulação não se limita à circulação de falsidades. Muitas vezes, estrutura-se através da construção de inimigos permanentes. Ao analisar o percurso de Viktor Orbán, Giuliano da Empoli mostra que muitos projetos populistas crescem a partir dessa lógica. Migrantes, elites liberais, jornalistas, instituições europeias ou minorias tornam-se alvos simbólicos que reforçam identidades internas e mantêm mobilização constante. Como escreve o autor, “a política consiste, antes de tudo, em identificar o inimigo. É sobre essa ação fundamental que se constroem um percurso e uma comunidade de pessoas unidas numa mesma luta”.
No caso da Hungria, Orbán utilizou campanhas anti-imigração e anti-União Europeia para consolidar o poder interno, ao mesmo tempo que fragilizava contrapoderes institucionais e media independentes. Esta estratégia contou com a influência do consultor político Arthur Finkelstein, apresentado por Da Empoli como um dos grandes “engenheiros do caos”. É neste contexto que surge o conceito de democracia iliberal: um modelo em que continuam a existir eleições, mas que os valores centrais da democracia liberal são progressivamente enfraquecidos, como a separação de poderes, a liberdade de imprensa, o pluralismo e a proteção das minorias.
Reinventar a democracia
Apesar do diagnóstico crítico, o ensaísta não termina num registo fatalista. Pelo contrário, defende a necessidade de reinventar a democracia para uma nova época. O autor descreve esta nova realidade como uma era de “política quântica”. A esfera pública deixou de obedecer a lógicas lineares e previsíveis. Tal como na metáfora retirada da física, o observador interfere no fenómeno observado e podem coexistir diferentes versões da realidade. Num ambiente mediado por algoritmos, cada utilizador recebe informação distinta, o que fragiliza referências comuns e torna o debate público mais instável.
Ao mesmo tempo, a política tornou-se progressivamente mais tecnificada. A recolha massiva de dados, o microtargeting e o teste permanente de mensagens aproximaram as campanhas de um processo quase científico, orientado por métricas, previsões e otimização contínua.
Na parte final do livro, o autor convoca John Maynard Keynes e defende que é preciso “inventar uma nova sabedoria para uma nova época”, assumindo até a necessidade de parecermos “heréticos, inoportunos e desobedientes” perante modelos herdados. A ideia é clara: não basta defender a democracia com instrumentos pensados para outro tempo. É necessário criar novas formas de participação, regulação e cidadania adequadas ao ambiente digital.
Vítor Tomé aponta caminhos concretos para essa renovação: verificar fontes, ler para além do título, confirmar datas, cruzar versões e interromper o impulso da partilha imediata. Acima de tudo, sublinha uma ideia decisiva: “cidadãos mais informados e com mais literacia política e mediática estão menos suscetíveis a serem manipulados pela política.”
Como escreve Da Empoli, recuperando Woody Allen, “na era do narcisismo tecnológico, os maus sem dúvida compreenderam algo que os bons ignoram”. Se os engenheiros do caos souberam reinventar a manipulação para a era digital, cabe agora às sociedades democráticas reinventar a liberdade e a participação para essa mesma era.